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Jardim Selvagem

Algumas perguntas sempre são comuns em bate-papos sobre arte.

Isso é arte?
Como isso pode ser arte?
Quem disse que isso é arte?

Não esquecendo, claro, daquela conhecida por todos:

O que é arte?


Bosch, Hieronymous. O Último Julgamento. Painel esquerdo da obra Paraíso. Tríptico. 1504. Óleo sobre painel de madeira. Atualmente na Akademie der Bildenden Künste, Viena.Quem dera fosse capaz não só de responder a essas perguntas, mas ser capaz de fazer-me entender (levando em conta que não possuo essas respostas), pois ao ser compreendido a mensagem seria passada e dessa forma estaria sendo compreendida no todo. O todo é sempre uma busca contaste na filosofia. Desconstruir o todo seria a mais perfeita síntese dele mesmo.

Como é o sonho de todo pintor ser capaz de pintar aquilo que vê de uma maneira nova, inovando a arte, trazendo para si toda à vanguarda. Mas a poucos artistas é dada a capacidade de compreender seu próprio tempo, dizem que o artista vê mais que meros homens comuns, mas o artista que não vê a si mesmo é incapaz de ser coerente com o seu trabalho.

Nós somos estranhos no Jardim Selvagem, cegos para os fatos mais banais.

Todo artista, quando jovem, deseja tomar de assalto o jardim selvagem, comer do fruto e mostrar sua descoberta de forma pomposa, grandiosa. Sem perguntar-se, se o que está fazendo vale à pena.

Ele apenas deseja ser o mais famoso, o com maior sucesso, aquele que mudou a história da arte, ao mostrar seus rabiscos copiados da “minha infância”, que foram moldados “pelas minhas experiências”, nada mais que “retratos da minha vida”.

Ele não quer desenhar um olho, ele quer criar um evento para que as pessoas entendam a função do olhar, possam ver que estão olhando, como funciona o processo do olhar, que mecanismos são acionados por essa ação, que o olhar também depende dos nervos, das cores, da explosão de sensação que é a capacidade de olhar. Uma forma de masoquismo?

O novo artista é um jovem que pisa no jardim selvagem, sabendo o que deseja, para que lado seguir, sem preocupar-se com as coisas que já cresciam anteriormente.

Segundo McCloud (2004) “somos uma espécie centrada em nós mesmos, e como tal nos vemos em tudo o que criamos e inconscientemente criamos tudo a nossa imagem e semelhança.”, essa frase não só resume o que sinto em uma mesa de artistas, como mostra toda culpa ao compartilhar dessas idéias.

Hoje meu corpo parece deslocado da realidade.

Desconstruído.

Um corpo Derridiano.

Meu pensamento termina na culpa pelo conhecimento, conhecendo mais sabemos mais de nada, mas saber que se sabe nada é uma grande mudança, não?

Referências:

Livro de: MCCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. São Paulo: M. Books, 2004. 266p.

Imagem de: Bosch, Hieronymous. O Último Julgamento. Painel esquerdo da obra Paraíso. Tríptico. 1504. Óleo sobre painel de madeira. Atualmente na Akademie der Bildenden Künste, Viena.
Fonte: http://artchive.com/artchive/B/bosch/judge_l.jpg.html


Nota: a editora já havia indicado vários livros do Scott McCloud, na gift shop do Aguarrás, muito tempo antes deste artigo. As indicações da gift shop do Aguarrás são pessoais e refletem as indicações de cada colaborador. Esta foi apenas uma coincidência.

 

 

 


Alan Cichela

 

editoria: edicao_0010, filosofia, em 7/11/2007

 

 

 

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