Copi
Três peças de Copi (Buenos Aires, 1939 – Paris, 1987), recentemente traduzidas na coleção Dramaturgias, da editora 7Letras, trazem para o público brasileiro uma excelente amostra do teatro desse desenhista, escritor, dramaturgo, desde 1962 exilado na França. Eva Perón (1969), Loretta Strong (1974) e A geladeira (1983). As datas são importantes, pois destacam a preocupação das organizadoras e tradutoras em permitir uma panorâmica na produção de Copi, selecionando um texto por década de produção do argentino.
Os textos exploram certa crueza cênica e exigem versatilidade dos atores. Loretta Strong, por exemplo lança em cena apenas a personagem principal, cujo nome é o título da peça; é um monólogo, sim, mas no fundo, potencialmente dialógico graças ao recurso do telefone, através do qual conversa com criaturas interplanetárias e fantasmagóricas, e encena a iminência apocalíptica dos anos mais densos da Guerra Fria e da corrida espacial. Já A geladeira abre-se com as seguintes indicações: “cenário: um refrigerador. Um único ator interpreta todos os personagens, mudando de roupa fora de cena ou no palco segundo as situações. Um fantoche de rato de espuma que se enfia como uma luva. A doutora Freud é uma boneca do tamanho humano.” São peças em que a coloquialidade e o deboche estão nitidamente a serviço da construção cênica densa que revigoram a leitura de questões políticas e culturais respondidas no calor da hora, como a bandeira do homoerotismo face aos preconceitos sociais e esquemas psicanalíticos, as tecnologias de ponta e a banalização dos afetos humanos, a glamourização de mitos políticos, o esvanecimento das fronteira entre o público e o privado, apenas para citarmos alguns.
As três peças traduzidas são suficientes para instigar o leitor a ler a trajetória do teatro de Copi como transição entre o legado modernista e o que pode ser chamado, pelo menos por enquanto, pós-moderno. Tanto temática quanto esteticamente, os textos são distópicos em sua jocosidade mórbida e cáustica. Correspondem aos princípios estéticos do Pânico, movimento teatral fundado em 1962 pelo dramaturgo e escritor espanhol Fernando Arrabal, pelo diretor de teatro chileno Alejandro Jodorwsky e pelo pintor Roland Topor. A simultaneidade e o humor associado ao terror são os elementos que dão a tônica das propostas dramáticas do grupo que existiu entre 1962 e 1973 e ao qual Copi se integrou. Os textos de Copi definem-se exatamente nesses termos em que Arrabal define o movimento:
“O pânico é a crítica da razão pura, é a liga sem lei e sem comando (qualquer um pode-se dizer membro, inclusive fundador), é a explosão de pan (tudo), á o respeito desrespeitoso ao deus Pan, é o hino ao talento… louco, é o anti-movimento, o rechaço à seriedade, é o canto à falta de ambigüidade, é a vontade de contribuir com noções que se acreditavam menores no mundo dos “sérios”, revolvendo os valores, é a arte de viver (que leva em conta a confusão e o acaso), é o princípio da indeterminação através da memória… E todo o contrário.” (link)
A opção pelo exílio desde o governo peronista (duramente satirizado na primeira peça da publicação) e as ditaduras latino-americanas ao longo dos anos 70 fizeram com que Copi chegasse bem tardiamente entre nós. Excelente a iniciativa da Coleção Dramaturgias. Copi é um autor importante para se pensar a cena cultural, na Europa e na América Latina, das décadas que precipitaram o fim do curto século XX.
Alexandre Faria é professor de Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de Anacrônicas (7 Letras).



































