Meu nome não é Johnny
Meu nome não é Johnny é o mais novo filme da série “o tráfico vai ao cinema”, forte concorrente no mercado brasileiro com a linha “pó de barro” que também norteia nossa produção. Dessa vez, o ponto de vista abordado é o do sujeito gente boa, que trafica assim, só por diversão, para abastecer os amigos e animar as festinhas. Sempre bom lembrar, o filme é baseado em um livro, que é baseado em uma história real, a do João Guilherme, que não, não se chama Johnny.
Esse caminho dos fatos, da vida real até o cinema, impõe uma linearidade desnecessária ao filme, o que gera algumas barrigas, mas no geral o resultado é positivo. Se no começo parece apenas uma versão cômica de Alphadog, no decorrer “Johnny” ganha personalidade e mostra a que veio, jogando fora todo falso moralismo que poderia torná-lo descartável.
A história você já conhece dos jornais, mas vou resumi-la mesmo assim, fingindo que é novidade.
João Guilherme (ou qualquer outro nome, só não vale Johnny) era um garoto típico da zona sul do Rio. Tinha tudo o que queria, menino popular, vivia em festinhas, cercado de amigos, família praticamente estável (com pais separados, é verdade). Um dia, como os colegas se recusam a ir comprar drogas por inúmeros motivos, ele vai, descolado como só o Selton Mello (O cheiro do ralo, Lavoura Arcaica) sabe ser. Como João não tem o dinheiro na hora, entra no velho esquema de compra. O traficante passa a mercadoria adiantada e marca um dia para receber o pagamento. Como a grana aparece, João ganha a confiança do traficante e passa a ser não só consumidor como vendedor. Ponte direta.
O tráfico é uma empreitada que mata muitos e dá dinheiro para poucos. Por sorte (dele), João cai no segundo grupo. João vira o conhecido da galera, amigo de todo mundo que cheira cocaína. “A noite do Rio não termina sem o meu telefone tocar umas vinte vezes”, diz mais ou menos o personagem.
João Guilherme não é exatamente um empresário, mas segue carreira, chegando ao tráfico internacional. Por vender bem, chama atenção de fornecedores poderosos que passam a procurar João. O mesmo acontece com a polícia corrupta (aliás, personagens hilários), com a concorrência e com a polícia federal.
A ascensão e queda do simpático personagem é toda retratada no filme, com direito a julgamento, cadeia, manicômio e muitos obstáculos, porque não existe volta por cima sem eles. A parte da cadeia, inclusive, é um dos melhores momentos do filme, com ponta de ótimos atores e estoque de piadas renovado.
Além do Brasil, o filme se passa na Itália e Espanha, gerando um monte de cenas que não agregam nada muito novo, mas são importantes para balizar a noção de sucesso que o espectador terá do personagem.
Como dito, o saldo geral é positivo. A direção de Mauro Lima (de Tainá 2) é acertada, direcionando o filme ao público certo e arrancando dos atores o tom de humor necessário, sem esvaziar a parte dramática, mais acentuada na segunda metade da história.
Cássia Kiss faz uma ponta fundamental, como a juíza que conduziu o caso de Johnny/João Guilherme e sua atuação dispensa comentários. É dela, a personagem, a frase mais marcante de toda a projeção: O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos.
Valeria também para o cinema?
Em tempo: o filme custou R$5,5 milhões.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


































