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Já faz um tempo, dizem que Nietzsche é pop. Grupos se reúnem em uma tarde de sábado não para ver futebol, mas para discutir os livros do filósofo. As senhoras enfileiradas nos assentos especiais do metrô não trazem mais Dan Brown na mão, é Nietzsche que está lá em seus mais diversos formatos. Nas escolas, claro, o bigodudo é um sucesso desde o jardim. Dizem. Nunca testemunhei nada que comprovasse a onda pop em torno do escritor. Principalmente se pensarmos em pop como forma reduzida de popular. Talvez as pessoas queiram dizer que Nietzsche é um autor acessível, não necessariamente pelo conteúdo dos textos, mas pela quantidade de livros seus que podem ser achados, seja nas livrarias ou nas bancas de jornal. Quando não há mais nada para relançar, nova capa para experimentar, tradução fresquinha para fazer, é hora de voltar os olhos para os baús e papéis perdidos. Kafka e seu pai que o digam. É assim que geralmente nascem as coleções de obras completas (póstumas), livrões pesados e impossíveis de segurar que fazem mais sentido ao lado de enciclopédias empoeiradas enfeitando as prateleiras da biblioteca. De vez em quando, felizmente, alguns dos textos escapam do todo e, mesmo com cara de material incompleto, ganham capa e edição caprichada. A grande vantagem? Cabem na bolsa, pasta, mochila e são fáceis de carregar.

Cinco prefácios para cinco livros não escritos tem mais ou menos esse clima: o de um texto fugitivo.

A edição da Ed. 7 letras traz a primeira tradução brasileira dos cinco prefácios escritos pelo filósofo. São eles: 1. Sobre o PHATOS da verdade, 2. Sobre o futuro de nossos institutos de formação, 3. O estado grego, 4. Sobre a relação da filosofia de Schopenhauer com uma cultura alemã e 5. A disputa de Homero.

Nietzsche tinha acabado de publicar O nascimento da tragédia no espírito da música (também conhecido como O nascimento da tragédia, ou Helenismo e Pessimismo)e começava a rascunhar os prefácios do que deveriam ser seus próximos cinco livros. As obras nunca foram terminadas e as idéias foram reabsorvidas em outras obras do autor, mas Nietzsche resolveu dar um fim nobre aos textos. Reuniu tudo em um único volume e os entregou para Cosima, a mulher do compositor Wagner. Para quem é novo no universo do filósofo, Nietzsche teve por muitos anos uma admiração por Wagner que beirava o amor platônico. O fim desse amor se encontra no prólogo que Nietzsche escreveu 15 anos depois para seu primeiro livro (O nascimento…), chamado de prefácio para Richard Wagner.

Para você que é fã ou estudioso do autor, o livro é um presente. Os prefácios têm a qualidade extra da clareza da linguagem, característica que foi se perdendo com o passar dos anos, com o filósofo preferindo o rebuscamento para engrandecer idéias que poderiam brilhar também na simplicidade.

É possível que o mais interessante dos prefácios seja O Estado Grego, onde Nietzsche relê a cultura grega por um olhar moderno. E o que há de interessante nisso? O olhar moderno de Nietzsche se refere a 1870-80, e é estranhamente familiar à situação geopolítica que vivemos hoje, ano de 2008. A maior diferença talvez esteja no papel da religião. Enquanto na sociedade grega a religião funcionava como um momento de luz diante das sombras da vida real, hoje a religião é o combustível dessa escuridão, com o escapismo cada vez mais distante e corrompido.

Se fosse citar trechos de todas as páginas que marquei, metade do livro estaria aqui. Escolho então os dois que refletem melhor o pensamento geral que Nietzsche queria abordar. Como comumente acontece com grandes nomes da literatura ou da filosofia, é muito mais interessante ler os textos do que ler sobre eles, por isso deixarei que falem por si.

E agora, para alcançar as mais elevadas exigências de suas metas egoístas pelos meios estatais, antes de tudo o estado deve libertar-se completamente daquelas contrações terríveis e irregulares da guerra, de modo a ser usado racionalmente; e, nessa situação, a guerra é uma impossibilidade. Aqui, convém primeiro podar e abrandar o máximo possível os impulsos políticos particulares…” – O estado grego.

Quando se fala de humanidade, a noção fundamental é a de algo que separa e distingue o homem da natureza. Mas uma tal separação não existe na realidade: as qualidades ‘naturais’ e as propriamente chamadas ‘humanas’ cresceram conjuntamente. O ser humano, em suas mais elevadas e nobres capacidades, é totalmente natureza, carregando consigo seu inquietante duplo caráter”. –A disputa de Homero

Cinco prefácios para cinco livros não escritos
Fredrich Nietzsche
Editora 7 letras, 4ª edição.
O livro tem 82 páginas.
Da página 7 à página 16, prefácio de Pedro Süssekind para os prefácios.
Da 77 em diante, notas de entendimento.

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  1. By Resumão de leituras « Skavis - prateleira virtual on 27 Dec 2008 at 12:30 am

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