SP Arte
Como em qualquer feira, a Feira de Arte de São Paulo tem frango morto, peixe morto, salsinha com a raiz de fora ao lado de uma couve-flor começando a amarelar.
Mas não tem jeito. Só se consome o que está morto. Se estiver vivo, não é consumo, é participação. É mais custoso, envolve riscos. E isso vale para os produtos simbólicos da cultura também. Então, havia desde Volpi a Iberê Camargo, passando por Krajcberg e outros cansaços. Só que mercado é lugar alegre desde a Idade Média e esse não foge à regra. É bom, é divertido passear pelo Ibirapuera e tropeçar em um Ângelo Canossa saindo do embrulho ou alguém dizendo “um pouco mais para a direita” para um Antônio Dias a ser pregado nas paredes provisórias.
E tem os amigos também.
Então foi bom e aqui embaixo está uma lista do que eu e Caró gostamos. Foi esse o critério, o da diversão e o do gosto pessoal.
Ah! E vi, pela primeira vez na vida, gente comprando arte, assim, como quem compra, bem, qualquer outra coisa. Mulheres com bloquinho tomando nota, falando no celular ou entre elas, se decidindo por um AmÃlcar de Castro, ali, na minha frente. Confesso, achei emocionante. Achei que por mais que eu tenha restrições sobre salas de jantar e pinturas que combinam com o sofá ou esculturas que ficam tão bem ali no lugar da mesinha de canto, se salas de jantar as há, que contenham um AmÃlcar – mesmo levando em conta que provavelmente será a sua masculinidade enferrujada o principal atrativo e não, como é para mim, os apoios frágeis, diminutos, já a anunciar a colossal mudança de paradigma que viverÃamos e vivemos.
Bem, Ã lista.
Mais um ah! Obrigada por mim e Caró aos galeristas que nos permitiram fotografar, às vezes rearrumando as peças para obtermos um melhor ângulo. Toda boa sorte na feira, e que tudo seja vendido.
Lista, agora para valer:
Vi o Camille Kachani, com seus objetos banais de uma vida brasileira, tecidos cuidadosamente em pelúcia e emborrachados – o que aumenta espetacularmente o foco na questão recuperação/rejeição irônica dessa mesma brasilidade. Ele estava, que eu tenha visto, em duas galerias, a nossa velha conhecida Almacén, do Rio, e a Galeria Murilo Castro.
Tinha os painéis feitos de diminutas bolinhas de futebol, em couro, do Felipe Barbosa também problematizando uma velha mania nacional.
Na Galeria Lemos de Sá, de Belo Horizonte, vi um artista que não conhecia, o Roberto Vieira, com um clima que faz lembrar o Farnese de Andrade, aliás também presente na Feira. Uma coisa de memória que inclui o escuro, o perverso, o que procuramos tirar da memória. Muito bom.
Tive o prazer de ver o estande da Galeria Mariana Moura, minha velha conhecida de internet. Essa Galeria costuma me mandar releases e avisos de exposições. É de Pernambuco e é grande, importante – o que me faz gostar dela: é fora desse eixinho aqui de baixo. Estavam com Nazareno, que eu simplesmente a-do-ro. O Nazareno tem um viés literário, o que me aproxima dele. Um exemplo do que ele escreve em suas obras:
“Sim, talvez o milagre venha e aconteça, e sua maravilha se mostre perante você, mas você … você é da espécie que não o reconhecerá.”
“Não, não é tão simples, não é assim. Começaremos de novo, com calma, lentamente e de novo, de novo, de novo…”
Ele fala o que eu falava lá no inÃcio, sobre a recepção das obras de arte. Mas melhor.
Na Gentil Carioca, havia um Carlos Contente, que eu também gosto, com uns grafites onde se lia, assim mesmo em espanhol, “Ela tiene que reinventarse“. Gosto dessa não-fronteira.
Henrique Oliveira tinha uma de suas organicidades de madeira velha inchada, um breque bem vindo no ambiente tão limpinho.
Descobri uma galeria baiana que se chama, justamente, Mendes Bahia, e dentro dela um artista que eu também nunca tinha ouvido falar, Guillermo Martin Bernejo. Ele fez uma espécie de história em quadrinhos não seqüencial, em aquarela sobre madeira. Ao olhar, você tem uma informação de simultaneidade e recorrência que tem tudo a ver com a experiência do tempo contemporâneo. Gostei.
E, outra boa novidade, um escultor em madeira de BrasÃlia, Miguel Simão, com uma peça muito forte e irônica: uma cabeça que leva sua própria bigorna no cocuruto, como aliás, todos nós, que já levamos conosco o impulso de um baticum entorpecente e suicida.
Na Amparo 60, uma composição do Paulo Bruscky. Uma série de retratinhos 3×4 cortados em três no sentido horizontal. A parte do meio é retirada. Você tem pessoinhas sem rosto. Você demora a notar. TerrÃvel.
Na Galeria Luisa Strina mais um bom escultor, o Edgard de Souza, com seu corpo aos pedaços.
Você nota? Apesar de uma barraquinha ao lado da outra, como na feira aqui do ParaÃso, há uma certa constância, uma certa unidade. Ou então é a recepção, que privilegia, em dados momentos, alguns aspectos em detrimentos de outros. E, bem, tem um império se afundando por aÃ. Mesmo nas bordas dele, dá para viver a morte.
A GalerÃa Isabel Aninat trouxe um Walton Hoffmann, que é curitibano e que pôs de tÃtulo na sua cidade artificial, púrpura e brilhosa, o nome de Ciudad, também em espanhol e também me agradando por isso mesmo.
A Box 4, uma galeriazinha bem pequena do Rio onde nunca iremos encontrar um peixe morto, trouxe uma das mais belas imagens de morte da Feira. Pedro Motta, que documenta o Vale do Jequitinhonha fotografou um prostÃbulo. São nove quartos, nove fotos. Não são quartos, são uma coisa subterrânea, uma catacumba de tristeza e beleza. Em um dos quartos, se lê: “Dinho é o homem mais gostoso que conheci no brega.” E aÃ, entre coraçõezinhos desenhados, a assinatura: “Paulo“. A obra se chama Paisagem submersa. E é vivÃssima.
Uma galeria carioca também nos deu, a mim e a Caró, um dos bons momentos da tarde. Chama-se h.a.p. Galeria e o artista é Hilal Sami Hilal, com uma sombra de obra, nem é registro, é só isso mesmo, uma sombra. É uma vagueza, contudo, que fica e que reproduz, na sua imaterialidade, a própria fruição estética. Uma coisa que treme, balança, dentro de nós, que não é nada, mas que não vai embora. Sobre ele, Paulo Herckenhoff escreveu:
“Hilal escreve no ar, isto é, inscreve a linguagem no vazio.”
É tudo que a arte quer, encontrar um vazio no meio do lixo, onde estabelecer um diálogo, porque linguagem é sempre para diálogo, nunca para monólogo.
Na Galeria Milan, um Emmanuel Nassar com sua força frágil de quem usa a falha – ou o vazio – porque sabe o que isso vale.
Laura Marsiaj e Mercedes Viegas, duas galeristas cujas escolhas sempre me agradam, dividiram juntas um mesmo espaço. Nele, um Ana Maria Maiolino de formas escorreguentas, convidativas, confortáveis.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.


















































