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Conduta de Risco

Conduta de risco (Michael Clayton no original) é a estréia do roteirista Tony Gilroy na direção. Seu currículo inclui nada menos que Eclipse total (adaptação do melhor livro de Stephen King), Medidas extremas, Supremacia de Bourne, Ultimato de Bourne e Advogado do diabo, entre outros. É fácil notar que Gilroy vem se especializando em suspenses que usam elementos cênicos como explosões e perseguições sem deixar de lado os bons diálogos. Sendo assim, Conduta de risco se mostra uma evolução natural do processo e não espanta que tenha sido indicado a 7 Oscars, incluindo melhor direção, melhor filme e melhor roteiro.

Conduta de Risco Tilda Swinton, indicada ao Oscar de melhor atriz, já trabalhou em A Praia, Flores Partidas, Constantine e Crônicas de Nárnia. Em todos eles sua personagem tendia mais para o lado negro da força, quase uma especialização de rugas e maldade. No papel de Karen Crowder, ela encarna a chefe do departamento legal de uma empresa que produz um agrotóxico cancerígeno. Preciso dizer mais? Ela é a mulher que toma as decisões difíceis e tem que ser fria e calculista para o bem da empresa. O interessante da personagem é a forma como Gilroy encontrou para transparecer essa frieza: 1. ensaiando os discursos em casa suando frio ao escolher cada palavra e peça de roupa 2. espontânea e segura ao repetir as palavras em entrevistas e reuniões. Sempre à beira da loucura, mas mantendo a pose.

Como o tal agrotóxico é usado amplamente, são vários os casos de câncer em agricultores. Suas famílias resolvem se unir e entrar na justiça contra a fabricante U/North. Além do escândalo na mídia, a indenização é milionária e a empresa não quer pagar um centavo. Por isso contrata a renomada firma de advocacia Kenner, Bach, & Ledeen’s, que indica seu melhor advogado para defender o caso: Arthur Edens.

Para azar da U/North, além de ser uma lenda viva Arthur Edens também é maníaco depressivo e no meio do caso (que já dura seis anos) tem uma revelação, descobre que tudo que faz é errado e decide defender os agricultores. Segundo o próprio, ele se tornou Shiva, a deusa da morte. Esse momento de libertação, de rompimento do casulo, é simbolizado por um striptease no meio da audiência, culminando com Edens no estacionamento, correndo só de meias sobre a neve atrás da testemunha que quer defender. A brincadeira talvez seja uma referência ao seu papel em Full Monty, mas em Conduta de Risco tem conseqüências catastróficas que deixam Karen Crowder de cabelo em pé.

Conduta de Risco Pare resolver o problema, a firma de advogados chama Michael Clayton, personagem de George Clooney, indicado ao Oscar de ator principal. Ele é o “fixer”, uma espécie de faxineiro convocado em situações extremas para arrumar a bagunça e acompanhar o caso, analisando as melhores possibilidades, escolhendo os advogados certos, sugerindo o que dizer ou não no tribunal e por aí vai.

Michael é amigo de longa data de Arthur Edens e tenta convencê-lo a voltar a tomar os remédios e seguir com o caso, mas a situação cada vez piora mais.

Se em princípio parece que o filme fala dessa história em particular, mais adiante o espectador percebe que o verdadeiro foco é o caráter de Michael Clayton e como as inúmeras pressões profissionais e pessoais (a vida pessoal dele também não é fácil) moldam o comportamento de alguém durante os anos. A pendenga do agrotóxico é só o veículo para expor algo maior.

O diretor Tony Gilroy fez uma escolha curiosa, mantendo a câmera sempre próxima dos personagens, com raros planos abertos. É um jeito de aumentar o suspense: quanto mais fechada a câmera menos sabemos o que existirá no próximo passo e o que temos ao redor. É um modo de destacar o humano e avisar que a vida dos personagens é tão relevante quanto o todo. É um jeito de não se preocupar com a produção dos cenários e com variáveis complicadas em cenas externas. Você escolhe a opção.

Conduta de Risco

Sobre as mortes, explosões e perseguições de carro, elas existem apenas como uma auto-referência ao currículo de Tony Gilroy. O que avança o filme, felizmente, é a evolução psicológica dos personagens e o modo como tiram o peso de seus ombros.

Conduta de risco foi indicado a 41 prêmios, ganhou 7 e o Oscar mais provável é o de melhor atriz coadjuvante. Mesmo que não leve nenhum, é um suspense de primeira linha que merece atenção.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0011, em 18/2/2008

 

 

 

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