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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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26/02/2008

Senhores do Crime

David Cronenberg marcou a década de 80 com o impactante remake de A Mosca, a adaptação literária de A hora da zona morta, o cultuado Videodrome e o thriller Gêmeos mórbida semelhança. Nos anos 90 filmou Madame Butterfly e levou para as telas o controverso livro Crash, que trata de pessoas que unem prazer sexual a acidentes de carro. Século XXI em cena, o diretor manteve sua abordagem de psiques perturbadas em Spider (vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de mais 11 prêmios) e em Marcas da Violência (indicado a 2 Oscars e vencedor de 25 premiações).

Senhores do Crime

Senhores do crime soa como uma evolução do anterior, impressão reforçada pela presença de Viggo Mortensen (na tela, composição de personagem e palpites no roteiro), pelo viés psicológico sombrio e pela potencialização dos fantasmas existenciais que se materializam de formas diversas.

Os primeiros cinco minutos de Senhores do Crime mostram porque as degolas de Sweeney Todd não podem ser vistas como violentas. Navalha cega no pescoço, corte lento feito pelas mãos trêmulas de um jovem, sangue convincente escorrendo. É o que chamo de explicação de conteúdo para pessoas distraídas. Essa navalhada brutal é a força motriz de metade da trama. A outra vem da cena seguinte e é de fato a história principal. Nela, uma menina grávida entra na drogaria pedindo ajuda e desmaia com uma forte hemorragia. No hospital, a enfermeira Anna (Naomi Watts) revira sua bolsa em busca de informações e encontra um diário em russo que guarda para si. Graças à tentativa de aborto mal-sucedida, a menina acaba morrendo, deixando órfã a recém-nascida. Anna decide então traduzir o diário para procurar o endereço da família da morta e mudar o destino da filha que ela deixou. Em casa seu tio russo dá uma rápida espiada nas folhas e sugere: enterre os segredos junto com os mortos. Sem convencer o tio a fazer uma tradução, Anna folheia o diário e acha o cartão de um restaurante russo, começando a investigar a vida de Tatiana. É na porta do restaurante, sob o simpático olhar de Semyon, um chefão da máfia russa, que sua vida cruzará com a de Nikolai, o misterioso personagem de Viggo Mortensen.

A direção de Cronenberg é tradicional: planos caprichados com o vai e vem de câmera que o espectador está acostumado em qualquer filme. A maestria do que parece simples é explicitada na luta na sauna, incrivelmente orquestrada e real, onde a nudez de Viggo Mortensen demonstra como as tatuagens de um criminoso vestem seu corpo e seu nome. Também é dele o mérito por uma Londres sem pontos turísticos, em que o frio e a frieza têm papéis fundamentais. A atuação do elenco em geral é bem marcante por fugir do clichê dentro de um gênero forte e por soar autentica sem a sombra de poderoso chefão. Isso vale para Naomi Watts (King Kong e 21 gramas) e sua enfermeira Anna, Vincent Cassel (Pacto dos lobos e Doze homens e um segredo) como o mafioso em crise de identidade e para Viggo Mortensen com seu estranhíssimo Nikolai, uma mistura de motorista, guarda-costas e outras coisas mais.

O mais interessante de Senhores do Crime não é a história em si, mas o modo como ela é contada. O roteiro só diz ao espectador o indispensável sobre os personagens, nada mais. A única história revelada é a da personagem ausente, de Tatiana, a menina morta. O que surge das páginas do diário alimenta a carga sentimental que faísca entre Anna, Nikolai e os mafiosos, aumentando o peso dos fatos sem mover a trama para frente. De Tatiana descobrimos o passado e já conhecemos o futuro na cama do hospital. Dos demais, teremos apenas o presente, o corte que nos é mostrado durante a projeção.

Além de revigorar a narrativa, a idéia vai contra o conceito básico de drama em que todos os momentos de um filme levam a um grande acontecimento final. É curioso então que um filme de mafiosos seja construído sobre as ausências, sobre o peso nos ombros de não ter um passado para apoiar os pés e não saber quem está esperando na próxima esquina. É um jeito de dizer: seja você quem for, o futuro é incerto.

Em tempo: para o caso de espectadores que hibernaram nos últimos anos, Viggo Mortensen é o Aragorn de Senhor dos Anéis.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Senhores do Crime



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