Retratos
No sábado, 26 de janeiro, houve várias aberturas de exposição, todas perto umas das outras, no centro histórico do Rio de Janeiro.
Fui. Quem sabe alguma novidade me entusiasmava.
Tinha feito o Tatsumi Orimoto há pouco em São Paulo e, quando comecei a entender o que via como dificuldades de auto-retrato, pensei: bem, ainda não me desliguei do Orimoto e de seus pães à guisa de rosto.
Pode ser.
Mas sou chegada a uma grande teoria e também pode ser – prefiro eu – que o que eu via fosse uma pequena amostragem de um momento mais amplo, o da identidade incerta em épocas de mudança de paradigmas. Não vou tão longe e englobar a humanidade inteira, está bem, metade, a do ocidente, ok, apenas a sua manifestação na arte, nem toda, a visual, bem, é melhor eu ficar com a daqui mesmo, sendo que vou ter dificuldade em definir esse “aqui”.
Mas que se não é isso é uma baita coincidência, lá isso é.
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Marcus Abreu, galeria Durexx: em Sobeátic, ele cobre com látex uma fotografia de uma sala antiga onde há uma fotografia na parede. Com o látex, o que era indistinto o fica mais ainda. Salvo o rosto do retrato da parede, nítido, e que corresponde a um buraco em branco, igualmente nítido e do mesmo tamanho, ao lado. Qual dos dois é o registro da memória?
Ainda na Durexx, uma das obras mais bonitas de todo o dia: Claudia Melli trabalha com uma caneta de nanquim branco em cima de um vidro de um azul escuro, quase preto. São umas poucas linhas, e ela constrói uma vastidão vazia, de uma noite que não acaba.
Sonia Távora, galeria Transverso: seu site specific Do outro lado transforma as linhas verticais de uma grade externa da galeria em uma grade de prisão, uma passagem impedida, que é onde ela coloca sua individualidade em forma de versos escritos de forma frágil, imperfeita, à mão.
Cleone Augusto, também na galeria Transverso, faz formas mais ou menos humanas, de barro. Não pára de fazer, sua obra está perenemente em processo. As figuras são quase todas do mesmo tamanho. Me fez lembrar uma teoria de Darwin que diz: em uma dada população animal os sobreviventes serão sempre os do meio, nem os maiores nem os menores, serão sempre os que não se distinguem.
Fabiano Gonper, artista da Gentil Carioca: seu desenho, que deve um quê ao holandês Escher, é o desenho de uma mão que pega e modifica o que está desenhado. Chama-se O manipulador e poderia se referir a qualquer um de nós, que nos arrumamos, cara inclusive, para sair.
Simone Michelin, também da Gentil, fez parecido com Marcus Abreu, mas sem o pathos tão instigante dele. Sua foto da movimentada 25 de Março, em São Paulo, traz as personagens, tanto as “reais” quanto as representadas nas capas de uma banca de revistas, com os rostos substituídos por ovais em branco.
Ainda na Gentil, uma idéia banal, a do chocolate em formato de revólver, de Guga Ferraz em sua obra Chocolate Suíço. Uma referência, talvez, à banca internacional, cúmplice e beneficiária de um dinheiro, o do tráfico, que é combatido com a outra mão do poder. Mas mesmo com este entendimento a obra fica fácil, um pouco para o lado do panfleto e me faz pensar na dificuldade em estabelecer uma identidade de contestação para os que são jovens hoje.
Edmilson Nunes, no Paço Imperial da Praça XV, volta a apresentar sua visão irônica e dolorida da Igreja Católica com a instalação Assim na terra como no céu. Ao lado, um auto-retrato. Seria um auto-retrato comum, óleo sobre tela, se ele não tivesse posto chumaços de tule preto em toda sua superfície. A imagem se anula, se distancia, fica borrada. Ele usa a mesma técnica em uma grande tela, dessas que ornamentam salas de jantar simples, não sofisticadas. A tela fica mais longe, mais borrada e, por causa disso mesmo, muito mais vívida e eficaz no que ela representa: a distância tão grande que há entre nós e a vida simples e nítida da qual tais telas são ícone.
Carlos Contente, também no Paço, desenha as paredes. Sua exposição se chama Auto-retratos também. Os rostos de seus personagens são feitos com um carimbo, todos iguais. Há um em que ele põe em destaque, separada, a figura principal de uma representação de um jantar formal, e a identifica: “fulano de tal”. Esse o nome do não-indivíduo.
No Paço ainda, a coleção de Márcio Rebello, reunindo cem auto-retratos de artistas brasileiros (Tunga, Daniel Senise, Waltércio Caldas – que aliás estava presente nas vernissages vizinhas – Siron Franco e muitos outros). Eu sei, apenas uma coincidência.
João Penoni, no Largo das Artes, põe em seu vídeo sua própria figura de costas sobreposto a paisagens que passam em ritmo acelerado. Pensei na definição de transgressão, que é quando algo que excede consegue ser visto/vivido como uma possibilidade de inclusão. A transgressão o é sempre em relação a fronteiras impostas. O agente dessa ação possível, contudo, não é identificado na obra de Penoni, e o que é aí incluído é uma paisagem sem a ação humana: praias desertas, montanhas solitárias. Uma transgressão sem testemunhos, a bem dizer, não resultante.
Glaucia Mayer, também no Largo, é outra que integra sua figura na obra. Aqui em carne e osso mesmo. Mas fantasiada, na verdade mais uma personagem do que uma pessoa. E seu feminino, de um cor de rosa artificial no tom e na textura, me remeteu à artificialidade de uma não-individualidade, de algo feito em série, em moldes. Mais uma dificuldade de individualização.
Só para fechar os comentários sobre o Largo, NGDG (sigla de dois artistas parceiros: Nadam Guerra e Domingos Guimaraens) faz a velha brincadeira de espelhos com o fruidor à frente: você se vê cortado, de cabeça para baixo, no lugar da “obra”. Acho que já vi bem uns 20 espelhos desses nos últimos tempos. Em frente aos espelhos, Bruno Miguel planta umas plantinhas no chão da galeria, também em um registro batido, de cunho ecológico. Mas, ao lado, Bianca Tomaselli consegue uma pequena obra-prima com seu Desenho parasita: uma superfície azulejada onde com uma makita (ferramenta de pedreiros), ela fere uma fileira de azulejos, quebrando assim a construção geométrica anterior. A personificação dos azulejos machucados, o sulco que se transfere da superfície espelhada para quem está em frente e o cunho de intimidade e de cotidiano de uma parede de azulejos brancos, eis alguns dos componentes de uma obra de surpreendente eficácia.
E no Paço, uma sala de Ivens Machado com suas Acumulações. Fiz um texto sobre uma exposição dele na Mercedes Viegas, em 2005. Eram uns sacos de entulho. Também um acúmulo. Mas depois do texto pronto e publicado me deu um estalo: aquilo eram sacos sexualizados. Masculino a mais não poder, Ivens me pareceu, então, ter representado o saco cheio de um homem de saco cheio. Não consegui me livrar dessa lembrança e vi as obras do Paço também sexualizadas. Seus paus de ponta afiadas, dezenas dele, presos frouxamente e apontando para você.
Bem. Coisas da cabeça de quem vê. Pode não ser nada disso. E pode ser que todos nós, artistas e visitantes, saibamos muito bem quem somos.
Mas eu duvido.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.







































