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Emmanuel Nassar

Mudam-se os tempos e é preciso refazer as frases. Gombrich listava as “ocorrências do primitivo”, Freud falou de um certo mal-estar, depois chegamos à estética da gambiarra - e cada uma das expressões parte de um ponto de vista distinto para falar da mesma coisa.

Eu, por mim, gosto de pensar que se trata de incorporar as fragilidades, de se assumir falho. É pensando assim que eu me sinto mais perto e foi pensando assim que fui andando até a Galeria Millan em uma São Paulo onde ninguém anda, só dirige.

Longe.

E tão perto.

Lá dentro, Emmanuel Nassar com suas madeirinhas pintadas, seus equilíbrios precários.

Emmanuel Nassar Emmanuel Nassar

A coisa é simples: uma madeira em balanço se mantém no ar graças a uns fios presos por roldanas e chumbados em um buraco - buraco mesmo, o chão furado da galeria, fundo. O balanço também se dá por um contrapeso de metal (latão) que, não por acaso, forma a letra E. Há mais uns pesos: um saco de terra, uma serra circular, pairando no ar.

Nem tão simples.

Primeiro, o primeiro.

(Mundo - que não chega a ser mundo, menos da metade na verdade).

Depois do(s) beco(s) sem saída do modernismo internacionalizado, a arte contemporânea faz uma volta às referências temporais, geográficas. Depois da aridez da geometria, uma gambiarrazinha ali outra acolá, ali sendo Estados Unidos, acolá sendo Europa. Gambiarra esta, ó coincidência, muito usada cá entre os tapuias. De súbito, eis que nos alçamos às alturas.

Isso todo mundo já sabe. Mas não satisfaz. A referência continua sendo o outro. Isto é, as alturas são o que o outro define como sendo alto. Sem essa comparação sincrônica, nos resta muito, nos resta uma história a ser lembrada.

(Segundo os gregos, é para isso que servem as artes, para que nos lembremos das histórias.)

Terra, buraco no chão, ferramenta, madeira pintada de cores primárias, roldanas. A engenhoca ela toda com um ar de quem vai tirar água de poço. Sounds familiar?

Essa a materialidade. Há a desmaterialização. Não só por se tratar de uma instalação, pois ela pode e foi repetida, mas pela diferença mesmo entre, digamos, um saco de terra e um ferro dobrado, entre o efêmero e o que se pretende potente. É também uma representação biográfica, além de social e histórica. Sua iconicidade é específica, de um nacional sem grandes temas, só de pequenas histórias - ou de uma pequena história - e por isso mesmo isento do perigo da tipificação retrógrada. Não é um rural com R maíusculo, não há símbolos. É uma madeira em equilíbrio, e a construção do seu equilíbrio está lá mostrada: primeiro você passa o fio por esta roldana, prende ali no buraco e mantém o saco de terra nesta altura porque o peso do latão está lá para dar o balanço. Há um vestígio da presença do artista, uma fenomenologia de quem, quando pensa em equilíbrio, pensa nesses materiais para obtê-lo por causa do lugar onde nasceu.

E aqui poderíamos ir também para o antônimo, os símbolos: o significado “trabalho” incluso na metáfora da serra circular, do saco de terra; o E de latão, inicial de Emmanuel, a ficar do lado de fora do ambiente. Tão fora quanto nós, convencidos que fomos de que há um centro do qual somos periféricos. A inicial simbolizando uma presença, essa presença simbolizando todas as outras. Isso se formos sérios. Se decidirmos rir, vamos para outros símbolos. Pois trata-se de um móbile. E o que Nassar põe no ar? Terra. A imprensa falou de Calder, que Nassar estaria citando Calder. É juntar a ironia à galhofa. O escultor americano fez estabilidades abstratas que se alçavam em direção ao infinito e se moviam (pouco) ao vento. Pretendeu uma sublimação da matéria. A estabilidade em Nassar é o nanossegundo de empate entre tensões contrárias e banais, cotidianas, não épicas e muito menos sublimes. Ele é assimétrico, precário e provisório. E vivo mesmo quando não venta.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0012, em 11/3/2008

 

 

 

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