A Bússola Dourada
A Bússola Dourada é uma tentativa fracassada de adaptar o romance de Philip Pullman para o cinema. Enquanto a trilogia de Senhor dos Anéis e o talento de Peter Jackson perdurar na memória dos cinéfilos, fracassos como esse parecerão ainda maiores para os fãs de fantasia. The Golden Compass, no original, é um festival de erros. O primeiro deles, minimizar o ataque direto ao catolicismo existente nos livros de Pullman. Fora a escolha do elenco e um visual caprichado (explorado em demasia), o filme não possui nenhum atrativo.
Isso quer dizer que o elenco vale o ingresso? Não. Quer dizer que se você gosta de Nicole Kidman alugue Dogville. Se curte Daniel Craig e Eva Green reveja 007. Os três atores fazem pequenas pontas. Nicole Kidman está mais plástica do que nunca e Eva Green por pouco não entra muda e sai calada. O filme é todo centrado na menina, Lyra Belacqua (Dakota Blue Richard), que aparece bem pequena em cima de um urso no cartaz.
Então é um filme infantil? That’s the point. A trilogia de Pullman é conhecida por sua complexidade. Aborda um universo paralelo onde não existe religião. As pessoas não têm almas em seus corpos. Esses espíritos ficam do lado de fora na forma de animais diversos, os dimons, como uma companhia constante (deamons é uma palavra antiga para espírito que a igreja corrompeu para criar o termo demônio). Nesse mundo de pessoas e espíritos livres existe o Magistério, uma espécie de governo que prega dogmas dizendo o que as pessoas devem ou não fazer, no melhor estilo verdade absoluta. Alguns, entretanto, não seguem as ordens. E aí há uma influência do pó (dust). Pó? Magistério? Mas e a Bússola? Explico. Os ancestrais desse mundo de ciência muito peculiar criaram objetos que só dizem a verdade. Os tais objetos eram as Bússolas Douradas. Como ditaduras sempre vão contra verdades, as bússolas foram destruídas e sobrou apenas uma, guardada em uma universidade.
Como há uma profecia que diz que uma criança conseguirá entender a bússola (só com profecia mesmo, porque o brinquedinho é complicado), um grupo misterioso chamado Gobblers começa a seqüestrar as crianças. Um pouco mais e descobrimos que a Lyra é a criança que sabe ler a bússola, artifício ótimo para o diretor e roteirista Chris Weitz sair explicando o filme inteiro em cada olhadela que sua personagem dá no brinquedo dourado.
É mais ou menos assim: Lord Asriel (Daniel Craig) caminha na neve com seu dimon e fala para ele “Temos que tomar cuidado, Marisa Coulter colocou todos os assassinos da região para nos caçar”. Um segundo depois você ouve o primeiro tiro e começa a perseguição. Lyra dá uma espiada na bússola, aparece a imagem desfocada do urso guerreiro. Ela fecha com cara de assustada e conta a história inteira do urso. E assim segue até o fim.
Adaptar literatura para o cinema não é fácil. São linguagens totalmente diferentes, uma expressa em palavras a outra em imagens. A bússola dourada recai em um erro clássico ao fazer das imagens fundo de tela e usar diálogos enfadonhos para explicar a trama.
Tão ruim quanto o roteiro é a edição final do filme. Feita de pedaços que não se encaixam harmoniosamente, a história faz os personagens saltarem de um canto para o outro, as cenas de ação acontecerem do nada, pessoas sumirem e aparecerem conforme a vontade do diretor.
Ao ceder às pressões dos estúdios e esvaziar a trama de Pullman na tentativa de fazer um filme infantil acessível para todos, Chris Weitz conseguiu afastar o maior público interessado. Vazio e sem graça, só a igreja mesmo para achá-lo reacionário.
Em tempo 1. O filme custou a bagatela de US$180 milhões. Quando fez apenas US$67 milhões nos Estados Unidos, a crítica declarou o fim precoce da trilogia. Por sorte, A bússola dourada vem se recuperando no mercado internacional e já arrecadou US$300 milhões, pagando pelo menos o custo do filme (não sei quanto foi gasto no marketing).
Em tempo 2. É impressão minha ou Sam Elliot veste a mesma roupa que usou em Motoqueiro Fantasma?
Em tempo 3. Além dos humanos e seus dimons, o universo paralelo de Pullman também tem bruxas voadoras e ursos polares guerreiros, que comandam as regiões geladas do planeta. Ficou interessado? Então leia o livro.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















