Camões entre seus contemporâneos
A Antologia de Poesia Portuguesa Século XVI, editada pela 7 letras e organizada por Sheila Moura Hue, possui, entre os diversos méritos, o de trazer para o leitor brasileiro uma amostra da poesia escrita à época de Camões. Dividida em diversas partes, a coletânea traz, ao todo, dez temas, que buscam abranger os modos de composição do século.
Como imitação e imitatio não possuem a mesma semântica, e também como o conceito da imitatio é de conhecimento dos poucos interessados em literatura e artes, a utilização do conceito imitação vai ser empregado, tomando a organizadora o cuidado de diferenciar tanto a produção de Camões como a de seus contemporâneos da poesia moderna. A poesia da imitatio tem seja na sátira, seja na poesia “séria” o intuito de propor uma moralidade. Nos textos lidos, tanto mais essa moralidade se expressa quanto mais o leitor mergulha no processo da comparação entre os poemas apresentados. Esta é uma das vantagens que a reunião de um grupo de poetas da mesma época apresenta, pois se pode perceber a recorrência dos temas e do tratamento poético a que são submetidos.
Se a organizadora tem o cuidado de chamar a atenção do leitor paras as diferenças entre a produção poética dos escritores clássicos e dos modernos, a medida nova, metro com o qual os poetas renascidos de Portugal diferenciaram-se dos poetas medievais, introduzida por Sá de Miranda, a partir de Petrarca, terá, por si, também a capacidade de se fazerem deduzir as diferenças entre o poetar clássico e medieval. E o leitor curioso poderá talvez montar um quadro das percepções literárias tão diversas quanto as que são suscitadas pela antologia.
Essa diversidade demonstra o quão o conceito de literatura se modificou ao longo dos tempos, desfazendo as percepções das arritmias das verdades consolidadas. Por exemplo, O Camões, cantor da Pátria portuguesa, não é senão uma visão excêntrica e romântica do Camões que louvou a expansão imperial portuguesa, em versos definitivos, mas atrelados ao conceito poético que vigia. A antologia é deliciosa quando traz lado a lado alguns dos sonetos camonianos e de outros poetas como Pero de Andrade Caminha, Diogo Bernardes cuja temática e tratamento são os mesmos, com versos que ressoam aqui e ali como cópias, mas que são, na verdade, um dos encantos da invenção poética dos poetas clássicos.
Chamam ainda atenção as subdivisões dedicadas à sátira e à poesia crítica (cuidado, leitor, a poesia crítica de que aqui se fala nada tem a ver com a que recebe o mesmo nome na atualidade. Tal poesia é crítica por atuar diretamente sobre um corpo político ou social e não sobre o próprio versejar), pois nelas é onde se pode perceber com maior acuidade o processo da moralização. Durante o período medieval, as poesias satíricas tinham já esse teor, embora mais circunscrito à vida paçã; com o advento do Renascimento tornam-se elas mais públicas, embora dirigidas pelo olhar atento da aristocracia e do clero.
Que aproveite o leitor esta antologia, pois, além de permitir essa rigorosa viagem ao tempo de Camões, ou o Poeta, como lhe chamam os portugueses, o cuidado com o qual Sheila Moura Hue traceja as notícias biográficas dos autores aqui apanhados faz desta antologia um livro do qual devem se orgulhar tanto os leitores de poesia como os seus editores.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.







































