Império dos Sonhos
Império dos sonhos, ou Inland Empire no original, é o novo desafio de David Lynch. Como a idéia clara era fazer um filme experimental, assumo desde já que gostei do experimento. Aproveito também para uma sugestão: quando for assistir ao filme, leve uma aspirina na bolsa e uma barra de chocolate para repor a glicose. Seu cérebro agradecerá.
Lynch nunca foi de propor caminhos fáceis e em Império dos sonhos ele sobe mais um degrau. Uma característica que pode confundir os desavisados é a falta de roteiro. O filme não tem uma história linear, se bobear não tem história nenhuma. O diretor estava encantado pela tecnologia digital e saiu filmando pedaços desconexos que juntou e transformou em um longa-metragem de três horas de duração. Esqueça o estilo dramático que comanda a maioria das narrativas atuais. Nenhum personagem é empurrado para um evento final em Império dos Sonhos. A idéia de início e fim, aliás, não existe. O final é mero acaso de edição.
O fiapo de roteiro mais fácil de acompanhar é a história de Nikki Grace (Laura Dern).
A atriz está em casa quando recebe a visita de uma vizinha estranha, uma espécie de bruxa má do oeste. Seu comportamento simpático e excêntrico logo passa a ser assustador e incomoda Nikki. A tal vizinha parece falar do futuro e do passado, nunca do presente. Avisa que Nikki já conseguiu o papel de um filme e diz que é um filme sobre assassinato. Nikki nega, diz que ainda não sabe de nada e que o filme não gira em torno de mortes. No dia seguinte, sentada no sofá, Nikki recebe a ligação do seu agente. Está no filme fazendo par com o ator Devon Berk (Justin Theroux). Sua vida começa a se transformar numa loucura quando corre nos estúdios o boato de que o filme não é um roteiro original. Na verdade, é o remake de um filme que nunca foi terminado, pois seus protagonistas foram assassinados. A partir daí, a feitura do filme de Lynch, o filme em si e o filme dentro do filme começam a se misturar, derrubando qualquer barreira lógica. Sem esquecer os coelhos, é claro.
Nikki faz no filme o papel de Sue, uma mulher casada que se apaixona por Billy, também casado e com filhos. Não por acaso, Nikki tem um marido ciumento e perigoso e Devon (que faz o papel de Billy) é casado e tem filhos. Quanto mais o filme avança, mais Nikki e Sue se aproximam, mais o espectador e os personagens ficam perdidos. Lynch brinca com momentos pontuais de lucidez e finge que um terreno sólido surgirá, enganando o espectador com uma possível explicação e logo em seguida puxando o tapete, jogando quem assiste em seu limbo de imagens.
Mas se não há história, do que se trata o experimento afinal? Da força da imagem e da direção.
Império dos Sonhos é um suspense consternador. A ansiedade criada pelo evento que nunca chega é assustadora, você torce para que a personagem vença, mas não sabe o que ela precisa vencer. É um afogamento cinematográfico: o ar falta e a superfície não chega jamais. A escuridão, os sons, os labirintos envolvem a todos os personagens, mas só Nikki parece perceber que alguma coisa está fora do lugar. Aqui, as portas e janelas levam sempre a lugares completamente improváveis. Os sustos estão lá, o medo também. O desespero pelo final feliz inalcançável é surpreendente para quem se acostumou a histórias lineares e de fácil compreensão. Há closes que destacam elementos sem nenhum valor, prometem um sentido inexistente. Há diálogos desconexos, geralmente compostos mais por perguntas do que respostas. Quando contam histórias, são apenas isso, histórias (como o cinema) sem mensagens e explicações.
Em determinado ponto, acompanhamos uma vida alternativa de Nikki, um simulacro da pobreza. Nessa parte, seu marido milionário e perigoso agora é um sujeito inofensivo que sai de casa para trabalhar no circo lidando com animais. Nas entrelinhas, há também uma crítica à fama e ao próprio cinema que não sabe mais o que fazer e inventar para chamar atenção. Um dos pontos principais do filme é um programa protagonizado por pessoas com cabeças de coelho. Eles falam coisas vazias, mas a platéia invisível cai no riso, enquanto uma mulher assiste ao programa (e ao próprio filme) na TV, chorando sem parar. O programa do coelho é um sitcom, quem tem TV a cabo conhece as risadas pré-gravadas. São emoções caricatas que expõem o nosso piloto-automático diante de situações já incapazes de despertar reações verdadeiras.
Pausa para respirar.
Há ainda uma suposta trajetória de Nikki. A atriz esquecida que ganha um papel e tem a oportunidade de sair do ostracismo. Algo não vai bem durante a filmagem, ela se envolve com o protagonista. Logo descobre que ele tem várias amantes, ela (a atriz e a amante) é só mais uma entre tantas outras. De repente, Nikki começa a perguntar para quem encontra no caminho se alguém se lembra dela, se já a viram antes. Serve tanto para a crise de identidade da personagem quanto para o esquecimento pós-fama. Curiosamente, um dos finais do filme se passa na calçada da fama entre prostitutas, onde o suposto assassinato se concretiza. Lá em cima da estrela, com o nome de atores eternos, Nikki / Sue / Laura Dern derrama uma boa dose de sangue.
Império dos sonhos é um filme onírico. Faz Cidade dos sonhos parecer desenho da Disney.
Corajoso quem se atrever a embarcar nesse longo trem fantasma. É válido por repensar o papel do cinema dentro da cadeia de entretenimento. É válido por mostrar um show de interpretação de Laura Dern e que Lynch ainda vai dar muito trabalho a Hollywood (eu falei que o filme termina com um maravilhoso número musical?).David Lynch dirigiu Duna, Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos), O homem elefante, Coração Selvagem, A estrada perdida e Veludo Azul, entre outros. Na TV, criou a cultuada série Twin Peaks. Você ainda lembra quem matou Laura Palmer?
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































