Terceiro Espaço na Emma Thomas
Um dos dois curadores, o Alexandre Hypolito, falou algo sobre o embate entre o público e o privado. A gente entende o que quer. Eu andava lendo sobre a formação de sentido e/ou identidade na internet e entendi o que quis: o dentro e o fora tão misturados da rede – e, por ilação, não só na rede. Fui lá para ver se tinha montagens, colagens. Pois um dos aspectos dessa formação de sentido/identidade de grande rapidez é que ela é também, ao mesmo tempo e surpreendentemente, de grande lentidão. Digo: você vê as partinhas – que vão ser integradas ou que vão modificar o fluxo contínuo de formação do sentido/identidade – se juntando no momento mesmo em que se juntam. Hipertextos todas elas que, à medida em que o texto vai sendo elaborado, perdem seu negrito e o www iniciais, vão pegando um jeitão de frase narrativa mesmo. Ou em vez de frase, imagem momentaneamente proto-organizada. Isso, claro, antes de se abrirem – frase ou imagem – outra vez para um exterior que nem mais é exterior (da mesma maneira em que não há, a bem dizer, um interior – as peles separatórias de hoje todas furadas por piercings, problematizadas todas elas pelo oco que nos habita a nós, não mais estátuas de algum material maciço mas vasos ritualísticos, se tanto).
Em cheio.
A exposição na Emma Thomas se chama Terceiro Espaço porque junta gente do Rio e de Minas (o segundo curador, de Minas, é o Wagner Rossi) nesse terceiro espaço que não é uma coisa nem outra. E que, curiosamente, também não fica onde fica, na Rua Augusta, SP, pois tem uma entradinha de vila que a separa dos bares, ônibus, prostitutas e comércio de logo ali.
E nela, as montagens, colagens, superposições e agrupamentos que eu havia adivinhado.
Entre eles:
Paulo Nazareth (Minas) fez uma prateleirinha de pequenas inutilidades afetivas, dessas que passam e mais rápido passariam não fossem, justamente, afetivas. Um doce não mais fabricado, um fumo de corda, carrinhos de brinquedo feitos de latinhas de um tempero não mais vendido. Um saquinho de chá usado. Um desenho onde está escrito “nostro adesivo invisibile para proteger o projeto da máquina que nada serve”. A prateleirinha uma concorrente da internet, caseira e tão lenta quanto, com seus hiperlinks de memórias.
Rodrigo Castro de Jesus (Minas) é o próprio vaso ritualístico. Pôs uma camada de látex em cima do corpo. Tirou. Emendou. E voilà, um corpo oquinho, com sua “pele” precária, irregular, de grandes entradas ou saídas. E mais: que corpo que nada, pedaços do corpo. Porque, justamente, ter um corpo inteiro é luxo que perdemos. Temos pênis (alguns de nós, quero dizer), panturrilhas, mãos…
Tereza Costa (Rio de Janeiro) fez algo semelhante. Rolou na tinta, grudou em um vidro essa espécie de adesivo que se formou. Uma monotipia. Se rolar outra vez dá outro resultado. Também aqui pedaços de corpo – íntimos mas externos ou, ao contrário, um lado de fora formado por um contato íntimo – que passam rápidos e lentos.
Patrícia Franca (Minas) põe esse texto perto de seus objetos-olhos: “Como uma obra de arte – ela repetiu, seu olhar indo da tela aos degraus do salão; enquanto seu olhar ia vagamente de um objeto ao outro, a velha questão que continuamente atravessa o céu do pensamento, a vasta questão, generalizada, sujeita a aparecer em tais momentos, vem se apresentar a ela: qual é o sentido da vida?” É da Virgínia Woolf.
Rodrigo Mogiz (Minas) também costura pedaços. Literalmente. Com agulha e linha, ele perpassa camadas translúcidas de desenhos superpostos, um hiperlink de bordadeira, uma construção inacabada, como o são todas. Ali, a agulha ainda presente, instrumento a ser retomado a qualquer momento. Frases escritas entre os conjuntos translúcidos falam de um príncipe que se torna Adão, de uma hora em que é preciso voltar a Londres. Porque tem mais uma coisa nessa formação de sentido/identidade tão rápida e tão lenta: não há distinção entre o público e o privado e nem, tampouco, entre o fato e a ficção.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.






































