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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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16/04/2008

Evgeni Ugorski

“However difficult it may be, there isn’t a passage that doesn’t become easy if practised a hundred times. (…) Purely repetitive work of this kind may appear stupid, and I admit that it comes close to being so;“
Sviatoslav Richter em Mosaingeon, Bruno – “Sviatoslar Richter, Notebooks and Conversations”

Não falar de si mesmo, mas falar de algo, é dar a conhecer de si mesmo. Pela visão das coisas apresentadas pode-se conhecer a personalidade de cada um. Quanto mais esforço se faz para suprimir tudo o que há de si mesmo nessa leitura, mais se tem o efeito reverso. Quanto mais esforço se faz para remover tudo o que há de si mesmo de uma leitura, mais solidifica-se a sua essência, aquilo que ninguém pode tirar de si mesmo, aquilo que nos é tão natural que escapa até da nossa própria consciência.

São duas teorias de interpretação diferentes: fazer o máximo para “purificar” a música de si mesmo ou, simplesmente deixar que o inconsciente libere seus mistérios, estudando criteriosamente e cuidadosamente e tocando livremente.

Duas formas diferentes e opostas de encarar a música, vistas por dois gigantes, respectivamente, Sviatoslav Richter e Martha Argerich, mas que conduzem, paradoxalmente, ao mesmo resultado: a imagem pura da essência do intérprete, seja por aquilo que ele não consegue remover ou por aquilo que ele, simplesmente, deixa fluir de uma fonte que nem ele mesmo conhece.

O estudo da técnica é indissociável do estudo da música, visto que cada peça apresenta sua dificuldade, única e singular, que, de certa forma, é sua marca de individualidade de cada obra. Para apresentar desse jeito, os aspectos técnicos são a arquitetura e os musicais a decoração. Ambas não têm valor sozinhas, nem em proporções erradas. Achar essa proporção é algo que perturba os intérpretes, os compositores, os ouvintes, os críticos e a humanidade toda, de uma forma geral.

Evgeni Ugorski mostrou que tem domínio magistral de ambas, de forma natural. Seus harmônicos afinadíssimos e seu senso de fraseado ao mesmo tempo rígido e poético transparecem uma personalidade musical que, embora em formação, é profunda. Sua essência é bela e suas bases são sólidas.

O concerto de Tchaikovsky, conhecido por sua profundidade, intensidade, dificuldade e por não desgrudar da cabeça de quem tem a felicidade de ouvi-lo bem tocado, é uma obra perfeita para demonstrar tais qualidades.

A cadência do primeiro movimento foi absolutamente emocionante. Não se ouvia um ruído, ínfimo que fosse, no Theatro. A platéia, a orquestra, os mosquitos, todos pararam e ouviram. Ninguém ousava esboçar reação, diante de tal maravilha. Exceto os violinistas da orquestra, ao mesmo tempo maravilhados, e, justificadamente, com uma tromba de inveja.

Não tenho muito a dizer, mas o mais importante é o seguinte: aquela interpretação, tocada por qualquer violinista, de qualquer idade, seria absolutamente fantástica, foi absolutamente fantástica. Não vamos usar a palavra violinista, digamos, simplesmente, músico, tal foi o entendimento da obra, a qualidade sonora e a sinceridade, que, ao meu ver, é a qualidade principal de um músico.

Pudemos então ter uma rara visão do casamento perfeito de técnica e musicalidade, tão raro e tão delicioso. Pude, então, não apenas ficar fascinado pelo incrível domínio técnico do instrumentista, mas também por sua enorme compreensão musical.

Sozinho, de pé, diante do Municipal lotado, Evgene Ugorski fez com que todos ali presentes sentissem uma pontada no coração. Através do violino e das mãos dele, Tchaikovsky falou e, com sua própria mão, tocou nossos corações.

Um último comentário: ele tem dezoito anos.

 


Pedro Taam é pianista, graduando em Física Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do Aguarrás.

Evgeni Ugorski



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