Modernidade e Pós-Modernidade
Ontem eu li uma notícia interessante. Era sobre, a partir de ontem mesmo, dia 03/01 os moradores, comerciantes, turistas e quem quer que esteja passando por Copacabana, passava a poder utilizar acesso à Internet, por banda larga, de graça. A notícia dizia que teria sido lançado o sistema Wi-Fi no bairro, em palco montado em frente ao Copacabana Palace.
Como achei a notícia realmente interessante, divulguei em algumas listas de discussão que assino. Houve pouquíssimas reações, a maioria delas louvando a *modernidade* do fato… Moderno? Será que entendemos mesmo o conceito de moderno? Mas uma me chamou a atenção, a de um rapaz comentou uma coisa que eu realmente considerei interessante:
- “Vi essa nota na imprensa e depois li aqui. Finalmente poderei trabalhar e estudar debaixo de um guarda sol, em plena praia carioca, tomando água de coco! Hehehe!”
Juntando com umas coisas que tenho visto, ouvido, lido e pensado, fiquei, desde ontem, “matutando”. Até quando vamos encarar trabalho como ruim? Até quando o lazer será visto como desimportante, em oposição ao “nobre” trabalho? Até quando vamos ficar grudados na porcaria da modernidade sem entrar, de fato, na bendita pós-modernidade?
A última vanguarda DE FATO que tivemos está com, aproximadamente, um século de existência. Ainda consideramos *moderno* idéias, linhas, formas e pensamentos dos anos 20, do século passado! Quer um exemplo?
Esta cadeira. É moderna, não? A grande maioria das pessoas diria que sim, que é moderna. Podemos mesmo ver réplicas dela compondo ambientes *modernos* e é *objeto de desejo* de muitos pseudo-moderninhos. Mas sabe de quem e de quando é o design dessa cadeira? O autor é Marcel Breuer, da Bauhaus. Seu nome é Cadeira Wassily, Modelo Nº. B3, e foi desenhada em 1925-1927. Moderno, né? Oh!…
Bauhaus, que significa “casa em construção” ainda é hoje, em pleno século XXI, o *modelo* de modernidade… Só que os projetos da Bauhaus eram pensados para produção industrial, necessidades da época do Fordismo trazido pela Revolução Industrial. Sem entrar muito na história, pois qualquer pesquisa simples pode esclarecer essas questões, o fato é que ainda temos o olhar e o fazer, na maioria das vezes, embasados na e para a produção industrial.
As propostas *inovadoras* de ensino de arte ainda estão coladas no modelo modernista prega a *expressão*; no credo modernista que Ana Mae Barbosa chama (e que eu acho perfeito!) de *Lamúria Sensibilizante*, sem levar em conta as necessidades humanas e políticas (não confundir com partidarismo ou politicagem!) dos envolvidos nos processos educativos… Não há políticas educacionais, em arte ou em qualquer outra área de conhecimento, realmente pós-modernas, onde haja uma real diferença entre a educação e o desenvolvimento humano.
E isso não só nas Artes, infelizmente. É em tudo!
Trabalhar ainda significa ir para um lugar específico, ficar lá um tempo, geralmente considerado ruim, fazendo coisas igualmente ruins. Produzir ainda está relacionado a volume de números e não à qualidade do que é produzido, muito menos ao modo como isso desenvolve o ser humano. Estudar, idem, ainda é visto como ruim e, pior, como necessariamente *supervisionável*, mensurável, ou seja, tem que ter algum *vigiando* e cobrando resultados para funcionar.
A chamada *Era da Informação*, que andaria no ritmo da pós-modernidade, caracterizada “formalmente” pela invenção do timmer, nos anos 70, que deu ao homem a capacidade de manipular o tempo, principalmente pela simulação de presença na operação de máquinas, parece não ter realmente decolado e ainda estar grudada no racionalismo da modernidade, sem a compreensão, de fato, de que a existência de uma realidade diferenciada, proporcionada pelas tecnologias digitais, permite, além da manipulação direta do tempo, uma reorganização do espaço de modo que essa relação, tempo/espaço, na modernidade caracterizada por formas específicas de comportamento, trás, também, novas formas de comportamento. E isso tanto para trabalho, quanto para lazer, educação, relações humanas, enfim, para a vida.
Na modernidade espaço e tempo eram *entidades concretas*, na pós-modernidade tempo e espaço assumem novas e diferentes formas e as relações possíveis entre e com eles é, também, se não necessariamente nova, diferente. Nos anos 50 Theillard de Chardin, em seu Fenômeno Humano, pensava a existência do que chamou de Noosfera, que seria uma espécie de rede invisível de consciência. As tecnologias digitais de comunicação e informação tornam o conceito real, mas ainda nos relacionamos com relação ao trabalho e à educação, bem como nas relações humanas, dentro do paradigma tempo/espaço da modernidade! André Lemos trata brilhantemente desse tema em seu texto “As estruturas Antropológicas do Cyberespaço”. Vale a leitura: http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/estrcy1.html
Exemplos dessa incongruência são trabalhos que poderiam ser feitos, com efetivo ganho de produtividade, em qualquer lugar conectado à Internet, tendo que ser feitos em ambientes específicos, geralmente mal dimensionados, tecnologicamente, onde as pessoas são *vigiadas* para ver se estão mesmo trabalhando… Quantos exemplos sabemos e vemos de gente que, sim, está fisicamente num lugar, mas trabalho, que é bom, nada? Quantas pessoas vão, todos os dias, a lugares onde deveriam trabalhar e, na verdade, passam dias e dias jogando conversa fora? E os cursos e aulas “à distância” onde se deve “ir a algum lugar”, fisicamente, para fazer o dito-cujo? Caramba, se eu preciso sair de casa e ir até um lugar, porque não vou direto para a escola convencional e assisto ao vivo a aula?
Parte-se do princípio que estudar e trabalhar são coisas ruins por natureza e que, desta forma, se não forem vigiados, serão burlados…
É tudo, no mínimo, patético! Não acha?
Jurema Sampaio é Mestre em Artes Visuais, especialista em Ensino e Produção de Arte, licenciada em Arte-Educação, Desenho e Artes Plásticas (PUC-Campinas). Atualmente cursa Doutorado. Professora Universitária.


















