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Planeta Terror

Se você piscou por tempo demais em 2007 talvez não saiba o que é o projeto Grindhouse. Dois amigos diretores, que por um acaso são Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, resolveram fazer uma homenagem aos antigos filmes de terror, do tempo em que trash era um estado de espírito. Na época, pelo preço de um ingresso você assistia a dois títulos e a sessão era um caos. Os rolos eram cheios de riscos e chuviscos, o exibidor perdia partes do filme, o projetor pegava fogo e outros acontecimentos emocionantes não planejados no roteiro. Para fazer jus a essa bagunça, os diretores decidiram unir dois filmes em um e incorporar todos os problemas de projeção como parte natural do projeto, criando até trailers falsos antes dos filmes em si. Só que a experiência cinematográfica não deu certo nos Estados Unidos. O projetão tinha mais de três horas e nem todo mundo entendia direito qual o mérito daquilo. Como a brincadeira custou US$67 milhões e só arrecadou US$25 milhões por lá, a estratégia de lançamento teve que ser repensada. Os produtores resolveram então lançar mundialmente os dois filmes separados. Planeta Terror é a parte que cabe a Robert Rodriguez.

Planeta TerrorPara quem está se perguntando agora quem é Robert Rodriguez, aqui vai um breve currículo: o diretor chamou atenção dirigindo o hoje clássico El Mariachi e a seqüência Desperado. Talvez você os conheça pelo nome A balada do pistoleiro. O filme ganhou mais tarde uma terceira parte chamada Era uma vez no México, que tinha no elenco Antonio Banderas, Salma Hayek e Johnny Depp e obteve um relativo sucesso comercial, com receita mundial beirando os US$100 milhões. Em 1996 ele dividiu a direção com Quentin Tarantino em Um drink no inferno, mistura de roadmovie de assassinos com terror de covil vampiresco, e fez a alegria dos fãs de terror. De 2001 a 2003, se divertiu com os três filmes infantis da série Spy Kids, que juntos arrecadaram mais de US$450 milhões (nenhum deles com orçamento superior a US$40 milhões).

Resumo da Ópera. Depois de gastar o dinheiro dos estúdios com projetos pessoais, de baixo orçamento e receita modesta, Robert Rodriguez se transformou em uma máquina considerável de retorno sobre investimento, o que em Hollywood significa assumir um grande projeto.

Foi assim que em 2005 o diretor adaptou a série noir Sin City para os cinemas. O cult de Frank Miller virou uma experiência visual única, um verdadeiro HQ em movimento, apesar do ritmo lento e arrastado. Novamente, Rodriguez transformou um filme de orçamento reduzido (US$40 milhões) em um blockbuster (US$158.753.820,00) e de quebra ganhou o respeito dos fãs de HQs, que esperam muito dele em Sin City 2 e 3.

Planeta Terror é uma mistura de seqüências trash e roteiro miúdo, que existe só como mais uma piada. O fio principal conta a história de uma invasão de zumbis a uma cidadezinha de beira de estrada e a luta dos sobreviventes para se livrar da ameaça.

A narrativa acompanha vários personagens. A principal é Cherry Darling (Rose McGowan, de Charmed e Dália Negra), uma gogo dancer que sonha em ser médica ou comediante de stand up. Depois de reencontrar o ex-namorado Wray em uma churrascaria deserta, ela se envolve em um acidente e perde uma das penas. Ela redescobre o sentido da vida quando Ray faz sob medida como prótese para a perna perdida uma supermetralhadora com lança - mísseis que a transforma em uma arma letal contra os zumbis.

Em outra ponta, a geralmente desperdiçada Marley Shelton interpreta Dr. Dakota Block. Ela é uma médica especialista em anestesias, totalmente depressiva e sombria, com um casamento frustrado com o Dr. William Block (Josh Brolin) e, de quebra, com um caso com Tammy (a cantora Fergie do Black Eyed Peas). Não por acaso, ela trabalha no hospital que recebe os infectados pelo gás tóxico que transforma as vítimas em zumbis e tem que enfrentar a crise de corno do marido psicopata no meio do ataque dos mortos, com tripas e sangue voando para todo lado.

Para fechar, Bruce Willis vive um militar que foi infectado no Oriente Médio enquanto caçava Bin Laden. Ele e seu grupo de militares (entre eles Quentin Tarantino) começam a sofrer os efeitos do gás e vão atrás de Abby (Naveen Andrews, de Lost), o bioquímico pesquisador da cura que tem como hobby arrancar os testículos de quem se põe em seu caminho.
Pela descrição das partes isoladas é possível imaginar o somatório. Difícil é classificar um pastiche desses dentro de um gênero fílmico. Planeta Terror, na verdade, foge do terror, deixando de lado os sustos e eliminando o impacto das cenas violentas através do exagero, mas só encosta na comédia, brincando uma vez ou outra com o humor negro inerente ao tema. É um roadmovie, com mudança de cenários constante para avançar a trama, é quase uma aventura, cheio de tiroteios e explosões, e é ficção, trazendo armas químicas e experimentos com humanos.

O maior defeito de Planeta Terror é não subverter plenamente os clichês de que se apropria, parecendo então um amontoado de… clichês. Por sorte, o diretor não se leva a sério nem perde tempo contando mais história do que o necessário, dando mais atenção à busca pelo molho perfeito do churrasqueiro J.T. do que à história de um dos protagonistas, o herói justiceiro El Wray, por exemplo.

Se no ritmo da aventura, como de costume, Rodriguez erra a mão, na direção de atores ele continua muito preciso, arrancando o efeito certo do seu desfile de personas caricatas.

Das atuações, Naveen Andrews mostrou que transita muito bem do suspense à comédia, Rose McGowan ficou excelente no papel da heroína perneta e Marley Shelton provou ter potencial para projetos mais ousados, precisando apenas de oportunidades. De resto, só mesmo figurantes de luxo.

Quando termina a saga surreal (que na verdade não termina), ao invés de satisfação fica o gostinho pela parte de Tarantino – Death Proof. E nada de sair para jantar depois do filme.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0010, em 18/11/2007

 

 

 

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