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Homem de Ferro

Não importa o gênero, o segredo para um bom filme está no roteiro, direção, atuação e uma idéia precisa de quem é seu público-alvo. Homem de ferro é o primeiro filme da Marvel (editora de HQs) como estúdio, o que garante uma parte da equação: eles conhecem o próprio público como ninguém. Na direção, ou por falta de dinheiro ou porque ainda há vida inteligente em Hollywood, escolheram uma figura pouco conhecida com apenas um blockbuster de gosto duvidoso no currículo: Jon Favreau, responsável por Elf (o tal blockbuster) e Zathura (da família Jumanji). Para fechar com chave de ouro, Robert Downey Jr. acorda em um belo e dia, se olha no espelho e pensa: por que não eu?

Robert Downey Jr. teve um problema com drogas, ficou um tempo fora de cena e deu a volta por cima. Mais informações você encontra no Google. Sobre a carreira dele, a verdade é que nunca foi um figurão do star system hollywoodiano, o que não o impediu de aparecer em filmes interessantes como: Short Cuts, Eros, Garotos Incríveis, Chaplin, Kiss Kiss Bang Bang, O Homem Duplo e, recentemente, Zodíaco.

Com a franquia Homem de Ferro, Downey Jr. finalmente fará seu pé de meia. Em menos de uma semana o filme alcançou a marca de US$220 milhões de bilheteria mundial. Recapitulando: sendo a primeira aposta de um estúdio, com um ator que não é associado a filmes de heróis, um diretor desconhecido e um orçamento de US$140 milhões a Marvel deve estar respirando aliviada nesse momento (sem falar das tensões com Hulk, mas isso é outra resenha).

cartaz de Homem de Ferro Ninguém pode negar que uma parte considerável dessa cifra se deve à maestria de Downey Jr. no papel, que conseguiu enriquecer o personagem com nuances de humor e um caráter duvidoso para um herói super patriótico. Mas não vamos esquecer que o ritmo do filme se deve ao roteiro de Mark Fergus e Hawk Ostby, responsáveis também por Filhos da Esperança. A brincadeira é a mesma nos dois – uma história linear com toques de roadmovie, feita de pequenas ações isoladas que vão mudando a vida do protagonista e deixam em segundo plano as inter-relações dos personagens. Todos são figurantes até que se prove o contrário, com exceção, é claro, do Homem de Ferro que na maior parte do tempo é uma armadura 3D voando por aí, com o rosto de Downey Jr. aparecendo em uma tela apertada (como se dentro da armadura, capisce?) conseguindo tirar leite de pedra.

O que realmente me chamou atenção foi a relação do filme de herói made in HQs com a noção geral da ficção-científica. Desde que Kubrick brilhantemente criou 2001: uma odisséia no espaço, o futuro estava lá adiante. Iríamos voar, conhecer novos mundos e em 2010 até faríamos contato. O universo não era mais o limite. Spielberg reforçou essa noção com seus ETs bons e maus, e Star Trek ajudou a moldar muitos dos projetos de pesquisa que viriam a seguir.

Só que o futuro chegou. Aliás, o futuro é passado. Não fizemos contato, não dominamos o espaço e cá entre nós a situação não anda nada boa. A robótica não avançou tudo o que prometia ao alcance de nossos olhos e os robôs ainda lutam para sorrir e levantar as sobrancelhas. A verdadeira saga robótica não está nas ruas nos conflitos de ciborgues rebeldes, mas nas fábricas automotivas e nas plantações de soja.

E o que virou o futuro/presente então? A genética. O mundo que sofre com a fome, os vírus que se propagam, X-Men e heróis mutantes. As ciências biomédicas ganharam de longe em Hollywood. Você pode argumentar que AI de Spielberg é relativamente recente, mas não se esqueça que ele é a finalização de um projeto original de Kubrick, e não, Eu Robô não conta, pois sofre da mesma síndrome do livre arbítrio de dezenas de filmes de qualquer gênero.

Vamos então para Matrix. As máquinas dominaram o mundo. Então é uma ficção. Mas esse é o ponto. Em 2001 e Star Treks, é o homem quem domina a máquina. A força do homem vinha da ciência e em Matrix o homem é uma espécie de super-herói com poderes divinos, cumprindo uma profecia, para recuperar seu território (não deveria ser, se os irmãos diretores tivessem se lembrado da idéia original ao fechar a trilogia, mas assim aconteceu). Pensando no novo Star Trek, perceba que ele não avança mais no tempo. As novas gerações foram deixadas de lado e a história virá para o começo de tudo a Enterprise sendo construída e fazendo o primeiro vôo, o que nada mais é do que uma forma de compensar o equilíbrio entre nosso presente-futuro e a idéia de futuro da saga. O filme que por incrível que pareça trouxe a robótica de volta ao centro do jogo foi Transformers, com seus robôs alienígenas. Ainda nele, os homens estão atrasados tecnologicamente e precisam da ajuda de outros robôs para vencer, mas a ciência tinha o peso maior da equação.

Como quem não quer nada, surge então Homem de Ferro e resgata o espírito das antigas ficções-científicas, nas quais o homem está no comando, é capaz de pesquisas avançadas, de usar a tecnologia a seu favor e domar o monstro. Aqui, a raça humana ainda não levou a rasteira. Quando Tony Stark escapa dos terroristas em uma caverna e, de volta ao seu laboratório, constrói e ajusta peça por peça a sua armadura, ele faz mais do que se tornar um super-herói e domar a ciência, ele reabre um dos nichos mais prolíficos da indústria do cinema americano.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0013, em 9/5/2008

 

 

 

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