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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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11/6/2008

Côncavo e Convexo

Representada por um casal do grupo teatral angolano Henrique Artes, a peça Côncavo e Convexo emociona. São 50 minutos que comovem. Impossível não partilhar do drama das personagens e da cidade de Luanda.

De forma surpreendente o texto aborda a situação política, econômica e social da capital de Angola. Como nos revela a sinopse, trata-se de “uma obra recheada de drama, pois, a reflexão e a nota dominante do espetáculo é a utilização de signos através de velas, latas vazias de cervejas, baldes coloridos, mobílias velhas e cansadas. Os signos estão à espera do público que se propõe a ser a vítima desse espetáculo.” Boa sinopse, pois sabemos exatamente o que nos espera: seremos vítima de um drama. Quem passou os olhos nela, não entrou desavisado.

Apresentada, no teatro SESC Ginástico, um espaço hiper confortável e moderno, a peça já nos causa um estranhamento com seu cenário simples, porém impactante. Tendo ao fundo a foto de Luanda no alto do cenário e, no início, a Marcha Fúnebre, que já anuncia qual é o destino do relacionamento desse casal, vemos reproduzida uma casa sem luz, repleta de velas, uma casa em ruínas, palco de um relacionamento também em ruínas. Misto de silêncios e gritos. Ditos e não-ditos. As falas das personagens se cruzam e estancam umas as outras.

Trata-se de uma peça extremamente visual, inundada de símbolos que representam o relacionamento desgastado do casal. A falta no cenário, seus espaços vazios, os poucos elementos que o compõe, geram um belíssimo resultado, casado impecavelmente com o texto. As velas vão queimando, marcando a passagem do tempo, além de dar uma iluminação bem apropriada, misturando penumbra e brilho. A melodia para cada uma das personagens é diferente, o tom é distinto, e alterna-se, acompanhando as falas entrecruzadas.

Aparentemente temos um casal com problemas, e, inocentemente, poderíamos imaginar que iríamos assistir ao relato desses problemas conjugais. Porém, brilhantemente, o que ouvimos da boca das personagens são os problemas de Luanda. Melhor, a personagem feminina que se apresenta toda enfaixada, cheia de ferimentos, não é uma esposa, e sim a alegoria da própria Luanda e o texto a usa como imagem para explorar questões importantes da capital de Angola.

Essa personagem, como esposa, é convidada pelo marido para um diálogo e justifica, em seu discurso aflito, os ferimentos nas pernas, por exemplo, como o resultado da tentativa de impedir um assalto na casa da filha, e outros ferimentos por um atropelamento. Sua fala é cheia de silêncios e ao ser questionada pelo marido se sente dor, se precisa de ajuda, responde angustiadamente: “não é nada, estou habituada.” E nos perguntamos imediatamente: como pode alguém se habituar àquela dor? Luanda nos responde por meio de sua boca: “já não sou cidade, sou área habitada”.

Mais ou menos, aos quinze minutos de espetáculo, começam a referir-se diretamente aos problemas da cidade, mesmo que incluídos num discurso maior: hospital sem leitos, a chuva que traz doenças. E a semelhança com várias cidades do Brasil não é mera coincidência.

Quando começa um barulho de sirenes, o som de um helicóptero voando baixo, tiros, a personagem feminina apavora-se. O som é oriundo da memória traumática do assassinato do filho, que ela implora inutilmente para que não aconteça.

Num texto lento que agoniza junto com as personagens, muitos problemas expostos pela mulher, que podem ser superficialmente tomados como dificuldades matrimoniais, são justificados no discurso do homem por aspectos sociais, econômicos ou políticos. Até estatísticas são citadas. Essa articulação é muito bem estruturada, e os problemas da vida deles são apresentados como um reflexo dos problemas do país.

Consegui anotar, senão fielmente, pelo menos, na essência, algumas das falas das personagens. “Das filhas da minha mãe Angola, eu fui a única que não vivi guerra.” – exemplo do texto denso e impressionante de que estamos falando.

O homem pede que ela se acalme que tudo se resolverá e diz: “agarra minha mão e confie. Eu sei que é difícil confiar, mas agarra”. E ela responde, no auge da sua desesperança de cidade: “não tem energia elétrica no meu corpo. Não agarro mais nada”. Aproximando claramente o corpo da cidade ao corpo da mulher e mostrando, com essa declaração, toda sua falta de perspectiva.

Para ela, não há expectativa de melhora: “Eu sinto que meus filhos serão escravizados novamente em vão. Filhos do meu ventre estarão condenados a trabalhar.” “Estou com fome e meus filhos têm fome.” Frases desse tipo, ou como “filhos descontrolados matam por tudo e por nada”, nos remetem ao horror da guerra colonial, aos sofrimentos da descolonização, às amarguras sofridas por Angola. O texto aborda problemas sociais sérios, através da imagem de uma Luanda machucada, ferida na guerra.

Contudo, a figura masculina, que representa a esperança, apregoa que são os problemas que trazem sabedoria e mudança. Prega esperança, apesar de tanto desespero presente. Porém, enquanto ele assegura essa possibilidade positiva, Luanda está de costas para ele, desacreditada, e diz: “o sonho e a esperança são dois calmantes que a natureza ofereceu ao ser humano”. Recurso que, aparentemente, não está mais disposta a utilizar. Ela sai de cena e ele chora, jogado ao chão.

O homem solta um grito de dor acompanhado de uma trilha sonora perfeita, agonizante como o texto da peça. Não é dito nada aqui, porque nada precisa ser dito. Ele pega uma garrafa de algo alcoólico e bebe. Abre a camisa, tira-a – fica de camiseta, infelizmente, pois é belíssimo. Já aparentemente bêbado, descalça os sapatos. Pega um saco preto de lixo num dos baldes, vai apagando as velas e as recolhendo, até o cenário ficar praticamente no escuro. Escuro como a vida deles. Pouco a pouco ele vai desmontando o precário cenário, deixando no novo vazio uma angústia ainda maior.

Este homem olha a sua volta, calça Havaianas, coloca uma guia no pescoço, religiosidade que não poderia ser esquecida, põe um chapéu e pega uma rede de pesca, trazendo à tona uma das figuras mais importantes da tradição angolana: o pescador.

Nesse momento, a mulher aparece renovada, agora como uma típica luandense, e o encontro entre os dois acontece, enquanto o painel com a foto da cidade vai descendo. Então, Luanda faz uma declaração de amor ao pescador. Mais uma vez é feita a aproximação da mulher à cidade ao afirmar-se que toda a mulher é problemática. Mas não com o sentido cômico que a platéia identificou. Com um sentido dramático, relacionado aos problemas que foram apresentados anteriormente.

O espetáculo termina com a cena de um beijo apaixonado, ao som de uma música que fala sobre o pescador, selando o amor entre a cidade e seu povo. E a esperança cai sobre eles em forma de confetes.

Nesses 50 minutos, vi retratado vários dos problemas que costumo encontrar nos textos que falam de Angola. São minutos perfeitos, exatos, intensos. Trata-se de uma peça poeticamente política e dramática. Um comovente espetáculo. Uma ótima leitura que me virou do avesso. Há muito tempo um texto não me atingia em cheio como esse.

País: Angola
Grupo: Henrique Artes
Direção: Henrique Artes
Elenco: Flávio Ferrão, Hélio Taveira, Naed Branco, Ailton Silveiro, Anísia Correia.

 


Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.