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Entropia

Teatro é pacto, é jogo. Ao sair de casa para assistir Entropia (no CCBB, até dia 16 de março), não esqueça esse preceito básico. O diretor Marcelo Mello concebeu com seu elenco exatamente isso: um jogo cerebral intenso e ágil, que convida sua platéia a manter-se presente, ativa, para acompanhar o raciocínio rápido e a ironia fina do texto de Rodrigo Nogueira. As palavras como moléculas que se agitam e se chocam, subindo a temperatura, liberando calor e energia.

do centro em sentido horário: Regina Melo, José de Brito, Miwa Yanagizawa, Marcello Melo, Alexandre Braga e Luisa Friese / Liliane Rovaris (de costas) - fotografia de Cláudia RibeiroTexto, a propósito, que facilmente poderia conduzir uma montagem às armadilhas do intelectualismo, da ação que se perde na idéia e que muitas vezes afunda o teatro. Vencido este desafio, a cena emerge vitoriosa e forte. Eis um bom exemplo de espetáculo que conquista este lugar, onde pode gerar inquietação, incômodo e reflexão na platéia que com ele pactua.

Não é um tema fácil de tratar. O conceito de entropia, mesmo, é pouco compreendido pela maioria das pessoas: a energia que não é acessível para o trabalho (entenda trabalho como um conceito físico de ação ou algo que o valha), que se dissipa e mistura-se ao universo, cresce em condições naturais e não pode ser controlada. Some-se a ele (o conceito), uma enorme quantidade de referências e mesmo citações filosóficas, literárias, humanistas, pós-modernistas, que vão de Guimarães Rosa a Virgínia Wolf, de Heiner Müller a Nietzsche, passando por Caroll.

O objetivo, juntando tudo isso, é a construção em ambiente controlado de uma cidade ideal por um grupo de sábios anônimos, e na construção o conflito dos anseios ideais – e a natural desordem do que não pode ser controlado. Entropia. Confuso? Não no espetáculo. Não em cada um dos seres-atores-personagens que lhes emprestam energia, movimento e pulsação.

O texto desenha as relações em uma narrativa não-linear, vai soltando pistas, um quebra-cabeças, diversão para as mentes, construindo devagar o espaço imaginário a partir dos seres ou os seres a partir do espaço (a inversão faz parte da diversão).

A direção de Mello conduziu com inteligência o elenco bem entrosado num bate-rebate verbal instigante. Mas jogo só de palavra em teatro perde-se em chatice sonora – por melhores que sejam as vozes – se não houver ator vivo. Aqui temos um grupo bem vivo de atores (Alexandre Braga, Diogo Salles, José Brito, Liliane Rovaris, Luisa Friese, Miwa Yanagizawa e Regina Melo), com clareza de desenho de cada personagem, com inteireza de corpo e emoção contidos na sutileza, mas definitivamente em ebulição (vale aqui, na sutileza, ressaltar o trabalho de preparação corporal de Duda Maia).

Há quebras no ritmo – principalmente quando emergem as narrativas literais das cidades imaginárias (aquelas ansiadas, terceira dimensão da cena) de Ítalo Calvino (As Cidades Invisíveis), Ferreira Gullar (Cidades Inventadas), Thomas Morus (Ilha de Utopia), Platão (Atlântida), Saramago (Ensaio sobre a Cegueira) e Garcia Márquez (Cem anos de Solidão). As cidades narradas surgem no ator e na projeção de vídeo – uma sobreposição de imagens, seqüência de logotipos, colcha de retalhos.

Miwa Yanagizawa, Regina Melo e Marcelo Melo - fotografia de Cláudia RibeiroNa primeira intervenção do vídeo há uma expectativa, que move a platéia em suas cadeiras. Mas a segunda, terceira, todas as seguintes se repetem e talvez dispersem mais do que ajudem nos cortes.

Há um momento em que o olhar desiste da seqüência vertigem de imagens e prefere o contato humano, o olho do ator que fala. E anseia pela seqüência do jogo que, talvez, se fosse num fôlego só, deixaria a platéia arrepiada, com gosto de “quero mais” e um certo vazio nas entranhas, com perguntas flutuando sonoramente na cabeça.

Vale ainda citar a cenografia de Sérgio Marimba e a luz de Renato Machado, recortadas, vazadas, modulares, que funcionam em harmonia, construídas como tabuleiro do imaginário sem dimensão, que aprisiona e liberta o jogo a cada instante de virada, em perfeito diálogo com a encenação.

Por tudo e para tudo, Entropia pode ser visto e degustado. Mas não esqueça: é jogo e pacto. E a platéia não está nem pode estar de fora.

Em tempo:
Entropia, Teatro III do CCBB (1º de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. Tel. 3808-2020).
De quarta a domingo, 19h, até 16 de março.

 

 

 


Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.

 

editoria: edicao_0011, teatro, em 4/2/2008

 

 

 

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