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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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25/3/2008

Olga Kern

Olga Kern é uma mulher encantadora, simpática e fantástica pianista. Como qualquer um, não posso deixar de mencionar que venceu o concurso Van Cliburn em 2001.

O concerto Nº1 de Tchaikovsky talvez seja o concerto mais popular pra piano e orquestra, o concerto que qualquer leigo sabe um trechinho de cor. À parte disso, uma obra belíssima, profunda. Dramática e de fácil acesso e entendimento, razões pelas quais é um dos concertos mais queridos também pelo público, digamos, ‘iniciado’.

A OSESP é uma das melhores orquestras (porque, como carioca, não estou em posição de dizer *A* melhor) do Brasil, com um dos maiores orçamentos, uma das melhores temporadas de concertos, ecomenta-se, os melhores salários.

John Neschling é um dos maiores regentes brasileiros, seu currículo e seu parentesco com Schöenberg falam por si só.

Meu ponto é: o concerto de ontem (23/03/2008) tinha TUDO pra ser, não apenas um dos melhores concertos em que já estive presente (e de fato foi), mas também um concerto perfeito. Daqueles que você sai de alma lavada, dez quilos mais leve.

E não foi.

Vou me propor a fazer uma humilde análise ras razões pelas quais isso não aconteceu.

O programa foi muito bem escolhido. A alvorada na Floresta Tropical de Villa Lobos é uma peça descritiva, belíssima, super interessante. E, aliás, foi a melhor peça do programa, como um todo. O Tchaikovsky, como eu já disse e todos sabem, também é uma peça fantástica e belíssima, mas é uma obra grande e densa, que exige sincronia do intérprete com a orquestra e um profundo envolvimento. Aí começaram os problemas.

O primeiro problema, que eu apontaria logo de cara, é o seguinte: ninguém pode subir no palco, sentar no piano e simplesmente tocar uma obra tão grande, densa, complexa, etc. É necessário um ”aquecimento”, não apenas físico e muscular, mas mental. O tempo do intérprete ”se acostumar”, digamos assim, com a situação, a platéia, o piano, a música, consigo mesmo, enfim, com o ambiente externo e interno.

As razões pelas quais isso não foi feito eu desconheço. Sei que a Olga é uma pianista do mais alto calibre, uma das top concertistas internacionais e que é profundamente versada no que nós brasileiros chamaríamos de mumunha, tarimba ou cancha da coisa, mas os americanos (e alguns pseudos) preferem chamar de know-how (antes fosse savoir-faire, pelo menos é um estrangeirismo latino).

Não basta um mero aquecimento antes do concerto. A simples caminhada do camarim pro palco e a visão do Municipal quase lotado é suficiente pra esfriar os dedos e a cabeça de qualquer um.

Tudo bem, mas eu estava falando da pianista. Razões que justificariam o que houve. Mas não justificam. O problema não era da pianista.

Não considerando o show à parte da luta do spalla e do concertino contra o ventinho que tirava a partitura do lugar e os horrendos mugidos e pigarros guturais e grotescos do Neschling, devo dizer que a orquestra não estava à altura da solista.

Por várias vezes viu-se a pianista esperando a orquestra, Neschling fazendo que não era com ele, o spalla segurando a partitura com a voluta e o concertino com o arco, a orquestra um tanto quanto perdida.

Sinceramente não entendo qual seja a dificuldade de se arrumar um par de pregadores para as partituras e um regente que efetivamente esteja regendo algo, mas a solista merecia uma orquestra mais compenetrada, mais séria, melhor, naquele dia, naquela hora.

É claro que a OSESP – ou melhor, os *músicos* da OSESP – são de competência inquestionável, mas de qualquer jeito não é isso que eu estou questionando, estou questionando o momento.

O primeiro movimento teve grandes momentos, GRANDES momentos. Não foi constante, mas em algumas partes a Olga superou as dificuldades (hahaha, não musicais nem mecânicas, essas não são difíceis para ela) e fez música, pura, nua, desprovida de vaidades, exibicionismos e floreios, mas com uma virtuosidade e uma sinceridade fantásticas. Curiosamente isso aconteceu durante os grandes solos do piano, em que a orquestra não podia atrapalhar.

No segundo movimento (graças!) eles se acharam. O Neschling parou de pensar na morte da bezerra, deu um tempo nos balidos e grunhidos, o ar condicionado diminuiu a ventilação e a solista e a orquestra começaram a se entender.

Nesse espírito, Neschling deu o ataque súbito (nem todo mundo faz súbito, mas eu gosto dele súbito) do terceiro movimento, esse sim, absolutamente perfeito e irrepreensível.

Olga Kern e Pedro Taam Ovacionada pelo Municipal de pé, Olga foi e voltou três vezes, recusou o aperto de mãos do Maravilha (o que rendeu boas gargalhadas) e falou – pasmem – algumas frases em português. Aquilo foi tão emocionante e eloqüente quanto o seu tocar em si. Eu achei um gesto de carinho, de atenção com o público. Ela dise que era a primeira vez dela no Brasil, que estava feliz e nos desejou Feliz Páscoa. Depois disso, sem rodeios, sentou e tocou um Mussorgsky/Rachmaninov enlouquecido. Ovacionada novamente, Maravilha não ia ficar quieto parado, muito menos o resto do Theatro, Olga fez um gesto com o polegar e o indicador dizendo só um pouquinho, e deu então, de bis, o Vôo do Besouro, de Korsakov em transcrição de Rachmaninov.

O Concerto acabou ali.

O Beethoven depois (terceira sinfonia, Heroica) foi um tanto quanto xoxo, desencontrado e sem energia. Mais uma vez as onomatopéias do Neschling e os ventos que levavam a partitura. O que houve de mais Heroico ali foi a luta do spalla e do concertino contra a partitura, todo o senso de tensão, expectativa, júbilo e redenção que esperávamos ouvir na música acabamos por assistir nessa luta épica.

Fico grato à Olga que, depois do concerto, no camarim, se mostrou ainda mais simpática, gentil e bem humorada que eu imaginava. Grato também por sua interpretação do concerto e dos bis, que foram, por assim dizer, de lavar a alma. Antes o concerto tivesse acabado ali e a alma tivesse ficado limpa.

 


Pedro Taam é pianista e estudante de Física Médica.