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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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25/11/2007

Joyce Yang

Eu não gosto de Brahms. Mas hoje, ao sair do concerto da Joyce Yang, passei a gostar, pelo menos das baladas. Uma amiga me disse esses dias que alguns compositores são muito sujeitos às mãos que os tocam. E concordo. Acho que Brahms é um deles. Talvez eu não tenha ouvido as obras certas, ou quem sabe os intérpretes certos.

A Joyce é uma simpatia: sul-coreana, tem 21 anos, acabou de tirar segundo lugar em um dos concursos mais prestigiados do mundo, o Van Cliburn.

Depois do Brahms lindíssimo, tivemos um concerto de Mozart. Um concerto dramático, denso, que a Joyce resolveu muito bem.

E então, a estrela da tarde: o nº1 de Tchaikovsky. Tinha tudo pra ser um mau concerto, analisando friamente: uma pianista oriental e jovem e um concerto extremamente conhecido. Pianistas orientais: nada contra, mas, justamente pelo imenso número de pianistas orientais que vem surgindo, vem também os maus pianistas. Pianistas jovens e prodígios muitas vezes são imaturos. E é sempre um risco tocar uma obra tão conhecida, tão gravada, por nomes como Martha Argerich e Vladimir Horowitz.

Mas nada disso teve importância. O que eu vi e ouvi foi uma concepção sólida de um concerto lindíssimo, tocado por uma musicista de primeira categoria.

O primeiro movimento foi imensamente trabalhado e bem acabado. A Joyce não se deixou levar simplesmente pelo virtuosismo das passagens, e não caiu em lugares-comuns. Não seguiu o óbvio, e não foi (por falta de uma palavra melhor) “esquisita”. Escalas fluentes, límpidas, ora brilhantes ora leggeras, oitavas atléticas, cantabiles maravilhosos, tudo isso recheado de muita música.

O segundo movimento com uma rara beleza. Vamos combinar: é muito fácil fazer aquilo tudo cair na chatice. Mas a Joyce não foi chata, em momento nenhum. Muito pelo contrário: através de uma clara diferenciação de planos sonoros, a obra foi costurada e polida, cada seção claríssima, mas sem perder a visão do todo. O clima casual e despretensioso estava lá, a música falava por si só.

O andamento do terceiro movimento foi puxado: andamento de Gilels, de Martha. Mais uma vez pudemos todos admirar a clareza e a beleza das escalas e arpejos da Joyce, e sua concepção musical peculiar.

O Municipal estava praticamente lotado, e é difícil isso acontecer. Não costumo ver as salas de concertos lotadas por aqui, a não ser em concertos de pianistas ‘da moda’, onde as pessoas pagam mais pelo status de ir ao concerto do fulano de tal do que para propriamente ouvir. Até porque, é um dinheiro que não vale a pena.

Pedro Taam e Joyce YangO público era claramente conhecedor das obras, aqui e ali pipocavam comentários pertinentes sobre as baladas, sobre o Mozart. E por isso mesmo, houve aplausos e mais aplausos ao final do primeiro movimento. Só se aplaude entre os movimentos de uma obra em duas hipóteses: quando o público não é acostumado com a música de concerto e a divisão das obras em movimentos ou, como foi o caso hoje, quando o público conhece, sim, a obra e reconhece o quão bem foi tocada. Fato que foi reforçado por um acontecimento que eu adoro, mas é raro: na última nota do concerto de Tchaikovsky já estavam todos se levantando e aplaudindo. Acho que isso, mais que tudo, sintetiza a qualidade da pianista.

Depois de voltar cinco vezes pra agradecer, o bis: o Andante Spianato Op.22 de Chopin. Mais uma vez, maravilhoso (sem trocadilhos – Mariano Gonçalves não estava presente). Lembrou um pouco a Valentina Lisitsa, pela leveza, pelo toque angelical. Aliás, lembrou tudo o que há de bom pianisticamente e musicalmente. Depois de um warhorse como o Tchaikovsky, nada como um Chopin inebriante desses, como um fixador, um toque final de requinte, sofisticação e musicalidade.

 


Pedro Taam é pianista, graduando em Física Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do Aguarrás.

Joyce Yang



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