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Tropa de Elite

Muita coisa mudou desde Cidade de Deus (2002). Lembro de ouvir pós-sessão e em debates que aquilo era um exagero. O espectador que não se via retratado no filme preferia não perceber o quanto de realidade havia na ficção. Criança com armamento na mão? Como pode ter isso no Brasil? Isso é coisa de guerra. E por aí vai. Em Cidade de Deus, a polícia praticamente inexistia, fazia parte do cenário, eliminando uma variável importante para explicar o ciclo da violência. Afinal, não é possível fingir que entre o leão e a grama só existe a zebra.

Curiosamente, o narrador de Cidade de Deus era um aspirante a repórter, o que na teoria lhe tornava imparcial para tratar de um assunto tão delicado. Na época, na boca do povo, o nome de Zé Pequeno.

Cinco anos depois, Tropa de Elite (que vale comentar, não é fascista). Ninguém duvida de que o filme seja um retrato da realidade, respeitando os limites de uma obra de arte. Criança com arma na mão? Que triste cotidiano.

Tropa de EliteWagner Moura interpreta o Capitão Nascimento, comandante de uma unidade do Bope que quer deixar o posto e para isso precisa encontrar um substituto à altura. Com a mulher grávida, o filho quase nascendo, Nascimento se sente pressionado a viver, sair da linha de tiro. Em Tropa de Elite, o Bope está no topo da cadeia alimentar. Eles são respeitados pelos traficantes, são honestos, estão acima da corrupção policial. Aliás, traficantes e policiais ocupam a mesma camada da pirâmide, tentando uma simbiose apoiada em balas, mas vivendo de parasitismo mútuo alimentado por drogas e dinheiro.

Paralelamente aos dramas profissionais e familiares de Nascimento, há a história de Neto e Matias. Os dois amigos de infância entram para a polícia e se deparam com um esquema de corrupção entranhado em toda a hierarquia da corporação. Matias é estudante de direito e se vê em conflito no meio dos colegas de faculdade viciados que participam de marcha pela paz, mas são amigos de traficante (fazendo supostos trabalhos sociais). Neto é menos cerebral e mais explosivo que Matias, e tenta usar a corrupção da polícia para fazer um trabalho honesto (com todos os paradoxos possíveis). O filme começa com os amigos no alto do morro, no meio de um tiroteio, cercados por traficantes. Para resolver o problema, a polícia aciona o Bope, e é assim que Nascimento esbarra com seus dois possíveis substitutos.

Mesmo antes da estréia, Tropa de Elite foi notícia com o seqüestro de parte da equipe em uma das favelas, o roubo das armas cenográficas e não-cenográficas e o vexame da pirataria, com cópia pirata indo parar até no gabinete do Gilberto Gil (e na casa de metade dos jornalistas que não queriam perder a notícia).

Tropa de EliteSó a pirataria já dava uma crítica inteira. No país, as pessoas fingem acreditar que comprar produto pirata é redistribuir renda, é ajudar a aumentar o índice de emprego. Artista é tudo rico, gravadora é tudo endinheirada. Ninguém se lembra do Zé, que trabalha de auxiliar na recepção e que no primeiro corte de gastos da empresa perde o emprego porque o bacana economizou trinta reais pra comprar mais um par de óculos Prada. É uma ilusão auto-imposta e uma desculpa de validade duvidosa.

De volta ao filme.

As atuações estão impecáveis, cada um aparecendo o quanto deve, com papéis bem-definidos e sem redundância.

Wagner Moura conseguiu um personagem eterno, Caio Junqueira e Fernanda Machado se destacam com brilho próprio e André Ramiro tem a oportunidade de explorar o único personagem do filme que realmente vivencia uma transformação e encara de frente os próprios conflitos. Jorge Padilha orquestrou as cenas de ação e os momentos dramáticos com firmeza, tentando buscar entre o preto e o branco mais do que tons de vermelho e sem apelar para a plasticidade.

O roteiro é enxuto e consistente, e só peca pela narrativa em primeira pessoa. Apesar de ser um grande facilitador na hora de contar a trama, o recurso elimina a força das histórias paralelas, colocando-as no mesmo foco de atenção. Isso mantém o filme inteiro no pico de adrenalina do Capitão Nascimento, enfraquecendo as cenas que deveriam funcionar como momentos de calmaria e diminuindo a força do clímax, do impacto final (que não é pequeno).

São 116 minutos que passam voando. Um dos melhores filmes nacionais desse início de século.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0009, em 12/10/2007

 

 

 

 

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