Desgraça alheia
Ando lendo Tchekhov. Alguns contos editados pela L&PM, que recebeu o tÃtulo de um dos que fazem parte da coletânea – Um homem extraordinário – traduzido do russo por Tatiana Belink.
Os contos contidos, na medida exata da expressão, vão encantando o leitor, construindo canais de comunicação dentro de uma lógica que se desdobra em pequenas doses de emoção, de surpresas. O primeiro conto da coleção – Desgraça alheia – é um primor. A cena feliz de um casamento se desfaz ante a incapacidade de o marido compreender os sentimentos da famÃlia que está sendo despojada do único bem que possui. Comprada a propriedade dos sonhos do casal, restam a eles a jactância do marido e a tristeza da mulher. Entretanto o que se revela no conto é mais do que isso.
O embate entre a famÃlia do Mujique – que se destrói frente a inexorabilidade do destino – e a alegria do casal que os despoja de tudo quanto têm, da memória afetiva à posse da terra da qual sobrevivem, vai se construindo sem grandes cenas. Toda a narrativa é em tom menor, como se se construÃsse uma pequena música noturna na qual o lampejo da genialidade se esforça por se esconder.
A percepção aguda de Tchekhov sobre os problemas vividos pela Rússia, a capacidade de lado a lado compreender e distinguir as várias questões sociais e ordená-las em contenção narrativa permite ao leitor apreender não só o drama particular dos mujiques de olhar vago e vida perdida, como também o drama vivido pelos burgueses jactantes e iludidos com a noção positivista do progresso.
Ao conto sobre o qual se escreve e que abre a coletânea segue-se um outro não menos contido. Retomando a questão fáustica, o escritor o faz também em tomo menor, quase como que como uma burla, uma farsa – já que todo o envolvimento com o Diabo não passa de um sonho. O extraordinário Um dia no campo – ceninha traz, já pelo próprio subtÃtulo, a percepção do mÃnimo e desimportante. À cena rural, burguesa, o hábito de se passar um dia no campo, se converte numa feroz ausência do bucólico. São personagens desta cena a fome, as crianças desprovidas de teto e famÃlia, os tolos. O conto chega a dar um nó nos estômago pela singeleza, pela ingenuidade com que borda este outro do campo burguês.
Assim se sucedem os contos desta coletânea.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.







































