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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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11/01/2008

Em Paris

Em Paris (Dans Paris) é um filme gostoso de se ver. Uso aí gostoso porque agradável poderia parecer crítica disfarçada. Para quem gosta de dramas, vale dizer que o filme não segue uma estrutura dramática. O que significa que a história inteira não empurra o espectador para um evento marcante no final (como a morte do herói após salvar a mocinha, por exemplo) e faz questão de deixar isso claro começando pela última cena.

Em Paris

O filme fala essencialmente de amor. Há o amor entre irmãos, o amor mal resolvido entre casais, o amor de cinco minutos, o amor de antigos relacionamentos, o amor entre pais e filhos e por aí vai.

Falando de um tema sério com a leveza de uma comédia, Christophe Honoré usa elementos da Nouvelle Vague para contar um dia da vida de dois irmãos. Paul (Romain Duris de O albergue espanhol, Exílios, Bonecas Russas, De tanto bater o meu coração parou) é o irmão “drama” da história. Ele teve um forte desentendimento com o grande amor de sua vida e foi para a casa do pai curtir sua profunda depressão no quarto. Lá ele volta a conviver com Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores, Amantes Constantes), o irmão “comédia”. Jonathan é aquele tipo de jovem que acorda tarde, mata aula, dorme pelado, curte a vida de todo jeito e vê em cada garota a possibilidade de um novo amor (ou de ir para a cama, para ser mais preciso). Do seu modo peculiar, ele tenta decifrar o que aconteceu com Paul e tirá-lo da fossa.

O filme começa com Jonathan acordando na cama entre o seu irmão e uma garota. Ele olha para os dois como quem tenta lembrar o que aconteceu, sai devagar para não acordá-los, veste uma roupa e vai até a câmera falar com o espectador. O personagem admite que aquilo é um clichê e promete se comportar como personagem na maior parte do filme e não como narrador. Para se aproximar da estrutura dramática ele lança a pergunta: “Que tipo de história de amor pode fazer alguém querer pular de uma ponte?”. Suspense no ar.

No desenrolar, o filme mostra alguns momentos da estranha relação que Paul tinha com Anna (Joana Preiss de Paris, eu te amo), sua ex-mulher. Ambos são desenhados de modo humano para não ser possível identificar um culpado, um lado errado da história. No apartamento, ganha importância a relação dos irmãos com o pai (Guy Marchand). Sua atuação inspirada é pautada por aquela preocupação paterna constante de quem quer ajudar, mas não consegue mais adentrar o mundo pessoal dos filhos e entender o que está acontecendo (o personagem de Paul é muito fechado na maior parte da história). Nesse meio tempo, surge também a mãe (Marie-France Pisier), primeiro através dos diálogos, depois visitando o marido e os filhos para tentar ajudar Paul na noite da ceia de Natal. Apesar da pequena participação, sua personagem é verossímil e tem peso na história, contribuindo para o clima de “filme de relacionamentos”.

Em Paris é cheio de boas atuações e tem cenas memoráveis, como o diálogo musical pelo telefone, a leitura do livro infantil, a conversa na banheira, as cenas na ponte (viu, trouxe o suspense de volta).

Para cinéfilos que curtem Nouvelle Vague, ele também está cheio de referências, a mais óbvia delas a Truffaut, e pesquisá-las é um prazer à parte. Se você não precisa de explosões de Duro de Matar ou dramalhões no estilo Menina de Ouro, este pode ser o grande filme da temporada.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Em Paris



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