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Onde os fracos não têm vez

Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen, vem recebendo prêmios e elogios da crítica por onde passa. Seu público fiel (que aumentou na época de Fargo) também aprovou a película e já a aponta como obra-prima dos irmãos diretores, que de quebra ainda concorre a oito Oscars. A divulgação, entretanto, está causando certa confusão na cabeça dos espectadores, levando a caras de interrogação menos por prazer e mais por falta de entendimento. Se é verdade que o filme atualiza o gênero western? Sem dúvida. Se o espectador verá perseguições típicas de xerife e bandido? Na medida. Se o que vale no final é a lei prevalecer e o cavalo sumir no horizonte deixando um rastro de poeira? Nem pensar.

Você já ouviu falar de bardos, provavelmente. Prosadores que transmitiam histórias antigas ou atuais por onde passavam. Os fatos reais ganhavam sabor especial em suas rodas de cantigas. Um homem em fuga podia saltar um rio, um cavaleiro falar com animais, um assassino andar invisível pelas cidades. Real e imaginário viviam ali, bem na fronteira, valendo muito mais a boa história do que a fidelidade aos fatos. O Western tem muito a ver com isso. E isso vale para mocinhos e bandidos. Antes do rosto, havia a fama. As histórias sobre um pistoleiro sempre chegam primeiro à cidade que ele está indo saquear. A fama de um xerife durão serve para afastar encrenqueiros, mesmo que o xerife não levante da cadeira de balanço. E tem o homem que chega a cavalo. Não importa seu nome, ninguém sabe quem ele é. Mas ali na rua barrenta, com a roupa que veste e o olhar de esguelha que lança para o dono da funerária, o novo caubói ganha o respeito dos que estão ao seu redor.

Onde os fracos não têm vezOnde os fracos não têm vez é um filme sobre histórias, sobre os diferentes modos de contar uma história e o que aproveitamos de cada um deles. A que é contada de forma tradicional dentro do filme é a de um sujeito sortudo (nem tanto) que encontra no meio do deserto uma mala de dinheiro, fruto de uma negociação frustrada entre traficantes. Infelizmente os donos do dinheiro contratam um assassino mau que nem o pica-pau que cola na traseira dele para recuperar a grana, levando a momentos muito interessantes.

Há também as histórias faladas, a maioria delas através do xerife. Para começar há uma narrativa em off de Tommy Lee Jones sobre a evolução da violência . É uma história em que não vemos o personagem, não associamos a voz a um rosto, nem as palavras ao seu significado gráfico mais óbvio. O que temos é uma espécie de stimmung nos traços e cores de um belíssimo deserto. Mais tarde, já com rostos associados, ouvimos o que ele tem a contar para a noiva do fugitivo e para o assistente policial dele. A história sempre passa de uma fonte para a outra, como deve ser.

Ele pede à mulher que diga algo ao fugitivo, ele conta a ela a história que ouviu de alguém e que talvez não seja bem assim, ele fala para o assistente algo que acabou de ler no jornal, já processado e devidamente interpretado por ele. E há o final, depois de um corte brusco na narrativa tradicional da fuga/dinheiro, todo através de suas palavras. O que sobra não é o fato, mas o que se pode contar sobre ele.

Onde os fracos não têm vez (uma tradução inspirada de No country for old men) é também um filme sobre a construção de personagens (intimamente ligado ao ato de contar histórias), que entram e saem, aparecem e somem em cenas únicas, de conteúdo fechado, com pouco tempo para transmitir sua mensagem e compor algo maior no jogo de muitos gatos e ratos.
Para aproveitar a brincadeira, tenha em mente uma das máximas do cinema: um personagem é o que faz, o que fala e o que falam sobre ele. E isso fica mais claro nas partes que giram em torno do assassino.

Explico.

Na beira da estrada um policial acaba de prender um sujeito esquisito, com cabelo engraçado, carregando um tubo de oxigênio e uma mangueira. Há a interpretação dos fragmentos de imagem (lembra do caubói chegando a cavalo na cidade?) e não dá para entender na hora o que acontece. Na delegacia, o policial passa a sua opinião por telefone ao xerife. O que ele fala não condiz com o que vemos. O que você prejulgou no começo, o que o policial contou ao xerife e ao espectador e o que você vê com seus próprios olhos são coisas diferentes, num choque de interpretações. Outros personagens também falarão sobre o assassino, alguns contarão o que sabem do seu passado, o fugitivo passará sua impressão pelo que vive no presente e assim seguirá a corrente durante todo o filme, passando por mim, por você e por muitas pessoas com interrogações na testa ao fim da projeção.

A cereja do bolo? O humor negro irretocável dos dois bardos diretores.

A filmografia de Ethan e Joel Coen inclui Gosto de sangue, Arizona nunca mais, E aí, meu irmão, cadê você?, Matadores de velhinhas, Fargo, O homem que não estava lá (excelente) e A roda da fortuna, entre outros.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0011, em 7/2/2008

 

 

 

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