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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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26/05/2008

GLBTTS

Esqueça excessos. Um ou outro caso – e lá acorriam, qual moscas, fotógrafos, cinegrafistas. Eram os velhos bravos que assim desafiavam a assimilação gay na sociedade. Um brado, uma palavra de ordem: somos o lugar do excesso que encobre uma carência, e é isso que queremos esfregar na cara de vocês. O que vocês nunca cessaram de esfregar na nossa cara e que, agora, disso fazemos nossa identidade e nosso orgulho.

Mas eram poucos.

Freqüento paradas gays desde sempre e eles são a cada vez em menor número.

Antes vimos a exposição Retratos de um universo escondido, do fotógrafo escocês (radicado há mais de 20 anos no Brasil) Barry Michael Wolfe.

Ele montou o projeto Nome delas, com as fotos que tirou de travestis brasileiros desde 2005.

Nas fotos, uma persona se sobressai do fundo em geral preto: nostálgica, com trechos de poesias ou pensamentos encampados pela expressão do olhar que olha direto à câmera, a mulher na sua frente é de classe média ou baixa e tem um recolhimento, visível mesmo sob a maquiagem pesada. Um recolhimento de uma mulher com uma vida privada que, por causa da câmera, se expõe naquele momento ao público.

Na parada, um contrário que é a mesma coisa.

Na festa pública, alegre, onde todos juntos dançam e riem, às vezes, fora da altura dos olhos da maioria, para mim, sentada em um degrau de calçada, se torna visível as mãos dadas carinhosas e particulares, íntimas, só de dois e de ninguém mais. Momentos privados roubados de um dia público.

E é a mesma coisa, isso e o contrário disso, porque tendemos a separar: parada gay. Não é parada gay. É só parada. Todos nós na mesma. Todos nós incessantemente indo e vindo entre o privado e o público, misturados no mesmo reality show ficcionalizado. De todos os dias.

Por um tempo, paradas gays foram um lugar onde “você podia ser você mesmo”. Hoje somos nós mesmos em todos os outros dias do ano. E no dia da parada gay, alguns de nós – gays ou não – atuamos para atender a uma necessidade que é da mídia e é a nossa: estabelecer alguma diferença. Não há gays que fingem o que não são e que, na parada, “se soltam”. Há gays que são exatamente como os não-gays (ou não tão gays, seguindo uma velha sabedoria gay) e que no dia da parada gay fingem o que não são: diferentes.

É bom tirar foto. E o velho tio, vestido de alguma coisa parecida com um soldado romano se soldado romano usasse plumas de avestruz na cabeça, sorri rugas embaixo do make-up teatral ao receber o pedido:

“Cê posa junto de nóis? É para mandar para o pessoal de Franca.”

Ele posa, afetuoso com as mocinhas e mocinhos que o envolvem, uma quase-família. É preciso ter o que mandar para Franca.

As fotos de Wolfe são montadas em plásticos grandes, como se fossem banners anunciando que a Salete, a Yorrana e as Zuleikas gostam do Chico Buarque e falam frases que parecem boas de escutar em um papo que gostaríamos de ter.

Dentro e fora, na galeria do Conjunto Nacional, lugar de passagem mas fora da rua, a exposição é fisicamente descentralizada, fora do eixo principal que vai da Paulista à Santos. É, ela mesma, um apontamento para o intangível, o fora do alcance, o que não está nem lá nem cá.

É um Oscar Wilde envelhecido, a única ausência:

“Being natural is simply the most irritating pose I know.”

“No crime is vulgar but all vulgarity is a crime.”

“I would sooner have 50 unnatural vices than one unnatural virtue.”

Para o bem e para o ruim, somos comuns, nós, somos mais ou menos banais, todos nós, igualmente.

Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

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