O Jardim das Cerejeiras
O Teatro do Planetário tem uma disposição fantástica. Não aquela coisa tradicional de platéia e palco. É um teatro semi-arena, onde a platéia faz um semicírculo, rodeando o palco. Isso devia ser modelo também para salas de concerto, tipo o La Roque d’Anthéron.
Desde o início fiquei fascinado pela disposição dos tapetes e dos bancos. Os tapetes eram de dois tipos: doze tapetes orientais de comprimentos variados e seis pequenos tapetes de grama sintética (que qualquer um juraria ser natural), dispostos em formato retangular. Os tapetes de grama sintética cobriam as pequenas áreas vazias entre os tapetes orientais, que não se encaixavam perfeitamente, mas de forma tão harmoniosa e simples que do conjunto emanava uma beleza exótica. Os quatro bancos estavam, e como eu gostei disso, dispostos simetricamente, de forma que dois bancos lado a lado compunham, aproximadamente, as arestas maiores do retângulo. A simplicidade do cenário e todo esse senso de organização me transmitiram uma sensação agradabilíssima de calma e segurança, um clima quase familiar. Aquela sensação de “quentinho” e de conforto, um ambiente aconchegante ao olhar, como se o cenário se estendesse até a platéia, e nós também fizéssemos parte do cenário.
A mudança de ambientes entre os atos era caracterizada pela mudança da disposição dos bancos, um pequeno toque de genialidade. Interessante como a simples mudança de posição dos bancos gerava uma total alteração de clima. Feng shui? Os tapetes foram cortesia da Ianni Tapetes Orientais, belo acervo.
Ao começar a peça, uma musiquinha (e nisso não há nada de pejorativo), composta de arpejos simples e harmonias delicadas, quase uma caixinha de música, com o cenário todo escuro. Um a um, os tapetes foram iluminados (ao final, as luzes se apagaram, na ordem inversa). A “musiquinha” se insinua por outras vezes durante a peça, sendo um elemento de coesão, assim como a ordem dos tapetes nos diz claramente (sem ser vulgar, grosseiro ou óbvio, apenas de forma simples e bela) “começo” e “fim”.
Entra o elenco: doze atores. Mas não sentam três em cada banco. Liubov Andreievna (sempre o nome composto, conforme a tradição russa: prenome, nome do meio, que é o nome do pai mais um sufixo, e sobrenome. Segundo essa tradição, é não apenas respeitoso mas essencial usar o prenome e o nome do meio ao se dirigir a uma pessoa com quem não se tem muita intimidade) e Gaiev sentam-se num dos bancos, deixando quatro personagens em outro.
Essa organização dos personagens nos bancos ao início tem um significado mais profundo. Separando o elenco em blocos criam-se relações não apenas entre os personagens, mas entre os blocos também. Os blocos têm um papel importante na peça (bem divididos entre os atos, como se cada ato “pertencesse” a um dos bancos, originalmente), e os personagens que sentam juntos têm muitas características em comum.
A arte que mais se aproxima da música, ao menos para o artista, é o teatro. Ambas são artes performáticas e nisso há uma espontaneidade e um fator de risco muito grande. Como disse Piotr Anderszewski, o artista estuda, pratica, ensaia, para reduzir a possibilidade de um desastre. E como disse Martha Argerich, temos que nos preparar 150%, para sermos capazes de conseguir, pelo menos, 60%.
A peça é uma delícia: quatro atos, não longos, nos quais a história se desenvolve. Logo em uma das primeiras cenas o problema é apresentado: o Jardim das Cerejeiras, nome dado à casa de Liubov Andreievna e Gaiev, seu irmão, por ter um maravilhoso jardim com lindas cerejeiras, será leiloado, devido às enormes dívidas adquiridas por ambos.
Não achei uma só heterogeneidade no elenco. Todos, todos absolutamente perfeitos. A peça também e o ambiente, igualmente maravilhosos e bem construídos.
Um pouco sobre as atuações, sem nenhum critério de ordem dos nomes, mas convenientemente arrumados em blocos. Não os de Tchekhov, os meus:
Peter Boos como Iacha (e uma breve aparição de um andarilho maltrapilho). Magnífico, foi o que, de longe, mais me fez rir, com seus modos aristocráticos e exagerados (Epikhodov também, um pouco). E o personagem, com um ar de “não agüento toda essa boçalidade, preciso ir para Paris”. O conflito com a mãe é interessantíssimo, visto que ela não aparece em nenhum momento. À simples menção do nome da mãe, ele sai do sério. Uma jóia de frescor e vida, esse personagem, tão caricato, e, por isso mesmo, tão real.
André Stock como Epikhodov. Junto com Simeonov-Pichtchik e Charlotta, Epikhodov é um personagem meio “peixe fora d’água”. É certo ser hilário com sua falta de jeito e seu apelido de “Senhor Desgraça”.
Monica Biel como Charlotta. Charlotta é uma personagem ao mesmo tempo triste e engraçada. É uma senhora de olhar perdido, criada da casa, que não se casou, não sabe ao certo sua idade e não tem família. PAra ela, como ela mesma diz, tudo “tanto faz”. À parte disso, convive bem com sua desgraça, está sempre sorrindo ou cantando.
Sidy Correa como Simeonov-Pichtchik. Ele diz que os Simeonov-Pichtchiks descendem diretamente do cavalo que Nero nomeou senador. É um personagem honrado, sincero, leal, fiel e cativante e o ator transmite isso claramente.
Aurélio de Simoni como Firs, o velho mordomo de oitenta anos. Maravilhosa interpretação, um personagem profundo, a quem é dada a responsabilidade de encerrar a peça, solitário, deitado num banco. Parabéns também a ele pela iluminação genial.
Deborah Evelyn como Liubov Andreievna. Excelente retrato do espírito generoso e decadente da mulher falida. Não tinha um tostão no bolso, mas deu esmola ao andarilho e emprestou dinheiro ao amigo necessitado. Deborah Evelyn está incrivelmente natural nesse papel, que não é simples nem fácil.
Gláucio Gomes como Gaiev. Um tantinho ranzinza e verborrágico, Gaiev é irmão de Liubov Andreievna. Só pensa em sinuca e soluções desatinadas para o problema financeiro. O ator, muitíssimo competente, transmite com simplicidade toda a falta de simplicidade de seu personagem.
Claudia Sardinha como Ánia. Ánia é a filha mais nova de Liubov Andreievna, tem dezessete anos. Gostei muito da interpretação dessa jovem atriz, muito jovem e muito talentosa. Ela conseguiu vencer o nervosismo inicial na apresentação dos personagens e brilhar.
Elisa Pinheiro como Vária e Julia Marini como Duniacha. Irriquietas e elétricas, hilárias e excelentes atrizes. Ánia é filha adotiva de vinte anos de Liubov Andreievna (fato não mencionado a não ser na apresentação dos personagens, coisa que fala um pouco mais sobre a personalidade de Liubov Andreievna). Duniacha é a criada da casa, apaixonada por Iacha. De tanto conviver com as classes altas “ficou fina” como ela mesma diz, e essa é a origem de sua azáfama.
Leandro Daniel Colombo, como Lopakhin. Lopakhin é o personagem mais denso da peça. Seu pai e seu avô foram servos na propriedade dos ancestrais de Liubov Andreievna e ele tem uma certa obsessão com isso. Junto com o rancor pelos antepassados, alimenta um enorme carinho por ela, o que delineia um conflito: mesmo entrando em “guerra” contra seus os antepassados (os dela), ama-a e quer protegê-la. Leandro Daniel Colombo executa magistralmente as dramáticas e intensas cenas do terceiro e quarto atos, quando esse conflito chega ao clímax.
Marcos Marjan, como Trofimov. É o único personagem puro em toda a peça. Feio, mas de olhos sonhadores. Tão perdido na sua utopia que nada da realidade o afeta, nem mesmo o dinheiro. Uma antevisão do socialismo utópico, da própria revolução em 1917? O ator foi terrivelmente convincente.
Anton Pavlovitch Tchekhov, importantíssimo escritor e dramaturgo russo foi um dos expoentes do conto moderno. Compartilhava a idéia da impressão total com Poe: tudo num conto tem um sentido, cada elemento deve causar uma reação pré-determinada pelo autor, no leitor ou expectador. Tchekhov era médico durante o dia e escritor durante a noite. É engraçado como uma peça escrita em 1903-04 trata de um tema (e trata desse tema de uma forma) tão atual. Podia perfeitamente ter sido escrita nos tempos do Collor, Bush ou Thatcher.
Meus parabéns ao elenco (duplamente ao Aurélio de Simoni, pela iluminação também), e ao Rostand Albuquerque pelo cenário. E se o Anton (Tchekhov) por acaso ler, a ele também.
serviço
Teatro Maria Clara Machado
Padre Leonel Franca, 240
Gávea
Rio de Janeiro, RJ
(21) 2274-7722
Pedro Taam é pianista, graduando em Física Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e editor do Aguarrás.







































