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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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14/5/2008

Yuba na Pinacoteca

A fotografia documental existe há mais de cem anos e talvez por isso eu tenha saído da exposição de Lucille Kanzawa na Pinacoteca com a sensação de dejá vu que sempre tenho com imagens muito datadas.

Kanzawa conta uma fatia da história da comunidade japonesa Yuba, em Mirandópolis no interior de São Paulo. A história é comovente: ela é filha do médico que atendeu gratuitamente por décadas a comunidade. O cartaz explicativo nos conta que a cultura japonesa considera como irmão aquele do mesmo signo e aquele que está próximo.

Lucille KanzawaAs fotografias são corretas, como manda o fotojornalismo, mas esta correção deixa também transparecer uma certa estagnação, inclusive estética.

O Japão me fascina. De um lado, Ukiyo-e (que eu tanto amo), de outro tecnologia de ponta e uma modernidade mais veloz do que sou capaz de dar conta. Amo este sincretismo de tempos tão diferentes. Acredito, honestamente, que nenhuma outra cultura expressa, cria e convive com isso tão bem.

Infelizmente, entretanto, não encontrei esta ambivalência na (ótima) cafeteria da Pinacoteca. Encontrei fotografias que não conseguiram vencer o seu próprio veículo e ficaram presas em ser fotografias stricto sensu.

Agora, vá à Pinacoteca. Veja os Ukiyo-e e aproveite para tomar um café no andar debaixo e ver as fotografias. A exposição da Kanzawa é gratuita e a de Utagawa Hiroshige só custa 4 reais (2, meia). A Pinacoteca é no metrô da Luz e mesmo que você só vá tomar água olhando árvore já é bom.

- Carolina Vigna-Marú


Lucille KanzawaHá algumas armadilhas nas fotos conteudísticas. Elas não escapam de uma aspiração formal e aqui não é exceção. Lucille Kanzawa, filha de um amigo dos membros de uma comunidade japonesa em Mirandópolis, decidiu documentar o espaço de sua origem familiar. As imagens em PB, mais do que as em cores, mostram esse impasse: o importante é o que mostram, mas mostram apuradamente – composições, massas de claro/escuro. E ao dizer isso me ocorre mais uma armadilha. A fotógrafa tem por tema um espaço, mas o que ela fotografa na verdade é um tempo. No formalismo citado antes se inclui um hiato, um olhar imóvel para a câmera, uma ausência de ritmo nas linhas.É um tempo, e um tempo específico, o tema que se disfarça em geografia. E, mais uma armadilha: são fotos que se propõem espelhar uma comunidade. Assim, o registro pessoal, o que poderíamos supor como o viés único de um autor cede lugar a um estar-no-mundo comunitário, uma espécie de “voz do grupo”. A fotógrafa, na distância média que mantém de seu assunto, nos fala de sua inclusão: não se põe nem tão próxima que o agrida, nem tão longe como quem não pertence.

E, mais uma questão: ao exaltar uma vida “natural”, que “preserva tradições” e, portanto, não urbana, cosmopolita e miscigenada, Lucille Kanzawa também caminha em mais uma fina linha divisória entre uma expressão artística (mesmo se, como já falei, hesitante frente à importância do conteúdo explícito) e uma assertiva de cunho marcadamente ideológico – o que escapa ao escopo do estético embora, sim, o estético sempre se insira na historicidade.

- Elvira Vigna

(texto escrito a 4 mãos)

 


Aguarrás, editoria