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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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05/11/2007

Comédia em pé

O gênero stand-up comedy dos americanos se apóia em uma situação muito simples: quanto pior a sociedade, mais papéis o indivíduo tem de desempenhar para viver dentro dela. Desmascarar esses papéis nos faz rir. Rimos quando somos pegos. Tem a ver com constrangimento (nós) ou desfaçatez (as fotos dos jornais).

Em Comédia em pé há o desmascaramento de papéis e há o alívio para que os desmascarados não se sintam muito expostos. Há o que nós fazemos todos os dias e há um “outro” que nos acalma e que é o “outro” de sempre: a mulher, o gay, o japonês. A favor do grupo de comediantes, entre esses “outros” há não-estereotipados como astrônomos. Foi a primeira vez que vi alguém debochar de astrônomos.

A desmontagem de papéis – nossos e desses outros – se dá através da auto-depreciação (“costumamos nos apresentar em bares porque é mais fácil com bêbados”); do pedido explícito de ajuda da platéia (“quando a gente dá essa pausa assim, ó, é a hora de vocês rirem”); e da reiteração de que tudo é verdade (“juro, aconteceu mesmo” ou “eu não estou inventando, o nome do proctologista era mesmo Fernando Pinto Bravo”).

Se o método é o mesmo, a persona varia. Claudio Torres Gonzaga é o amigo de todo mundo: neutro, comum, não ameaça. Sua presença de palco funciona porque ele não inclui o palco como espaço para seu corpo. Ele está lá simplesmente, em um lugar-nenhum. Até o microfone passa despercebido perto dele. É o único dos quatro comediantes que não se apóia na haste de metal em nenhum momento.

Paulo Carvalho faz o agressivo. Camisa para fora da calça, manga arregaçada, corpulento, fala alto e a menção (merecida) ao prefeito do Rio, César Maia, desencadeia grande lista de palavrões. É também quem mais usa a caricatura feminina, imitando vozes esganiçadas e situações depreciativas sobre prisões de ventre e falta de inteligência (“vai procurar um psiquiatra, sua infeliz”).

A convidada do dia (04/11) é Danny Calabresa (“é apelido, viu gente, mas não por causa da pizza, que é redonda e dá para oito, mas porque venho de família italiana”). Seu “outro” são os pobres. Mas, inteligente, ela os ridiculariza a partir de dentro. Com um português errado e situações “vividas” em ambientes populares como os shoppings de zonas pobres da cidade, sua persona é o próprio pobre apontado como sendo o “outro”.

Bruno Motta se apresenta como o meiguinho. Baixinho, tem o gestual de inclinar a cabeça quando sorri e olha com freqüência para o chão ao falar. Imita um maître francês com perfeição (“garçon, meu prato está úmido; non, este é suá sôpa, pôde tomar.”). Nas frases finais, de encerramento, fala dos smurfs, em outro toque afetivo.

Fabio Porchat usa a histeria. Gestos frenéticos, se atira no chão, berra, sua sem parar e perde o fôlego ao brigar com um atendente de atendimento ao consumidor imaginário.

E todos tiram da televisão a maior parte do material.

Os textos funcionam bem ou nem tão bem, a depender não só do mérito ou demérito de cada um como também da familiaridade do espectador com os programas e anúncios televisivos, familiaridade que os comediantes consideram como ponto pacífico. Mas eu, por exemplo, dancei em boa parte das referências.

Paulo Carvalho ridiculariza atrizes e modelos de anúncios de iogurte com fibras, atualmente no ar; Danny Calabresa fala de Russo e Zilu (acho que é isso, não sei o que é isso, suponho que seja algo televisivo que só eu não sei o que é – todos riram menos eu); Bruno Motta fala de comida francesa e do “pão caseiro” do anúncio do McDonald. Fábio Porchat diz que quer matar os funcionários de uma tv a cabo e convence você disso.

Ainda sobre televisão mas com um outro tipo de aproveitamento, Claudio Torres Gonzaga é responsável pelo melhor momento do espetáculo, ao irradiar, como se fosse um locutor de futebol, a “partida” entre banhistas de Copacabana e bandidos que iniciam um arrastão. Muito bom. O gol é quando o pivete abre a carteira roubada e tem dólar. “É dólar!!!” ” É dóóólaaar minha gente!!!” Galvão Bueno não será mais visto da mesma forma depois disso.

A edição paulista do espetáculo se dá em um cinema de shopping.

Há três posições em que um espectador pode receber uma obra criativa: de joelhos, de pé ou pairando no ar. De joelhos quando considera que o assunto, os personagens ou os criadores apresentados são dignos da maior reverência (Shakespeare costuma ser vítima dessa posição, o que o impede de ser apreciado pelo que de fato é, um gozador irônico e genial).

A posição cara a cara, no mesmo nível, se dá misturada quase sempre com indiferença. Por exemplo, os museus-espetáculos, interativos, e toda a lenga-lenga de “desmitificar” as obras de arte (qualquer arte), como se por acaso houvesse, hoje, algum mito a ser desmitificado em uma área onde não só as obras não perduram mas também seus criadores, considerados não mais artistas mas apenas celebridades momentâneas.

E há a posição aérea, que é quando o espectador absorve o que lhe é apresentado com o nítido intuito de se sentir superior àquilo. Por exemplo, a literatura de poetas e escritores periféricos. No elogio obrigatório (afinal, o cara veio lá da periferia, tem de elogiar), a certeza secreta de uma superioridade social.

Esta edição, em um cinema, põe o espectador imediatamente na situação aérea. As poltronas são todas em nível mais alto do que o palco. Pode ser só um acaso, mas funciona. Afinal, todos nós temos os hábitos, cacoetes ou impotências sociais apresentados no palco. Conforta estarmos acima disso, ainda que só no sentido literal.

Há um aspecto mais sério que o espetáculo costeia. É a morte do teatro. A Comédia em pé é teatro. Não tem cenário, figurino, trilha sonora ou texto consagrado mas é teatro. Não tem nem mesmo personagens, substituídos por personas – maneiras de ser inclusas na personalidade do próprio artista. E por ser assim um teatro que não se descola da vida cotidiana mas, pelo contrário, existe justamente por ser um teatro de e na vida cotidiana, ele apresenta uma saída para esta morte já tanto anunciada. O teatro não morre, apenas espalha-se, impregnado em cada minuto do dia.

Fabio Porchat Claudio Torres Gonzaga Paulo Carvalho Danny Calabresa Bruno Motta

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.

Comédia em pé



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