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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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31/10/2007

Justiça a qualquer preço

Poucas vezes na vida vi um filme tão ruim quanto Justiça a qualquer preço. Quando nos primeiros cinco minutos Richard Gere cita em off “Quando você olha tempo demais dentro do abismo o abismo olha dentro de você” já é possível prever a enxurrada de mesmices que virá pela frente. Não só pela frase em si, que deve fazer Nietzsche se revirar no túmulo a cada citação, mas pelo recurso de frases de impacto em off para dizer que o filme retratará o interior em conflito do protagonista. Em outras palavras, mesmo que ele não abra mais a boca para falar diretamente com o espectador, tudo o que for exibido na tela será apenas um reflexo de seus demônios. Uma longa mistura de tortura (do espectador) e auto-análise (dos personagens) que durará 1 hora e 40 minutos.

Vamos então a “trama”.

Justiça a qualquer preçoRichard Gere interpreta o agente Errol. Ele é uma espécie de agente social que visita pessoas acusadas de abusos sexuais (o que você imaginar o filme tem). Ele deve preencher um pequeno questionário inútil, assumir que está tudo bem e que os ex-detentos realmente levam uma vida saudável. Hora de ir para casa ver televisão, beber cerveja e assistir a uma partida de beisebol. Mas quando você combate um monstro você acaba se transformando em um (desculpem não citar a frase com perfeição, mas qualquer clichê funciona aqui, já que o filme se apropria de todos eles). Errol, diferente de seus amigos de trabalho, possui consciência e é um atormentado. Ele é solitário, não tem amigos, não tem vida íntima (ele trabalha com delinqüentes sexuais, entende a lógica?). Lazer não é para pessoas como Errol. Só ele enxerga a verdade. Só ele sabe quem é bom e quem é mau. Desenvolveu um faro de hiena tão apurado que consegue saber quando um dos ex-detentos está preste a cometer outro delito. Não pode deixar os monstros andando por aí impunemente. É claro que uma pessoa como essa incomoda tanto que não é bem vista nem pelos amigos de trabalho e nem pelos predadores que ele fiscaliza. Por isso, Errol sofre muita pressão e é obrigado a se aposentar. Para fazer isso aliviado, ele precisa escolher um substituto à altura de suas paranóias. Mexendo um papel aqui e outro ali, ele escolhe Allison, a personagem de Claire Danes. O brucutu justiceiro que espanca ex-detentos escolhe a patricinha desequilibrada como a substituta ideal. Perfeito, não? Para o roteiro sim e lá pelas tantas você descobre o porquê (ou adivinha em dez minutos, o que não fará a menor diferença). Afinal, este é um filme sobre abuso sexual e a matemática só funciona se houver uma mulher na fórmula. Melhor ainda se houver uma mulher dos dois lados: do lado de quem investiga e do lado de quem é investigado (são tempos politicamente corretos, direitos iguais para todos).

Errol tem pouco tempo para treinar Allison. Os dois saem para visitar os maníacos sexuais e Allison descobre que Errol usa métodos pouco convencionais na sua missão de agente social. Ele pergunta o que não deve, ameaça, investiga. Ó, como ele é cruel. Nesse meio tempo, uma menina desaparece e Errol tem certeza de que um dos maníacos arrependidos que ele acompanha está envolvido no caso. É o jeito sem graça de fazer a trama avançar, já que os conflitos internos aqui são pura maquiagem.

Como durante o filme Errol e Allison só visitam dois desses maníacos, fica meio óbvio quem são os culpados. A polícia, é claro, só possui em seu quadro energúmenos incapazes de seguir uma pista. Em determinado momento um dos personagens se pergunta “eu não sei como a polícia não pensou nisso”, o que reflete um lapso de senso crítico do roteirista (Hans Bauer é o roteirista de Anaconda 1 e 2, preciso dizer mais?). Já que a polícia não consegue resolver o caso… surpresa… Errol e Allison precisarão salvar a menina, movendo uma investigação por conta própria que, para piorar ainda mais, irá sanar um antigo trauma de Errol.

Sobre a direção. Wai-keung Lau é o criador do filme posteriormente refilmado por Scorsese como Os Infiltrados. Com o Oscar e o sucesso da versão americana, Wai-keung conseguiu uma chance de entrar em Hollywood. A quantidade de roteiros bons não devia ser muito grande e para fingir um filme autoral que foge dos padrões da indústria local nada melhor do que falar sobre sexo e desfilar todos os tipos de perversão existentes nos livros de psicanálise. Wai-keung Lau é um cineasta experiente e sabia que não seria possível extrair muito da pífia história. Sua tática foi usar recursos de filmagem e edição para impor sua marca, o que piorou ainda mais a situação. O filme está cheio de cenas rápidas entrecortadas e os cenários estão sempre na maior escuridão, afinal a alma humana é negra e na escuridão se escondem demônios inimagináveis. Sem nenhum momento criativo, Wai-keung usa os enquadramentos mais práticos para mostrar as belas paisagens desérticas e tentar transmitir com o cenário a desolação que não consegue transmitir com a linguagem.
Para não dizer que o fiasco é total, a atuação de KaDee Strickland como a psicopata enrustida Viola merece algum destaque. Dependendo de seu desempenho em American Gangster, é possível que a carreira da moça comece a deslanchar.

Para encerrar, dois lembretes:

1. Sempre desconfie de um filme que aceita Avril Lavigne no elenco.
2. Quando você olha tempo demais para um clichê, o clichê também olha para você.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Justiça a qualquer preço



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