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Jogo de Damas, de David Coimbra

Vez por outra algum desocupado traz à tona a pergunta: literatura é diversão ou erudição? Geralmente, é uma discussão cansativa que termina onde começa, mas que chama a atenção de editores por dois motivos: 1. Como diversão a literatura é mais acessível, porém enfrenta concorrentes de peso como a televisão e o videogame. 2. Como erudição ela é imbatível, mirando, entretanto, num público mais restrito, já que cada vez menos gente parece disposta a adquirir conhecimento além do cotidiano das celebridades, que só serve para esvaziar o espaço antes dedicado à cultura e ao jornalismo de conteúdo.

O curioso dessa classificação não é o imenso nicho que ela cria, mas o caráter excludente próprio da escolha. Pois então a erudição deve ser maçante para ser valorizada? E seria um louco aquele que sorri lendo um Nietzsche ou ouvindo música clássica?

Por entender que tais classificações são formadas mais por meandros do que por ângulos retos, o escritor David Coimbra partiu para uma experiência literária agradável, que une diversão e informação sem nenhuma dificuldade e põe abaixo o falso sofrimento do erudito.

Jogo de Damas, segundo a capa, conta a história de grandes mulheres, grandes homens e grandes fatos que determinaram a supremacia feminina. Durante 170 páginas, Coimbra leva o leitor a descobrir que as mulheres dominam o mundo desde os tempos do Homo sapiens, e que são as reais responsáveis pelo surgimento do que chamamos hoje de civilização. Inocente quem pensar o inverso.

É claro que isso é feito com muito humor, sem a pretensão de provar uma teoria científica ou sociológica. Em Jogo de Damas, o conhecimento é parceiro do riso.

“Rodopé não era egípcia como Mahfuz. Nasceu na Trácia. Numa das tantas guerras da Antigüidade, foi capturada pelos egípcios e reduzida à escravidão. Então, lá estava Rodopé, exposta num mercado de escravos como se fosse um melão maduro. E, importante, nua. Total, completa, absolutamente, deliciosamente nua”.

A jornada cultural começa há 3,8 milhões de anos, com os macacos saindo das árvores e indo para o chão andar sobre dois pés. Esbarramos então com o Australopithecus afarensis, Pithecus para os íntimos, e mais a frente com o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens, levantando a primeira questão filosófica do livro: se o Neanderthal era musculoso como um Schwarzenegger e peludo como um Tony Ramos, como foi extinto pelo fracote do Sapiens? O segredo está nas mulheres. A resposta, no livro. E é aí que você entende porque escrevi aquele papo-cabeça chato no início da resenha.

David Coimbra acompanha a vida do Neanderthal, do Sapiens e de muitas figuras históricas marcantes com uma linguagem contemporânea totalmente diferente dos textos de história. Funciona como se o autor encarnasse um paparazzo informativo, parado na janela da Rainha Cleópatra, pronto para contar de sua última escapadela com Marco Antônio, ou um biógrafo da vida de Madame de Pompadour, que recolhe informações entrevistando a moça na confeitaria Colombo, entre uma bomba de chocolate e outra.

Está tudo lá, com a distância e a confiabilidade da história, está tudo aqui com a proximidade da prosa ágil e o ponto de vista inusitado do autor. Enquanto Esopo, Aspásia, Espinosa, Nietzsche, Lou Salomé e até Abraão desfilam suas vidas diante do leitor, David Coimbra explica como as mulheres e seus encantos foram determinantes no rumo da História, fossem ex-amantes, assassinas ou rainhas manipuladoras.

Em sua narrativa, Mata Hari é uma celebridade a ser desvendada, dançarina famosa que consegue as melhores críticas no jornal, mas acaba fuzilada como espiã. Tem uma vida mais complexa do que qualquer clichê que a ronde em filmes e livros. Jogo de Damas não fala da Britney careca saindo sem calcinha. Nele, é Messalina quem expõe seu fogo incontrolável e trai o marido com todo mundo que encontra pela frente.

“Espinosa, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Todo um ciclo filosófico completo. Quatro homens poderosos marcados pela influência da mulher. Porque, se não fossem as desilusões que todos eles tiveram com as mulheres, nenhum deles comporia a obra majestosa que compôs. (…) Estariam paparicando suas mulheres, cuidando dos filhos, sendo mediocremente felizes”.

Em um dos pontos altos, o autor contesta a nova teoria de que Cleópatra era feia. Afirma que uma mulher feia não seduziria dois dos homens mais poderosos de seu tempo, chegando a compará-la dentro do tapete ao recheio de doce de leite de um rocambole. Por maior que fosse seu instinto de sobrevivência, Cleópatra contou com uma ajudinha da natureza e de alguns talentos treinados diariamente com os escravos. Nem mesmo Sodoma e Gomorra escapam do olhar irônico de Coimbra que, com muito jeito, fala do afã dos sodomitas de sodomizar os anjos enviados por Deus para acabar com eles, e das barganhas de Abraão para tentar salvar o povo dessas cidades. Sua linha do tempo passa também pela Idade das Trevas, lembrando que nem tudo era escuridão, apesar de não haver fósforo nem isqueiro. Ele ressalta que foi uma ótima época para as mulheres, já que o Estado tinha perdido a força e as religiões não estavam sólidas, resumindo o dia a dia a um imutável ambiente familiar.

“E a família, é o ideal da mulher. Na família, a mulher reina, mesmo que o mando, supostamente, seja patriarcal”.

Outro capítulo interessante explora a vida de Catarina de Médicis e da Rainha Margot. Enquanto acompanha o emaranhado de intrigas próprio da época, o leitor aprende um pouco sobre o Renascimento (as regras de etiqueta não eram das melhores) e as mudanças que ocorrem em Paris com a chegada de Catarina. Vale lembrar que a Rainha Margot teve papel importante nos conflitos religiosos que dividiam a França no século XVI, e é essa a base para o desenvolvimento de piadas e curiosidades, não o inverso.

“O ato de montar, porém, trazia dissabores às meninas, porque elas não usavam nada por baixo das saias. Logo, sempre que uma moça abria as pernas para acomodar-se no lombo do cavalo, era grande a diversão dos rapazes do entorno. Para resolver o problema, Catarina bolou uma calçola, que era vestida sob a saia. (…) Em pouco tempo a calçola foi aperfeiçoada, reduzida, adereçada e transformou-se na moderna calcinha”.

Confesso que acho mais relaxante ler Sartre do que Sidney Sheldon. E que me encanto mais com a vida dos imperadores romanos do que com a dos astros de Hollywood (a quantidade de escândalos é a mesma, posso garantir). Por isso, como todo crítico, sou intrinsecamente suspeito para discorrer sobre qualquer tema. Digo então que se Jogo de Damas não me prendeu na primeira página (nunca fui muito chegado nos Pithecus), logo o fez na segunda, sendo uma das leituras mais prazerosas que tive nesse ano.

É a chance de quem quer aprender sobre história sem ter que levantar a sobrancelha e treinar um ar blasé para o próximo encontro com os amigos.

Jogo de Damas
David Coimbra
Editora L&PM, 2007.
170 páginas.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0010, literatura, em 12/11/2007

 

 

 

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