Diana Kacso e seu feito de última hora: os Doze Transcendentais sem pausa
Que Diana Kacso é capaz de feitos pianísticos incríveis todos nós já sabíamos. Mas tocar os Doze Estudos de Execução Transcendental de Liszt sem levantar do banco, logo após um 1º round de Estudos Sinfônicos de Schumann, não é pra qualquer um.
Mas Diana não é qualquer uma. Premiada em alguns dos mais importantes concursos internacionais do mundo (como o Chopin, o Leeds, o Arthur Rubinstein e outros), Diana fez uma carreira fantástica nas décadas de 70 e 80. Por uma conjunção de motivos, abandonou os palcos. Se mudou para Nova York, onde casou e teve dois filhos
Em 2006 Diana voltou ao Brasil para ficar (70% do tempo, como ela mesma disse), e está retomando a sua carreira. Seu filho Gabriel é cellista, e se apresenta regularmente com a mãe.
Pois bem, dia 8 foi o primeiro recital ‘importante’ de Diana no Rio em muito tempo. Não apenas por ser na Sala Cecília Meireles, uma das melhores salas de concerto do Rio, mas pelo programa cabeludo que ela tocou.
Foram os belíssimos e dificílimos Estudos Sinfônicos de Schumann, seguidos pelos também belíssimos e ainda mais difíceis Estudos Transcendentais de Liszt.
Quando Liszt deu nome a seus estudos (a publicação final, de 1836, vem com o título Études d’Exécution Transcendante) não foi por acaso. São absolutamente transcendentais, tanto pelas enormes (e, por vezes, inacreditáveis) dificuldades técnicas quanto pelo seu caráter quase espiritual. A obra não é de forma nenhuma homogênea, e uma das grandes dificuldades de se executar os doze em seqüência é justamente tocar peças de caráter adverso sem pausas, sem tempo pra esfriar a cabeça. E Diana tocou os doze, sem levantar do piano, sem pausa. A platéia estava hipnotizada o suficiente para controlar a ânsia de aplaudir
Tive uma visão absolutamente privilegiada de tudo, pouco antes do concerto fui chamado a camarim e tive uma suspresa: Diana resolveu tocar com a partitura e me pediu para virar as páginas para ela.
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Ver, ouvir e, o mais impressionante, ler esses estudos enquanto ela tocava foi uma experiência fantástica. Confesso que em determinados momentos tive dificuldade de me concentrar na partitura e não nas mãos da Diana. Pude testemunhar as imensas dificuldades desses estudos sendo resolvidas com simplicidade pela maravilhosa pianista, que ainda encontrou espaço para dar vida à obra, expor toda a sua musicalidade e sua personalidade fortíssima. E, mais do que ninguém, a sua fidelidade ao texto e, paradoxalmente, a forma com que ela se projeta na música.
Foram instantes únicos, Diana não apenas tocou piano, a música foi feita ali, nua, exposta, na sua forma mais pura e essencial. Um rapaz, após o concerto, sintetizou tudo, dizendo que não sabia mais onde era Liszt e onde era Diana.
Esse comentário pode ser dúbio, se feito a outros pianistas, mas estando ali, e acompanhando a partitura e a Diana de perto, posso dizer: de fato, não se sabia mais onde começava Liszt e onde começava Diana, mas, mesmo assim, ela foi absolutamente fiel à partitura.
Antes do concerto, Diana não se mostrou nervosa ou sequer preocupada com a tarefa que a aguardava. “Tenho que tocar mesmo, não é?”, ela disse. E depois do concerto, sempre modesta, não ficou nem ao menos surpresa pelas maravilhas que fez.
O interessante é que nada disso estava planejado. O intervalo estava programado para ser após os quatro primeiros estudos de Liszt. No entando, após os estudos de Schumann, a platéia se levantou e se dirigiu ao foyer, pensando que haveria intervalo. Diana consentiu, e disse que faria novo intervalo, após o quinto estudo transcendental.
Soou o sinal, voltamos ao palco. Lá mesmo, em cima do palco, Diana virou-se para mim e disse que não ia fazer pausa. E tocou os doze, perfeitamente, em seqüência.
Só me resta expressar meu respeito e admiração por essa mulher capaz de tais façanhas, e esperar ansiosamente o próximo concerto. E agradecer pela volta inesperada dessa jóia rara.
Pedro Taam é pianista e estudante de Física Médica.


















