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Eu sou a lenda

Difícil sair do cinema falando “uau” que filmão, ainda assim Eu sou a lenda é muito superior aos blockbusters habituais. Ele possui os ingredientes típicos de um filme-pipoca – explosões, correria, adrenalina – mas usa tudo de maneira dosada, sem em nenhum momento diminuir o peso da história e dos personagens. Vamos destrinchá-lo.

A história é a seguinte: uma cientista descobriu a cura do câncer. Ela modificou geneticamente um vírus (sarampo, eu acho) e o distribuiu nos pacientes, o bom e velho teste em humanos que costuma acontecer só após testes em cobaias.

Alguns anos depois, as pessoas curadas começaram a apresentar sintomas estranhos parecidos com o da raiva (entenda: morder os desavisados). Lá pelas tantas ficamos sabendo que o vírus transformou os curados em zumbis canibais super fortes e rápidos que saíram comendo todo mundo que viam pela frente. Isso leva o governo americano a isolar Nova Iorque e colocar a população em quarentena. Correria pra lá e pra cá, o Coronel Robert Neville (Will Smith) fica na cidade para descobrir a cura, já que lá é o ponto zero. O vírus se espalha e, conseqüência, fim da humanidade. Resta só Neville e sua cachorra Sam.

Eu sou a lenda (poster)O diretor Francis Lawrence só tem um longa-metragem no currículo: a adaptação / deformação do HQ Constantine. Na época, Lawrence mostrou que estava disposto a fugir de clichês e que tinha uma habilidade extra para trabalhar a iluminação inserindo-a na linguagem. Eu sou a lenda segue a fórmula, no bom sentido, e demonstra o aprimoramento do estilo do diretor. Sustentar um filme de 1h40 com apenas um ator, um cachorro e um punhado de efeitos especiais não é fácil. Como você cria o clima? Como desperta os sentimentos necessários em quem assiste? Bom momento para lembrar que além de ator existe roteirista, diretor e uma equipe imensa por trás de cada cena.

A primeira parte do filme é angustiante. Nova Iorque vazia, a vegetação dominando as ruas e prédios envoltos por plásticos (da quarentena fracassada). É um pacote de medos comuns da humanidade. A solidão é o maior deles. Se a solidão em casa, no trabalho, no colégio já sufoca, imagine olhar para o mundo e saber que não há mais ninguém. Ninguém. Outro medo é a extinção, o vírus letal. De tempos em tempos vírus surgem, geralmente em áreas rurais após se reproduzirem em algum animal, e matam. Ponto final. Não há cura, não há tempo de nosso sistema imunológico se defender. O vírus da vez no mundo real é o HN51. O vírus de Eu sou a lenda, para piorar, coloca em nossas mãos a responsabilidade de sua virulência. Faz isso transformando um sonho (cura de doenças agressivas) em pesadelo. Ele não mata, mas transforma homens supostamente civilizados em bestas movidas a instintos (a melhora do físico em troca do intelecto), lembra que somos capazes de matar uns aos outros, de destruir o que houver pela frente sem pensar. Por fim, lá está o planeta, de pé. Morremos nós, egoístas que nos achamos donos de tudo, fica ele inteiro para os que virão (e vieram logo os zumbis, não tem jeito).

Isso tudo é muito bem trabalhado por Lawrence e Will Smith, que passeia de carro pela cidade vazia, invade casas e apartamentos em busca de remédios e cds, assiste o noticiário gravado de dias anteriores. Seu personagem em nenhum momento grita, sua voz não ecoa no vazio externo, só no interno. Ele não olha para o alto atrás de respostas, sabe que ela está lá no seu laboratório, escondida em algum lugar, e ele precisa se manter de pé até encontrar. Uma das cenas mais interessantes é Smith indo à locadora alugar dvds. A locadora está cheia de manequins que ele colocou por lá com roupa e tudo. Ele entra, conversa com o atendente, flerta com um ou outro e sai. E assim segue a rotina. De noite, se tranca em casa e ouve os sons dos zumbis zanzando pela cidade.

Apresentada a situação, o cenário e os personagens, é hora de dar um passo adiante. Em um belo dia de caça, Sam (a cachorra) segue um animal e entra em um prédio escuro. Smith vai resgatá-la e somos apresentados aos antagonistas. É aí que o talento de Lawrence ao trabalhar a escuridão fica mais evidente. O que não vemos é muito assustador. É um bloco de forte suspense. Na cabeça, só temos os sons que Neville ouve ao tentar dormir e a imaginação voa longe. É claro que o zumbi em si não assusta mais ninguém, o que assusta é a idéia, o símbolo do fracasso, o inimigo que pode derrotar a última esperança (comendo-a viva). A angústia da solidão é substituída pela frustração da iminência do fracasso. O segundo ato do filme é movido por esse mesmo suspense, pelo antagonista presente ou não em cena, e tem seus bons momentos, mas já não é tão eficiente quanto o início.

Como a Alice Braga trabalha no filme, todo mundo sabe que Neville não é o único sobrevivente. A sua personagem, Anna, entra na história de forma muito obscura, salvando Neville de uma situação extremamente delicada que nem roteirista nem diretor explicam. Ela lança luz, literalmente, na vida de Neville, trazendo esperança para o personagem e renovando o fôlego do espectador. Nesse ponto, não há mais surpresas, não há nada que o roteiro possa fazer para avançar a trama. Resta o artifício das explosões e correrias que assumidamente servem só para ocupar espaço e conduzir o filme ao seu final. Você nem imagina qual seja, não é?

Em tempo 1: será que não podemos ter como efeito colateral virar vegetarianos e sair atacando chuchus e abobrinhas na feira? Por que tem que ser sempre o zumbi canibal?

Em tempo 2: por que bestas assassinas nunca atacam umas as outras?

Em tempo 3: Eu sou a lenda teve o orçamento estimado em US$150 milhões. Até agora, arrecadou US$515 milhões e deve seguir firme como a maior bilheteria da temporada.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0011, em 28/1/2008

 

 

 

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