Maria João Pires
Não tenho palavras para descrever e analisar o concerto de ontem (27/03/08) no Municipal. Dito isto, mesmo sem as palavras que seriam justas, aqui vou eu.
Maria João Pires é portuguesa de nascimento e brasileira de coração. Dentre as inúmeras gravações para o selo Deutsche Grammophon, destaco a integral das sonatas de Mozart e a dos noturnos de Chopin. As sonatas de Mozart tenho no meu mp3 e levo pra tudo quanto é lugar (nunca se sabe quando uma delas pode começar a pipocar na sua cabeça, e vc precisa ouvir, então, pra manter a sua sanidade mental), os noturnos eu tenho só em casa, porque pra mim não funciona ouvi-los em qualquer clima, em qualquer lugar.
Ambas são um atestado da excelência técnica e musical da pianista. As sonatas de Mozart são obras de grande simplicidade e beleza, e são intrínsecas uma à outra. A beleza vem da simplicidade. A dificuldade de se analisar uma obra, estudá-la, pensar em cada aspecto, pensar cada frase, cada ligadura, cada acento, pensar a articulação, a agógica, as dinâmicas, ter tudo absolutamente pensado e definido na sua cabeça e, ainda assim, tocar ”simples” e com naturalidade é enorme.
Os Noturnos têm uma dificuldade semelhante, mas além da naturalidade e da ”simplicidade”, eles exigem um quê de espontaneidade e intimismo. A questão dos planos sonoros é um caso à parte. Além de tudo o que eu já citei, saber colocar os temas e as frases em planos sonoros diferentes, mas, mesmo assim, sem perder a unidade da obra e sem perder a linha expressiva é essencial.
Dito e posto isso, eu agora afirmo: Maria João Pires é o que há de mais sincero, poético e bem acabado.
Seu grande volume sonoro é dividido, cuidadosamente, em diversos infinitos planos sonoros. Ela tem uma coisa, indescritível, mas tão familiar a nós, uma espécia de sinceridade, de generosidade de coração. Ela não tem medo de se doar na música. Ela não quer impressionar, não quer ”enfeitar o pavão”, tudo o que ela toca é resultado da mais pura e singela reflexão, é sincero, é ela.
Não ter medo de expor a própria alma, a própria essência, ao Municipal lotado, faz dela uma musicista singular. Porque perdendo o medo ela se liberta de todas as amarras e faz, então, música pura.
O programa – todo Chopin, exceto pelo bis – favorece essa qualidade da artista.
Pavel Gomziakov, de 32 anos, nascido em Tchaikovsky (é, eu também não sabia que tinha uma cidade com esse nome) é também um musicista fantástico, resumindo: prêmio especial do júri no concurso Tchaikovsky de 2002, masterclasses com Natalia Gutman, participante do festival de Verbier, e, curiosidade: é o cellista da trilha sonora original de “Má educação”, de Pedro Almodóvar.
No palco uma simpática disposição: uma mesinha, com partituras (e um abajur, tinha um abajur?), uma jarra d’água, e três cadeiras, alem da estante do cello, e, claro, o piano e respectivo banco.
Abriram o concerto com o arranjo maravilhoso de Glazunov sobre o estudo Op.25 N.7 em Dó sustenido menor. Pavel mostrou seu virtuosismo, seu som enorme e sua musicalidade refinada.
Mesmo com o caos que estava a cidade (o Rio de Janeiro está um caos desde ontem: o trânsito vindo do Centro e indo pro Centro simplesmente não anda), atrasaram o concerto só quinze minutos. Muito embora o Theatro tenha que fechar e os artistas tenham que dormir, acho que teria sido de bom tom se tivesse atrasado trinta ou quarenta minutos. O tempo dos trajetos foi, no mínimo, dobrado.
Voltando ao concerto: depois do breve ”aquecimento”, Pavel se sentou numa das cadeirinhas, e Maria João tocou o noturno Op.9 N.3, Si maior.
Uma das experiências mais emocionantes da minha vida. O controle do tempo, do rubato, da dinâmica, da agógica, dos planos sonoros, a articulação, o fraseado perfeito, tudo. Chamo atenção para o seguinte: Chopin, principalmente nos Noturnos (e nos concertos), desenvolve uma harmonia hipercomplexa, capaz de criar ”climas”. Poucos são os pianistas que conseguem se valer desse artifício do compositor (alguns diriam “realizar esta intenção do compositor”) e, de fato, criar climas, tensões, que por meio de associações subconscientes inexplicáveis, se transformam em emoções, apertos no peitoe lágrimas nos olhos. A maior impressão que eu tive da Maria foi que ela é sincera. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser no quão sincero era tudo o que aquela mulher estava nos ”dizendo”, por meio de sua música.
Alguns acham que o intérprete deve ser o canal para a música, alguns que a música deve ser o canal para o intérprete se expressar. Sugiro aos dois grupos que se calem e escutem Maria João Pires.
Sem muitos rodeios, Sonata 3. Bem mais otimista que a Sonata 2, e igualmente difícil e maravilhosa, a Sonata 3 é uma das maiores obras de Chopin, em complexidade e em intensidade. Maria João não fez firula: sentou ao piano e, simplesmente, tocou.
Diana Kacso narra que, ao chegar na Juilliard School, sua primeira aula foi apenas sobre as cinco primeiras notas dessa sonata. Não os primeiros cinco minutos, as primeiras cinco páginas, nem os primeiros cinco compassos. Apenas as primeiras cinco notas. Seu professor dizia que é necessário prender a atenção do ouvinte desde essas primeiras cinco notas.
Maria João prendeu, não só desde as primeiras cinco notas, como até o fim. Sua criatividade como intéprete é excepcional, ela deu nova forma e uma concepção fresca de uma obra tão tocada e tão estudada. O público teve um momento de descontrole, e aplaudiu ao fim do primeiro movimento.
Tem intérprete que gosta (tolera?) tem intérprete que não. Maria João não gostou, fez que não com a cabeça, e atacou o segundo movimento, Scherzo. Impecável, maravilhoso, límpido, cristalino.
O terceiro movimento, Largo, acumulou toda a tensão musical e emocional, como uma confidência, até que, enfim, chegamos ao catártico quarto movimento. O quarto movimento é uma catarse progressiva, que culmina numa coda onde os temas são resolvidos e a sonata, de Si Menor, passa a Si Maior. um ”final feliz”, por assim dizer. Eu acho interessante esse otimismo: mesmo com todos os momentos difíceis, tristes, a confiança de Chopin de que no fim, tudo se resolve e que a vida termina com um sonoro acorde de si maior.
Aplausos, aplausos e mais aplausos. A pausa, então, mais do que merecida, e a segunda parte: Sonata pra Cello e Piano. Composta em 1845, foi a última obra do compositor publicada em vida. Não é uma obra fácil de entender, de ouvir nem de tocar. Maria João conta que estava há trinta anos querendo estudar essa sonata, e que ela e Pavel aprenderam juntos.
De toda a monumental obra, eu destaco o curto e singelo terceiro movimento, quase todo em pianíssimo. Mas só se sussurra aquilo que é muito importante.
Maria João, além de tudo, é extremamente atenciosa e simpática. Agradeceu a forma com que os brasileiros a acolheram, de coração, e contou que está esperando sair a sua nacionalidade brasileira, que para ela é muito importante. Assim, todos nós temos de nos orgulhar, afinal, Maria João Pires é brasileira, de coração e de papel.
Pedro Taam é pianista e estudante de Física Médica.



































