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Engenho e arte

Iniciei o livro curioso para saber como Deise Quintiliano se sairia com Engenho e Arte: pós-modernidade e relatividade em Sartre. Se ter um bom tema em mãos não é garantia de qualidade, quando o que está em jogo é o legado de Sartre o cenário fica ainda mais complicado. O motivo é tolo mais existente: é inevitável comparar a qualidade do objeto e do produto de estudo, o interesse despertado por cada um em separado. Engenho e Arte, felizmente, constrói sua individualidade sem vampirizar suas fontes, mantendo um diálogo bem dosado com as idéias dinâmicas do pensador. Outras características positivas de Engenho e Arte são: 1. munir o leitor com informações suficientes para que ele acompanhe o pensamento proposto e 2. evitar ao máximo frases truncadas e aglomerados de palavras inatingíveis, geralmente usadas como armaduras do saber contra a lâmina da ignorância (em outras palavras, quanto mais difícil escrevo mais inteligente pareço).

Qualidades apresentadas, vamos ao tema do livro.

Engenho e Arte reúne três ensaios envolvendo o pensador Jean Paul Sartre, relembrando sua importância na década de 60 e a intensidade com que alimentou a forma de pensar da intelectualidade brasileira. O primeiro mergulha na relação de Sartre com a pós-modernidade, encontrando em sua estética elementos do pós-modernismo e contestando os que consideravam suas idéias ultrapassadas e os conceitos agregados ao que se convencionou chamar de pós- modernidade. É um texto ágil que cita grandes nomes sem ser enfadonho. Seu público-alvo são os já conhecedores da obra de Sartre, mas também é acessível aos que não tem total entrosamento com ela, sendo plenamente capaz de despertar a curiosidade dos neófitos nos meandros filosóficos.

“Reiterando sua referência a Flaubert, Sartre consente, finalmente, que as biografias são articuladas como ficções verdadeiras ou verdades ficcionais: ‘gostaria que lessem meu estudo como um romance porque, realmente, é a história de uma aprendizagem que conduz ao fracasso de toda uma vida. Gostaria ao mesmo tempo que lessem pensando que é verdade, um romance verdadeiro” – Deise Quintiliano. Na citação: Sartre.

“A filosofia de Sartre nunca perdeu de vista as noções de sujeito, de consciência, de liberdade, evidenciando uma resistência consistente diante de sistemas exterminadores do indivíduo e permitindo-lhe circular livremente do homem à obra, da obra ao homem” – Deise Quintiliano.

O segundo faz uma triangulação entre Einstein, Garcia Marquez e Sartre, cabível através do conceito de tempo vislumbrado pela física e pela arte. E se há literatura e tempo, como há o tempo no cinema, podemos incluir aí de raspão algo do pensamento de Deleuze. Não é um texto que comece tão interessante quanto o primeiro, mas ganha força com as citações de Brian Greene e quando Sartre volta ao foco, deslocando Garcia Marquez para segundo plano. Ao abordar Entre quatro paredes, a noção quântica do tempo e aquele papo infindável (não é irônico que as discussões sobre o tempo sejam eternas?) sobre a inexistência ou singularidade do tempo em cada indivíduo passa a dialogar com a morte, o marco definitivo do fim, revertido no texto de Sartre ao contar a eternidade de seus três personagens presos no inferno (uma solução do autor para manter seus três atores o tempo inteiro no palco).

“A abordagem do tempo mítico cria uma linha de fuga à rigidez do tempo cronológico por definir-se como um momento intemporal que gira em torno da repetição de si mesmo, numa temporalidade cíclica que perpassa o pensamento dos povos primitivos, dos pré-socráticos ou da filosofia nietzschiana, que impregna as reflexões da modernidade” – Deise Quintiliano.

“A luz leva tempo para chegar aos seus olhos. Tudo o que você está vendo agora já aconteceu. (…) Einstein disse que o problema do agora o preocupava seriamente. Explicou que a experiência do agora significa algo especial para os homens, essencialmente diferente do passado e futuro, mas que essa importante diferenciação não pode ocorrer na física” – Greene.

A última parte, de caráter poligonal, representa a arte do título, partindo dos ensaios de João Cabral de Melo Neto sobre Miró e da análise de Sartre sobre Alberto Giacometti. É o único texto com firulas de vocabulário, tentação justificável pela dose de poesia e pela semântica intrínseca à arte. Os que entrarem no clima da “hermenêutica estético-fenomenológica” vão aproveitar bastante do ensaio.

“Mas os surrealistas têm mais saúde: seu mito de destruição dissimula um enorme e magnífico apetite; eles querem nadificar tudo com exceção deles mesmos, como testemunha seu horror das doenças, dos vícios, da droga” – Sartre.

“Miró não era o primeiro pinto do mundo a abandonar a terceira dimensão. Mas talvez ele tenha sido o primeiro a compreender que o tratamento da superfície como superfície libertava o pintor de todo conceito de composição”. – João Cabral.

Para finalizar, lembro que a relação de Deise Quintiliano com a obra de Sartre é antiga. Representante do GES (Grupo de Estudos Sartrianos) no Brasil e autora de diversos artigos, Deise escreveu também Sartre: Philia e autobiografia (mais complexo que Engenho e arte, mas ainda assim interessante) nas celebrações do centenário do nascimento do escritor.
Quando ler na orelha do livro diz que Deise trata tudo de forma contemporânea, saiba que não é mero artifício de marketing. Pelo seu histórico e embasamento, Deise sabe a importância do chão no vôo solitário do leitor.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0011, filosofia, em 16/2/2008

 

 

 

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