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Retrospectiva 2007 de arte contemporânea

No começo achei que era eu. Um vazio na hora de fazer esta retrospectiva. E, furando os miolos com uma broca fina, não que eu não encontrasse eventos, coisas boas para citar. Tem a escolha do Brasil para país homenageado da Arco’08 (agora em fevereiro). Tem a vinda de instituições européias: a Casa Davos, o Istituto Europeo de Design. Mesmo que a primeira venha com um suspeito subtítulo citando a desconhecida arte latino-americana contemporânea, e a segunda sendo, apesar do nome, uma empresa privada que irá ocupar espaço público da cidade do Rio de Janeiro. Quer dizer, até, se fosse o caso, eu precisando dar vazão a algum mau-humor, teria do que falar, mesmo que mal. Mas não era este o caso. Acho a homenagem espanhola ao Brasil e a vinda das duas instituições citadas marcos positivos, ainda que só pela certeza de que players desse peso não são de bater prego sem estopa. Ou seja, não se instalariam se não houvesse grana de retorno. Mais precisamente: a arte, segundo seus patrocinadores, vai bem. Segundo a fraca cobertura crítica e jornalística, melhor ainda, ou eu não teria feito, em 2007, com mudança de cidade e tudo, mais de 50 textos especializados (procuro cobrir só os eventos que já acho, de antemão, que vou gostar - nada a ver com elogios desbragados mas apenas com o meu próprio prazer: prefiro gostar, me divirto menos não gostando).

Então, pensava eu, só sobra eu. Seria eu uma vítima do enfado, o mesmo a justificar minha vinda para São Paulo, em busca de novos estímulos.

Aí veio a Bienal de São Paulo e a proposta dos pavilhões vazios e entendi tudo. Não sei o que dá em brasileiro que às vezes se anima no ruim e quando é bom vira a cara. É claro que tem arte de montão, da melhor qualidade, para encher todos os pavilhões e mais alguns e, sim, dentro do tema que é um bom tema: o vazio. Há muita vontade, acho que em todos nós e não só em mim, de parar e parado ficar, um infinito ou mesmo vários, frente a obras que nos reflitam - dois sentidos aqui - no nosso vazio.

Fazer a Bienal sobre o vazio vazia é portanto um enfado e um desânimo. Enfado e desânimo que eu, tolinha, achava só meus.

Bem, não sei quanto à Bienal, mas tenho meus mecanismos de luta.

Por exemplo, voltar e começar tudo de novo.

(Já perdi a conta das vezes em que recomecei algum “tudo” desde o começo, uma vez e mais uma vez.)

Já falei disso antes.

Ninguém acreditou porque achou que era ficção.

Você devia acreditar na minha ficção.

Está em “Só besteira“, o livro feito de textinhos curtos, de blog. Está no meu site em algum lugar.

Lá conto como os “sobrearte” começaram.

Bem antes das crônicas de humor de O Estado de São Paulo, antes do Jornal do Brasil.

Tem a ver com a Caró, dona do Aguarrás, onde os “sobrearte” saem hoje.

Caró e eu marcávamos uns encontros.

Dizíamos que era para ver a exposição tal, o filme tal. A performance, o recital de poesia. Coisa muito xiita.

Só que marcávamos com grande folga de tempo.

E íamos, antes, a um restaurante árabe de que gostávamos e que calhava de ser perto de todos os centros culturais, teatros e salas do centro do Rio de Janeiro.

E lá ficávamos, papeando, dando risada, tomando cerveja e comendo trouxinhas de repolho.

Esses nossos encontros eram chamados de Repolhos Culturais.

Mais sim do que não, acabávamos perdendo a hora do evento e voltávamos para a casa sem ter visto nada.

Mas muito, muito mais cultas.

Então é isso.

É para isso que eu volto.

Acho que os “sobrearte” terão um texto mais solto, mais descompromissado. Um pouco como quando comecei fazendo os textos só para mim.

Mas com uma diferença.

Prometo que terei ido a todas as exposições de que falarei.

Até daqui a pouco, no ano que vem.

Em tempo: essa idéia do espaço expositivo vazio vem de Yves Klein e data de 1958, maluco devia ficar com vergonha.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0010, em 11/12/2007

 

 

 

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