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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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05/03/2008

Um sete um de Ítalo Ogliari

Um-sete-um aparece no Houaiss como aquele que comete estelionato, pessoa que mente e engana outras, pessoa que conta muita vantagem, que exagera e inventa fatos. Se tirarmos a parte do estelionato, já que geralmente estelionatários têm um sucesso financeiro muito maior do que os pobres escritores brasileiros, as outras definições caem como uma luva para os que por algum motivo insano se dedicam a contar, inventar, exagerar histórias.

Essa relação não passou despercebida por Ítalo Ogliari, o autor de Um Sete Um, livro narrado em primeira pessoa por um protagonista perto dos trinta anos, como o escritor. O mentiroso nato que conta a história do livro nasceu na periferia de Porto Alegre. Um dia passeando pelas ruas ele encontra seu pai que desapareceu há anos, na verdade um mendigo cheio de cachaça na Avenida Assis Brasil. O mendigo, seu interlocutor que se pararmos para pensar somos nós leitores, não se lembra de nada, por isso só lhe resta acreditar nas palavras do protagonista, com um interesse distante de quem perdeu alguns neurônios com o passar do tempo.

“E por falar em Kombi de igreja, contei pro meu pai, a mãe também entrou pra igreja uma vez, quando eu já tava um pouco mais velho. Uma universal dessas. Mas depois saiu. Ela nunca foi burra. Logo viu que os caras só queriam dinheiro. Primeiro o pastor foi lá em casa convidando ela para participar dos cultos. Disseram que não precisava dar nada se não quisesse. Só que deu quarenta dias e os caras já tavam lá em casa de novo, dizendo que ela andava carregada. Disseram que até eu tava com encosto. Pra puta-que-pariu com encosto em mim. Encosto no rabo deles”.

O livro é dividido em três partes com estrutura épica modular, o que significa que cada uma delas carrega um clímax, apesar dos pontos de trama que as costuram. A primeira conta uma parte da infância do protagonista no beco. Infância não pela idade, mas pela ingenuidade de quem ainda não se misturou com o crime. É aí que surgem os indícios de amizade, o jogo de futebol na rua, o relacionamento com a mãe. É a parte mais interessante, onde o protagonista é humano e tem maior chance de escapar das páginas do livro convencendo o leitor que é real.

Depois disso, com uma arma fria na mão, a história muda de rumo. Os personagens secundários são efetivamente afastados do primeiro plano e viram nomes na multidão, o olhar externo da violência sobre os guetos. Lado bom: o que é verdade ou mentira agora pouco importa, o protagonista omite fatos, rompe a linearidade da história, mata personagens e os traz de volta, porque não foi bem assim, nunca é bem assim e nem quem presencia sabe ao certo como são as coisas. O que interessa ao pai-mendigo que compartilha a cachaça vagabunda com o narrador é ouvir uma boa história que o tire da mesmice do banco da praça.

“Sempre achei que a escola não devia ensinar certas coisas pro pessoal lá do beco. Onde ficava o coração, por exemplo. Sempre achei que o coração fosse do lado direito. Mas não era”.

Então, a arma. Um tiro heróico e a vida no centro de reabilitação de menores. Todo centro desses que se preze tem o pessoal gente boa, o pessoal durão e aquele que se aproveita dos mais novos. Lado ruim: passa o tempo, protagonista livre e o beco ganha ares de favela carioca e essa é a parte entediante. Não pelo andar da história, que se agita com mortes, chacina, tiroteio, drogas, dinheiro de bandido ajudando a comunidade, mas pelo uso desses elementos que não encontram mais espaço na cultura brasileira para respirar com originalidade. A história é a mesma, não muda. Mais cedo ou mais tarde alguém tenta justificar o tiro, inventar razões para o dedo no gatilho em um resquício de humanidade às avessas e se afasta do instinto primitivo que é a roldana principal dessa engenhoca social. Para o olhar distante, o único destino cabível é a morte. Com o tráfico em cena, seja em livros, teatro, HQ ou cinema, quem se dá bem no final é o grande traficante e só.

Por sorte, esse agito também é fechado em si e dura pouco, o suficiente para eliminar os deuteragonistas de uma vez, reforçando o instinto de sobrevivência do protagonista narrador.

“Na verdade, quinhentos era tudo o que eu precisava. Quinhentinhos tava na medida. Eu tinha pedido mil porque é assim que as coisas funcionam. Quer tanto, pede o dobro. Quem não chora não leva”.

E aí a história volta a ser interessante.

A arma continua na mão, mais personagem do que todos. O protagonista fadado a se dar mal na vida precisa arrumar outro jeito de sobreviver e ganhar dinheiro, um jeito mais honesto, digamos assim. Ao mesmo tempo, precisa arrumar um final para a história que conta ao seu pai e para os próprios fantasmas. E é aí que a falsificação de roupas entre em cena, vestida com toda a atualidade do tema, um toque de humor, violência e muito palavrão que ninguém é de ferro. Isso, é claro, até o próximo ciclo, enquanto não vem o tiro derradeiro.

Com tanta adrenalina, altos e baixos, resta ao autor perguntar como quem não quer nada, lá na última linha: dá pra acreditar?

Ítalo Ogliari é graduado em Letras pela ULBRA, Mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela PUC-RS. Já publicou dois livros de contos: A mulher que comia dedos e Ana Maria não tinha braço. Um sete Um, 110 páginas, é seu primeiro romance e saiu pela Coleção Rocinante da editora 7 Letras.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Um sete um de Ítalo Ogliari



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