Por que não? Rupturas e continuidade da contracultura
Gosto de começar a análise de um livro sondando as orelhas. Não por auxiliar no entendimento, mas para verificar a eficiência desse resumo apertado que tem a complicada missão de ajudar a vender o livro. O escritor Santiago Nazarian já disse que ninguém mete o dedo na sua orelha (ele mesmo a escreve) e entendo a razão. Não é incomum encontrar orelhas que ou entregam o assunto inteiro ou passam longe do que o livro se propõe.
A orelha de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura sofre da mesma síndrome de seu título. Veste a camisa de força da contracultura como principal legado de suas folhas. Veja só:
“Quarenta anos depois do Summer of Love de são Francisco, as práticas culturais, políticas, artísticas e comportamentais que marcaram o movimento da contracultura são avaliadas à luz de um novo ‘aqui e agora’. Partindo da proposta de refletir sobre a atualidade (ou não) da perspectiva contracultural, os textos que compõem este livro apresentam as mais diversas abordagens sobre o tema – de análises e depoimentos sobre as transformações vivenciadas na época até discussões sobre o que teria permanecido ou mudado após quatro décadas”.
Pronto. Dê uma respirada. Esse é o primeiro parágrafo da orelha do livro. Faz um bom resumo da idéia: trazer a contracultura para os dias atuais, ver o que hoje seria contracultura e o que da antiga proposta sobrevive no tempo e espaço. A idéia parece boa para mim e certamente boa para os participantes do livro, por isso não entendo a necessidade de o primeiro capítulo (18 páginas, 28 notas ao final) evocar Walter Benjamin, Nietzsche e Goethe para justificar a pertinência do assunto.
“E o passar do tempo é um aliado da crítica. O tempo queima a obra e consome seu sentido mais óbvio e imediato. Ao fazer crescer a distância entre o teor coisal e o teor da verdade, como em um processo de decantação, tudo que em uma obra é datado sobe a superfície e, nessa separação, seu teor da verdade pode ser nomeado”.
Cláudia Maria de Castro, responsável por essa parte, reconhece que mergulhar nos textos de Walter Benjamin não é para qualquer um. Perscrutar o que há de essência na forma dura do autor é missão árdua que requer paciência. Foi para mim, será para você e boa sorte. Fica a dúvida se começar o livro levantando um arame farpado como esses era a melhor solução (já que o objetivo principal do texto é justificar o que vem a seguir) ou se foi simplesmente honestidade, uma declaração de que, para entender a proposta do livro já é necessário um background cultural considerável.
Feita essa seleção de leitores, o tiro direcionado, pego então o último parágrafo da orelha:
“Temos então um multifacetado campo de observação e ângulos distintos da percepção sobre o pensamento e a atitude contraculturais. Inúmeras são as oportunidades de estendermos as linhas de continuidade-descontinuidade desse legado para a inteligibilidade do mundo contemporâneo”.
Sobe de novo. Recupera o fôlego. Uma ampla maioria de assuntos pode ser explorada por ângulos diversos. Qualquer palestra sobre o uso do café no ocidente, a violência no Paquistão ou a evolução acadêmica com o advento do giz pode ser plural. Com a contracultura não é diferente. O ponto de interesse então não é a pluralidade inerente ao tema (qualquer tema), mas a proposta de trazer diferentes olhares, pontos de vista distintos para desenvolver a tal ruptura e continuidade da contracultura.
E isso tem a ver com o texto de Luiz Camillo Osorio, que chama atenção para o ponto central do debate. 99,9% do valor de uma obra/texto/peça/monumento/pires chinês está na capacidade de dialogar não só com o tempo (contexto histórico) e o espaço (o local que sucumbiu ao global), mas com quem a vê. Seja o doutor X-Pert ou o Zé da esquina, é sua bagagem de vida que permite a pluralidade. E isso nem é arte, é biologia. A visão tem como uma das funções buscar eventos na memória que se pareçam com o que estamos vivenciando, encarando no momento e, junto com essa imagem, recapitular os sentimentos também armazenados, vindo aí prazeres e traumas. Tantas interpretações quanto olhos abertos e fechados a admirar ou repensar a obra de um artista. E “por que não?” analisar o papel do museu como espaço de exposição, colocando-o como espaço de experimentação e também o que foi a contracultura e o que ela se tornou ao ser incorporada pelo tal museu de onde deveria ter se distanciado.
Em suma, mostrar que nem só de museu e olhar bovino vive a arte, abre caminho para os capítulos seguintes.
É no texto de Paulo Henrique Britto que o livro fica mais palatável para os iniciantes e iniciados. Sem malabarismos lingüísticos, o autor vai direto ao ponto.
“A idéia da contracultura está intimamente associada à idéia de transgressão: uma ‘contracultura’ seria uma subcultura que se define em oposição à cultura dominante, numa postura transgressiva”.
Palavras. Ficam tão bem quando umas depois das outras adquirem significado inteligível.
Para tornar o capítulo ainda mais interessante, o foco é a poesia. O autor cita a geração mimeógrafo como a que mais se aproximou da contracultura e põe como alvo a produção poética e crítica construtivista-objetivista dos concretos. Adiante, analisa a produção poética atual, apontando diferenças e semelhanças com a contracultura, tarefa difícil já que a proliferação de vozes individuais desloca-se do conceito de unidade de movimentos em geral.
“Quando a ordem do dia é subverter e desconstruir, a própria idéia de transgressão perde o sentido”.
O próximo passo quem dá é Antônio Cícero, ao abordar o Tropicalismo (centrado em Caetano, é verdade) e lembrar que o AI-5 teve enorme peso na produção cultural da época.
“De fato, a recusa a separar alta e baixa cultura, radicalmente realizada na vida prática de Caetano, fazia parte de uma recusa das convenções estéticas, e, de maneira geral das convenções sociais”.
A partir daí, com uma idéia mais clara do valor contracultural e com elementos mais acessíveis para dialogar e construir significados, o leitor acompanhará a influência das drogas alucinógenas (símbolo da cultura hippie e potente filtro midriático) na contracultura. Deixará Focault descansando e esbarrará em nomes como The Doors, Raul Seixas e Jimi Hendrix. Entrará em debates (internos, porém coletivos) sobre o papel da espiritualidade na (de)formação da identidade cultural e passará pela Nova Era que, não por acaso, retoma o tema do individual preponderante ao coletivo. Pensará o papel do teatro e essa idéia antiga que temos de que ser ator de teatro é uma profissão alternativa em seus diversos significados. Esbarrará com a psiquiatria (e volta Focault, Goffman) no seu sentido mais acadêmico. Atualizará o uso das drogas, agora nas raves e boates e, após toda essa caminhada racional, colocará os pés na cena cultural das favelas brasileiras, dos quais AfroReggae e Nós do morro se tornaram boas bandeiras (um dos melhores capítulos).
Jornada concluída, retomo o início da resenha. O grande defeito de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura é não se livrar do malabarismo dialético na maioria dos capítulos, o que além de restringir o público-alvo e afastar leitores mais tímidos, retoma o conceito de literatura para eruditos e recoloca a arte nas paredes do museu. Seu ponto forte é a diversidade. Mais interessante se pensarmos no formato original de seminários em que é possível interagir, complementar e rebater comentários, mas que mantém parte de seu charme como livro pela riqueza de opiniões.
Editora: 7 Letras
Assunto: Sociologia
Formato: 14×21
Número de Páginas: 264
ISBN: 9788575774076
Ano: 2007
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.































