Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
É difícil extrair algo novo quando o assunto é Indiana Jones. Isso vale para o crítico, para os atores e para Spielberg e George Lucas também. Para a sorte de todos os envolvidos, a dupla de magos do cinema sabia disso muito bem e não se arriscou a reinventar a roda. Estão lá incríveis cenas de perseguição, o clima caricato de HQ em movimento, os heróis e vilões canastrões e os demais elementos que compõem a atmosfera de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. A novidade? O filho do arqueólogo e extraterrestres muito, muito estranhos.
Agora um pouco de números.
O novo Indiana Jones custou a bagatela de US$185 milhões de dólares. Isso equivale a 15 milhões a menos que a continuação de Crônicas de Nárnia , 75 milhões a menos que Homem Aranha 3 e 115 milhões a menos que Piratas do Caribes 3. Ou seja, dentro do universo dos blockbusters que torram o orçamento em efeitos especiais Indiana Jones é até barato. Analisando dentro da série do Dr. Jones a coisa muda um pouco de figura. Pelos dados que consegui, Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida custou US$18 milhões e arrecadou 384 milhões; Indiana Jones e o Templo da Perdição custou U$28 milhões e arrecadou mais de 330 milhões, e Indiana Jones e a Última Cruzada custou U$47 milhões e ultrapassou 470milhões nas bilheterias. Chega a ser engraçado pensar em Spielberg ou George Lucas trabalhando com um orçamento desses. Claro que há um hiato de 20 anos entre o último filme da saga e essa quarta parte, os preços mudaram, mas o potencial global de um filme também. Ninguém espera que a relação gastos/lucro vá se manter para Indiana 4, mas tratando-se do Midas Steven Spielberg é melhor não arriscar. Você nunca sabe quando ele fará um fiasco cabeça, um filmão de Oscar ou um blockbuster tradicional, como é o caso deste Indiana Jones.
Agora um pouco de nomes. Partindo do princípio que nem todos no mundo sabem quem são Steven Spielberg e George Lucas, resolvi brincar rapidamente com o currículo dos dois. George Lucas não tem um currículo muito extenso como diretor nem mesmo como produtor. Logo depois de inventar o universo de Guerras nas Estrelas, ele fundou a Lucas Film e passou a se dedicar a efeitos especiais. Ele é o diretor do primeiro Guerra nas Estrelas e da trilogia mais recente. Nos seus planos, mais alguns filhotes da fantasia intergalática e uma série para a televisão.
Steven Spielberg, por outro lado, tem um currículo considerável. Teve um começo de mestre do suspense com Encurralado e Tubarão. É um dos grandes responsáveis pela popularização de filmes com alienígenas, graças ao seu ET e Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Dirigiu Parque dos Dinossauros e Mundo Perdido, ganhou vários Oscars com a Lista de Schindler, voltou à ficção com Inteligência Artificial, Minority Reporte a esquisita versão de Guerra dos Mundos, e ainda tem um punhado de sucessos junto com Tom Hanks, vide O resgate do soldado Ryan.
Olhando a lista de ambos, é fácil entender a pergunta que todos fizeram ao saber que um novo Indiana Jones estava a caminho: por quê? Ninguém está precisando de dinheiro, Harrison Ford já está com 65 anos e não agüenta cenas de ação e a trilogia inicial é um sucesso incontestável. Bem, talvez nem toda continuação tenha espírito caça-níquel. Vamos considerá-la mesmo sendo uma teoria inocente. Outra, quando todos começaram a se perguntar por que mais um, esqueceram que por anos a pergunta era: por que só três? Os fãs também queriam mais, não só os estúdios de olho no dinheiro.
Mais, Indiana Jones arredondou a fórmula de aventura pipoca que mais tarde seria usada por inúmeros filmes tais como A Múmia e Piratas do Caribe. Então, é um prazer ver um novo trabalho dos professores, já que seus alunos ainda não entenderam muito bem que o espírito da diversão não está só nos efeitos alucinantes, mas também envolve bons atores, história interessante, figurino caprichado e outras coisas mais. Se nada disso fosse verdade, ainda restaria um argumento convincente: eles podem. Harrison Ford, Steven Spielberg e George Lucas deram vida a um dos maiores heróis do cinema, nada mais justo que o trouxessem de volta quando quisessem (fosse 1, 2 ou 19 anos depois) e como quisessem (com mais auto-referências aos 3 primeiros do que aposta em uma estrutura original).
Alguns amigos se reúnem no bar, outros gastam US$185 milhões em uma seqüência de Indiana Jones. É a vida.
Em tempo 1: talvez o maior mérito de Reino da Caveira de Cristal seja acabar com o conceito de trilogia. Apoiado nele, muitos estúdios e diretores tapeiam o público para criar um clímax que obviamente não estava no planejamento inicial e assim arrecadar bilhões.
Em tempo 2: o filme minimizou o quanto foi possível o uso de telas verdes. Há muitos cenários e filmagens em locações como a Amazônia. Ponto positivo.
Em tempo 3: Harrison Ford, além de ter feito Indiana Jones, também atuou como Deckard (Blade Runner) e Han Solo, o herói de Guerra nas estrelas.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.































