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O curta-metragem de animação T.R.A.N.S.I.T. foi criado por Piet Kroon para uma competição em 1993, celebrando os 20 anos do Holland Animation Association. As únicas exigências do concurso eram que o filme tivesse cinco minutos de duração e que a história envolvesse uma mala. O resultado foi promissor e o curta chamou a atenção do produtor Iain Harvey que convenceu Kroon a fazer uma versão mais longa. Convite aceito e patrocínio garantido, surgiu a versão final de TRANSIT, uma ambiciosa animação de mistério.

A história começa em um cruzeiro luxuoso, com vários ricaços passando o tempo com danças, namoricos e tédio profundo. Assim que um homem escancara a porta com cara de poucos amigos, fica claro quem será o protagonista da trama. O interesse dos ricaços no sujeito dura menos que o nosso e eles reassumem sua postura blasé. É um início musicado e de cores fortes, principalmente a do mar. Para mostrar que nem tudo são flores, há uma passagem rápida pela caldeira cor de fogo. É uma metáfora clássica do cinema para lembra o espectador de olhar além da superfície e das aparências.

De volta ao protagonista, ele atravessa o convés de uma ponta à outra e arremessa a famosa mala no oceano. Enquanto ameaça afundar, close nas etiquetas de turismo. É a chave para uma viagem no tempo.

Cada etiqueta da mala leva a um país e uma época diferente. Logo na primeira viagem ao passado, uma mulher complica um pouco mais o roteiro, colocando o protagonista às vezes no papel de mocinho e às vezes no de vilão. Como TRANSIT conta a história de trás para frente, o roteiro usa o artifício para montar o mistério, uma espécie de quebra-cabeça onde a resposta está no começo de tudo e não no final. Com isso, cabe ao espectador se arriscar em julgamentos equivocados (ou não) sobre os personagens, até que enfim a trama se revele e seja possível entender o que aconteceu.

TRANSIT não tem diálogos. É comum em animações que a música assuma o comando como força narrativa, mas aqui ela só tem papel na ambientação nos anos 20. Toda informação relevante está nas imagens. Por isso, elas são aproveitadas à exaustão por Kroon, que usa em cada país cores e texturas diferentes. No Cairo, por exemplo, é possível sentir o calor na pele graças aos fortes tons alaranjados. Tons esses que remetem ao vermelho das caldeiras, de sangue e de batom, ao sinal de perigo iminente no meio do deserto, e por aí vai.

Interessante pela alternância de ambientes e pela boa história de mistério (com direito até a Orient Express e romance em Amsterdam), T.R.A.N.S.I.T. não tem um roteiro fácil, por isso não pisque nem vá ao banheiro durante seus 10 minutos. Pesando contra, só a sensação de que tudo custou muito caro e o rápido esquecimento da… qual era mesmo a história?

Em tempo: Piet Kroon foi o primeiro a vencer o prêmio popular do Anima Mundi, em 1995 com DADA. Já participou do departamento de arte de Shrek 2 e do departamento de animação de Osmosis Jones, a pior animação que já assisti.