A hora do arco-íris
Tive o prazer de assistir à peça “A hora do arco-íris”, do Grupo português Teatro da Garagem, no Sesc Arena. Embora sinônimas, acredito que a palavra “espetáculo”, em vez de peça teatral, seja mais adequada ao que pude presenciar essa noite.
O Teatro Garagem que define seu trabalho como de “pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para o teatro e de novas formas cênicas que a acompanham”, tem como diretor artístico Carlos J. Pessoa e, nesse espetáculo, conta com texto do próprio, direção de produção e interpretação por Maria João Vicente, e um elenco composto por uma atriz, Ana Palma, que iniciou seu trabalho no grupo em 2001.
O espetáculo em questão tem início antes mesmo de começar. Com as luzes semi-acesas, o público ainda se acomodando em seus lugares, pode-se verificar a silhueta de uma mulher sentada sobre um banquinho de pau, dentro de uma casinha de madeira, à beira de um deck.
Já se pode sentir uma atmosfera de solidão e angústia ao vermos aquela casinhola. Um espaço que transparece sufocamento e que faz-nos sentir, ainda que com a atuação apenas corporal, ainda muda, mas vigorosa de Ana Palma, enclausurados como a personagem. Uma casa em que cabe apenas uma pessoa, uma mulher de cabeça baixa, uma maleta de viagem. Uma casa que acomoda uma pessoa, mas não todos os seus pensamentos.
E então conhecemos Maria.
Aventurando-se na estrada e em suas memórias, Maria resgata o tempo passado, promovendo uma releitura dos seus anos, das suas escolhas, da sua vida. É sozinha em seu trailer (ou auto-caravana, como se diz em Portugal), no silêncio da estrada, que a mulher encontra vozes de outros tempos. Suas reflexões, nascidas da solidão, apontam para a ausência de todas as coisas, inclusive de si mesma. Maria é uma voz que sente o vazio da ausência.
Quem espera uma peça direta e objetiva, com uma temática leve e de fácil compreensão, deve sair decepcionado. A peça aborda um tema bastante subjetivo e denso, que é o da ausência. A encenação de Ana Palma, tão cheia de dramaticidade e intensidade, deve tocar, acredito eu, mesmo os mais insensíveis. Quem já não mergulhou em questionamentos e fez ressurgir vozes esquecidas do passado? Quem já não se sentiu sufocado estando sozinho e sozinho no meio da multidão?
Os sentidos são muito bem explorados durante todo o espetáculo. As luzes, operadas e desenhadas por Miguel Cruz, acompanham a angústia de Maria, por vezes focando apenas seu rosto, ressaltando a ausência de tudo a sua volta, inclusive de seu corpo.
Com composição, interpretação e operação de Daniel Cervantes, o som, que reproduz o canto dos pássaros, o tilintar da chuva, o latido dos cães, além de melodias em alguns momentos, funciona – e de fato funciona – como um estímulo aos sentidos, além de reforçar as emoções exploradas no palco.
Com um misto de alegria e desespero, Maria celebra o som dos pássaros, dos insetos, da natureza: é a hora das rolas, a hora das cigarras, a hora dos grilos. Com uma ingenuidade infantil, cada hora é festejada.
Mas e sua hora?
“O último sentido da vida é sentir”, diz uma das vozes do passado de Maria. E ela sente os sentidos com a intensidade de quem acaba de nascer. A chuva cai e ela pode sentir o cheiro da paisagem. É a hora da chuva.
É sentindo a água escorrer em seu rosto que Maria percebe um rasgo do sol na chuva que cai. Ao longe, forma-se o arco íris. Tudo tem sua hora; e essa é a hora de Maria.
A viagem reflexiva da personagem é dramatizada com tanta vida que, após a encenação, não tive vontade de dissociar imediatamente a atriz Ana Palma de sua personagem. Foi com muitos aplausos oferecidos por um público que teve que ficar de pé para demonstrar a imensa satisfação pelo trabalho mostrado ali, que fui embora, muito reflexiva, meio silenciosa, com um sorriso de encantamento no rosto.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































