Skip navigation

Conceito e narrativa

O livro de Márcia Bechara, Casa das Feras, editado pela 7 letras, no ano que passou, busca um difícil equilíbrio; transpor a imaterialidade do espírito em corporificação da matéria e a corporificação da matéria em imaterialidade do espírito, como se quisesse reescrever a observação do real.

Na literatura, a busca de tal reescrita é uma constante, talvez uma das mais instigantes obras que busca recontar o mundo, criar uma cosmologia própria, seja a de Bruno Schulz. Bruno, ao inverter o ponto de vista do olhar – em Lojas de Canela é a poeira em suspensão que detém a expressão do universo – constrói o aniquilamento do sujeito, fazendo com que ele seja percebido pelo objeto. Em nenhum momento o autor polonês, perseguido pelo fascismo e morto no Campo de Concentração, irá tematizar essa transformação. Ela simplesmente, como num texto poético, se apresentará.

A intenção de Márcia Bechara em seu livro é parecida, embora a matriz de sua prosa não seja a de Shulz, mas a de Clarice Lispector e a de Guimarães Rosa. Em alguns contos essa transposição do ponto de vista sobre a matéria/espírito, de que se falava, acaba por se cumprir. Entretanto, muitas vezes essa transposição só se faça porque é nomeada, explicitada pelo narrador, isto é, não se cumpre como tecido narrativo, mas como uma voz que autoriza o leitor a assim ler, como se houvesse a necessidade de um reforço, de uma explicação excêntrica ao texto.

Tomem-se dois exemplos: O conto Pedras, cuja idéia e narrativa são comoventes, e o conto de abertura da coletânea, que possui o mesmo nome do livro, Casa de Feras. Neles a inversão do olhar se evidencia. Em Pedras – o narrador é dúbio – ora se mostra como externo ao quarto do sanatório no qual Camille Claudel se isola do mundo, ora é ela mesma a pedra que chama a atenção do leitor para a relação entre Camille e a pedra que a salva do desastre.

A questão narrativa é problemática neste conto.  A primeira frase está na terceira pessoa: “era um bloco de mármore indefinido colocado em cima de uma plataforma de madeira no meio do quarto de sanatório de Camille Claudel”. (pág. 65). Mais para frente se lê: “Comecei a nascer, portanto, no primeiro olhar que Camille lançou sobre mim, no chão do catre, eu – mármore no centro, posto sobre um lençol encardido como se eu pudesse ser alguma coisa realmente delicada”.

A passagem para a primeira pessoa corresponde ao olhar de Camille sobre a pedra, que vai tomando consciência de sua materialidade e adquirindo, como pedra, uma independência narrativa que apagasse do sujeito sua capacidade de observação. É a pedra, portanto, o sujeito da narração, quem a determina e constitui. Didi-Huberman, em belíssimo texto sobre a alta-modernidade americana, já propunha essa independência do olhar do objeto. A capacidade de o homem ser olhado pelo que concebera também o concebe, o funda. Entretanto, nesta fundação não se pode sentir seja a mão do escultor, seja a voz do narrador, construindo, para além da própria pedra, para além do próprio texto, a voz que nomeia o indizível, a percepção que apura o leitor.

Nem sempre a frase engenhosa cria o significado do texto que olha. Quem determina o conceito que se expressa é a excelência narrativa. Dizer, por exemplo, que “eu queria saber pegar no pires e na xícara com delicadeza, pisar com graça, queria a vida longe do cheiro bom da selva, eu queria rapidamente me corromper para ser salva da natureza.”, embora toque na essência do humano, não é necessariamente dar tônus á narrativa, mas apreendê-la em um conceito que está aquém do próprio texto que se escreve.

A árdua escolha de Márcia Bechara cria para si mesma um terrível dilema que aos poucos irá se aplainando, se solidificando em maior e mais exata economia narrativa.