Videoarte – Hong Kong Song de Robert Cahen
Hong Kong Song é videoarte, com tudo de bom e de ruim que a proposta possui. Tecnicamente, o filme se afasta do conceito de som como mero acréscimo de carga dramática da imagem. Os dois elementos se combinam em uma única expressão artística, incoerente se desmembrada.
A técnica não é gratuita e serve para transmitir alguns conflitos, o mais evidente deles: tradição x modernidade. Imagens aceleradas acompanham sons acelerados, o mesmo valendo para a calmaria. Ver a passagem de um carro de bombeiros, por exemplo, indica urgência, então áudio e vídeo começam a acelerar. Linguagem direta.
O entendimento destes artifícios começa na análise da sobreposição de diferentes imagens e sons, revelando uma cidade que se atropela em ritmo frenético, sem que haja tempo de conhecer o indivíduo misturado à massa. A atenção não se foca em um ponto determinado, pois se perde em meio ao turbilhão de informações, em uma montagem metafórica à rotina de formigueiro da grande metrópole. Isso fica claro em imagens de ônibus sobrepostas a cenas de pessoas caminhando, um verdadeiro atropelamento.
O ritmo cresce na pressa do cotidiano e diminui nas cenas de natureza. Não é original, mas é uma mensagem de fácil assimilação. No oriente, há um rompimento na linha do tempo muito simbólico para eles. O conceito ancestral de agricultores, pescadores e monges que são donos do próprio tempo se defronta constantemente com os padrões frenéticos do mundo globalizado. Por várias vezes o filme se utiliza desta alternância. As cenas da barca no rio são calmas, com o barulho distante do apito e o fundo de água escura. Depois, muitos carros correndo e pessoas apressadas na rua. Cresce o ritmo do som, que se torna incômodo e ruidoso. Numa mudança brusca, nos deparamos com uma árvore, perdida em meio ao caos. Através de seus galhos passam os raios do sol. Os ruídos se tornam música.
O filme volta a utilizar a água do rio ao mostrar pessoas em pequenos barcos. O efeito utilizado cria um fantasma da imagem principal e o som é seguido de seu eco. Há nessa dissociação duas idéias: a 1ª reforça a superioridade da massa em relação à identidade do indivíduo, já que o indivíduo está fora de foco, literalmente. A 2ª retoma o conflito central. Aqui, a separação do corpo e da “alma” indica a força do hábito. São pessoas que estão ali todos os dias, fazendo a mesma coisa, trabalhando mecanicamente para sobreviver, enquanto as demais correm sem a certeza do dia de amanhã. Não importa o que faça no restante do dia, uma parte do pescador sempre está no rio a trabalhar.
Apesar da velocidade do mundo, a sociedade deixa sua marca. No caso evidenciado na videoarte e na vida real, a poluição.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















