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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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19/5/2008

entrevista: Sinara Rúbia

Muito me agrada, no seu conto “A Princesa Alafiá“, a personagem principal ser uma princesa linda e representar o mesmo arquétipo junguiano das cinderelas da vida. Por outro lado, me surpreendeu que a localização fosse em um Quilombo. Como você vê a questão do cenário na literatura?

A descrição é um aspecto fundamental em um texto literário narrativo, pois com esse modo de organização do discurso o leitor tem a oportunidade de visualizar o cenário em que se desenvolve a ação e os personagens que dela participam. No caso do conto da princesa Alafiá o cenário é muito importante, uma vez que a narração pretende trabalhar com a História e formação da cultura afrobrasileira transmitindo de forma fiel os fatos que não são conhecidos através da História oficial.

A nossa tradição oral sempre foi rica em personagens negras ou mestiças. Como você vê o papel desta oralidade na formação da auto-estima infantil?

Minha proposta é trabalhar com a auto estima da criança negra, apesar da história da princesa Alafiá ser importante para todas as crianças, pois através das outras histórias que essa personagem vai contar, a criança será informada a respeito dessas das estórias pelas diversas etnias africanas que chegaram ao Brasil e formaram a cultura afrobrasileira e se reconheceram através dos personagens.

A que faixa etária se destina o seu trabalho?

A princípio achei que fosse para criança de 3 à 9 anos. Entretanto hoje vejo que esse trabalho alcança qualquer idade… Alcança pessoas que compreendem a dimensão ideológica dessa temática e principalmente aquelas que se identificam com essa princesa de pele negra, cabelos crespos olhos escuros, lutadora, guerreira… Ou seja, a mulher negra brasileira.

Você pretende musicar a Alafiá? Ou representá-la em espetáculos teatrais?

Esse conto já virou uma contação de estórias/performática, pois através de movimentos de dança de origem africana e som de tambores, onde entro para fazer a narração vestida de princesa africana. Faço essa apresentação em vários espaços e os resultados são chocantes!

Você considera que a contação de estórias pode exercer um papel importante na formação da criança? Como a contação de estórias pode ajudar a literatura?

Acho que o contato com a literatura é muito importante na formação das identidades da criança. Vou responder melhor essa questão a partir da experiência de meu trabalho.

A contação da História da Princesa Alafiá tem a intenção de trabalhar a auto-estima da criança negra, desconstruindo o conceito hegemônico de beleza, passado também pelas princesas brancas (Cinderela, Branca de Neve..).

Acredito que esse trabalho proporciona um ambiente lúdico e estimula a capacidade imaginativa do público e ao mesmo tempo contribui para a elevação da auto estima da criança negra, que está inserida de forma desigual e representada por meio de papéis sociais que reforçam os estereótipos que sustentam idéia de inferioridade do negro na sociedade.

O conto retrata a história de uma princesa negra que morava no reino de Daomé, no Continente Africano e que veio para o Brasil através do tráfico negreiro, no período da colonização portuguesa. Minha intenção ao escrever tal narrativa ficcional foi fazer frente à hegemonia dos contos de fadas conhecidos no Brasil, desconstruindo a ideologia de termos um único padrão de beleza valorizado, com o objetivo de elevar a auto-estima da criança negra brasileira.Está pautado nos vários aspectos históricos do período e mantém a mesma estrutura dos contos tradicionais: há uma princesa, mas negra, há o sofrimento, mas a princesa não necessita de um homem para resgatá-la, pois ela toma uma atitude impulsionada pelo seu “espírito” guerreiro e encontra um verdadeiro amor, mas a noção de felicidade é outra que não a de viverem felizes para sempre, imersos em riquezas, morando em um castelo.

A princesa Alafiá é uma princesa que “tem a pele negra como a noite, olhos grandes e escuros e crespos cabelos”.

Entendo que faz parte da luta pela afirmação de uma identidade que nos foi tirada e que tentamos reconstruir, a produção de uma literatura voltada para crianças e adolescentes, com o objetivo de influenciar à construção de suas identidades sócio-culturais. Pois nesse momento importante da formação da personalidade, ao se depararem com valores racistas ainda cristalizados em nossa sociedade, possam desenvolver símbolos próprios de auto – reconhecimento que elevem a sua auto estima.

A pesquisadora e escritora Sinara Rúbia apresentou recentemente o tema na Universidade Castelo Branco.

 


Carolina Vigna-Marú é a editora do Aguarrás, além de ilustradora, designer e diretora de arte.