Sangue Negro
Há 10 anos mais ou menos vi Boogie Nights. O filme estava sendo elogiado por vários veículos de mídia e tinha um tema interessante para um espectador perto dos vinte anos (e dos 30, 40, 50…): a indústria do cinema pornô da década de setenta. Não é todo dia que Hollywood incorpora seu lado B ao mainstream, não é? Falavam também que pela primeira vez na carreira o Burt Reynolds conseguia atuar direito e que tinha uma cena de nu frontal do Mark Wahlberg. Certo, posso ter inventado alguma parte. Memórias têm por hábito se imiscuir e virar uma coisa só: um almoxarifado bem bagunçado. Você quer uma coisa, puxa uma segunda e vem uma terceira.
Mas lembro com certeza de duas coisas:
1. achava aquela conversa do nu frontal muito estranha. Se Boogie Nights era um filme sobre a indústria pornô tinha que ter muito mais nus frontais e não só o do Mark Wahlberg. Se estavam alardeando uma cena de nu tinha algo muito errado, mas não entendi de primeira o que poderia ser.
2. Com uma hora de filme, passei a olhar para o relógio torcendo para que a tortura não fosse longa demais. Eu conto o que vocês quiserem, passo os códigos secretos, mas chega de Boogie Nights.
Esse foi meu primeiro contato com Paul Thomas Anderson, o diretor de Sangue Negro, na época um desconhecido para mim e boa parte do público.
O segundo foi em Magnólia, que tive a sorte de perder no cinema.
Magnólia é um filme sobre o acaso. Ele mostra um monte de histórias picotadas, tem um elenco de dar inveja em papéis esquisitos e no final junta as pontas para mostrar que a vida não tem a menor lógica. E faz isso em grande estilo, com uma chuva de sapos, literalmente. Sapos enormes que se espatifam no chão e amassam os carros ao cair do céu. Seria interessante se não fossem as três lentas horas de duração e uma tentativa desesperada de emular os irmãos Coen.
O engraçado é que Magnólia marcou presença por outro detalhe: Tom Cruise de cueca. Falar de Tom Cruise pós-cientologia e Katie Holmes é complicado, mas naquela época ele era o cara que levava milhões de pessoas ao cinema, o rei do blockbuster. Tinha filmado a Firma, Missão Impossível, Entrevista com o vampiro e Jerry Maguire. Não bastasse ser fenômeno no cinema pipoca ele tinha “atuado” no último filme de Kubrick (filme de suposta carga erótica, apesar de assexuado) contracenando com a esposa Nicole Kidman. Ninguém entra num filme estilo Kubrick por acaso (trocadilho com a temática de magnólia, por favor). Faz parte da síndrome “já ganhei muito dinheiro e agora preciso provar que sou um ator sério”. E assim lá vai Tom Cruise deslizar de joelhos no chão só de cueca fazendo cara de poucos amigos. Muito ousado, não? O fato é que Cruise foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante e Magnólia concorreu a roteiro original, além de ter carreira bem-sucedida nos festivais de cinema (como ocorreu com Boogie Nights).
Como assisti em DVD, pude ir até a cozinha e ao banheiro sem pressa, a tortura foi bem menor.
Oito anos depois, o diretor P.T. Anderson ressurge com mais um trabalho badalado. Sangue Negro teve nada menos que 36 vitórias em festivais, 37 indicações e 2 Oscars no currículo. Dessa vez ninguém aparece nu ou de cuecas e os rostos bonitos dão lugar ao talento incontestável de Daniel Day-Lewis.
Daniel Day-Lewis é um dos maiores atores da atualidade e vale o preço de qualquer ingresso. Ele já atuou em O último dos moicanos, O Boxeador, Gangues de Nova Iorque, Em nome do pai e Meu pé esquerdo, entre outros. Em cada um deles, Day-Lewis é uma personagem completamente diferente, uma metamorfose inexplicável. Chega a ser sem graça falar de um ator que já venceu 51 prêmios, sendo 2 deles o Oscar de melhor ator (das 4 vezes que foi indicado). Ele é bom e ponto. Talvez por isso Sangue Negro (There will be blood no original) seja o típico filme de um ator só, onde o peso da história recai inteiro sobre os ombros do protagonista, e os demais atores servem de meros interlocutores, escadas para a evolução do personagem principal.
A história começa em 1890, mas é muito atual por oferecer um panorama geral do início da exploração do petróleo nos Estados Unidos.
Daniel Plainview (Day-Lewis) é um minerador, garimpeiro em busca de prata e ouro. Ele abre buracos no meio do nada, se expõe a situações de alto risco e colhe suas vitórias sozinho. O início do filme explicita esse detalhe com Plainview de pé-quebrado se arrastando de costas no deserto desde o buraco da mina até o ourives que analisa o teor de pureza dos minerais.
É nesse buraco, praticamente uma cova aberta, que Plainview encontra seu primeiro poço de petróleo. O personagem deixa então de ser prospector de ouro e prata e passa a explorar o petróleo da região. Para conseguir novas terras ele leva sempre seu filho, rosto bonito e carismático, para convencer à população de suas boas intenções. “Essa é uma empresa familiar”, brada o personagem. Conforme o sucesso avança, a fama corre entre interesseiros, enganadores e concorrentes. É nesse clima de desconfiança que aparece Paul Sunday. O rapaz diz ter informações privilegiadas sobre uma terra onde o petróleo brota do chão. Com base nessas informações Plainview viaja para Little Boston em 1911, dando início a segunda parte da história, em que o filme fica realmente interessante.
Plainview cada vez mais se mostra um homem embriagado pelo petróleo. Seus defeitos e qualidades são explorados de diversas formas, na relação com o filho e a família, nas tragédias nas torres de exploração e em seus discursos para a comunidade. A principal delas é a presença de Eli Sunday, um suposto jovem padre que quer sugar de seus fiéis o mesmo que Plainview suga da terra: dinheiro. Eli Sunday é o típico antagonista insuportável que conquista o ódio do espectador sem muito esforço. E ser antagonista de um personagem sem caráter como Plainview não é missão fácil para nenhum ator. Paul Dano (de Pequena Miss Sunshine) recai em diversos exageros de interpretação, mas nada que não estejamos acostumados a ver em templos e igrejas reais.
A terceira e última parte mostra Daniel Plainview já rico em sua mansão. Sua promessa de ganhar dinheiro para se isolar das pessoas que detesta (a humanidade de um modo geral) foi cumprida. No cenário excêntrico e claustrofóbico, os pontos de trama são resolvidos um por um, até a catarse final, tão intensa quanto a matança da máfia em Dogville.
Sangue Negro não é um filme fácil. Ele explora constantemente os vazios e situa a fotografia e o som no mesmo patamar de roteiro e atuação. O amarelo do deserto é sempre cáustico e o sangue (there will be blood!) tem cor de petróleo. A trilha sonora é propositalmente incômoda e move a história quando os personagens não podem fazê-lo. Assim como Magnólia e Boogie Nights, Sangue Negro é um filme que mostra a força das circunstâncias, o impacto de pequenos acontecimentos na vida do homem e, nesse caso, na história da humanidade.
Dessa vez, quem cai do céu é o petróleo, e a pornografia mais explícita é a força do dinheiro.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















