Sob a Luz do Abajur
O novo livro de Richard Diegues reúne 17 contos escritos em datas esparsas, mas que carregam no cerne algo em comum: se parecem com o tipo de história contada em volta do fogareiro, dentro da barraca de camping, debaixo da coberta com a lanterna acesa ou, como diz o nome do livro, Sob a luz do abajur.
Esse não é um formato novo para o autor, que participa da série Necrópole e organizou a coletânea Visões de São Paulo - Ensaios Urbanos. Sob a luz do abajur é composto por contos curtos, entre 2 e 5 páginas, e textos introdutórios que os acompanham. Se as introduções nem sempre funcionam, os contos são em geral eficazes. A opção por narrativas diretas sem firulas ajuda a manter o fôlego e o tom de suspense.
Richard segue o clima sobrenatural que conquistou os fãs nos trabalhos anteriores, permitindo-se diversificar os temas. É perceptível desde o início a facilidade do autor em mudar sua voz. Ele soa convincente como um caminhoneiro, um executivo, uma prostituta ou um pugilista.
O abajur, por exemplo, traz como protagonista uma menina de três anos de idade e aborda o medo do escuro, sem o interruptor salvador ou a palavra de consolo dos pais. Que caiam as pedras e Santo Embuste viram o fogo para a igreja, sem medo de apertar o gatilho. Em um tom crítico, religião e ficção são colocadas no mesmo patamar. No fio da navalha, um dos mais interessantes, acompanha um sujeito com um dom peculiar, que trabalha numa cutelaria e tem entre seus fregueses alguns psicopatas adeptos do facão. Difícil não pensar no jargão “o cliente tem sempre razão” ou nesses textos que viram febre no mundo corporativo.
“Por ocasião, vou lhe dizer que é apavorante trabalhar neste lugar. Fora o cuidado ao se mover, também é necessário olhar bem onde se senta. Mas isso é simples, adquire-se o hábito depois do terceiro ou quarto corte”. - No fio da navalha.
Richard Diegues também foge de uma armadilha atroz que acompanha os contistas: o último parágrafo. Com exceção de um conto ou outro, não há frases prontas repentinas que tentam agregar um valor que o restante da história não tem ou criar uma grande virada de trama, quase ali no ponto final. O autor prefere um processo honesto, que lembra a escola tradicional dos escritores de terror.
Stephen King costuma basear seus livros em reações. Seus personagens têm uma vida comum, geralmente no Maine, e se vêem frente a frente com o inusitado. As histórias se desenvolvem com os personagens tentando se livrar das arapucas criadas por ele.
Richard escolhe outro caminho. Ele utiliza cenários cotidianos, pequenos medos que se entranham no frenesi da cidade grande e só precisam ser retrabalhados no campo da fantasia. Em seus contos, o terror não causa surpresa nos protagonistas, é parte natural da vida. É preciso lidar com a situação e encará-la de frente.
“O tiro foi certeiro. Estirei o braço à frente, fiz a mira e, mesmo antes de pensar, já havia pressionado o gatilho. Confesso: mirei entre os olhos (…) mas o que importa? Estou pouco ligando para o coice da pistola. Entre os olhos ou no centro da testa, acaba tudo da mesma maneira”.
Sob a luz do abajur tem 94 páginas e saiu pela Tarja editorial, da qual Richard Diegues é um dos editores.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















