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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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14/06/2008

Luto Clandestino

A peça Luto Clandestino, de Jacinto Lucas Pires, representada no calçadão de Copacabana pelo grupo português O Bando, é uma experiência teatral inesquecível.

Adquirimos os ingressos na bilheteria do SESC da Domingos Ferreira e nos juntamos ao grupo da Festlip, reunido na calçada, junto aos prédios, entre a Santa Clara e a Figueiredo Magalhães. Trocamos nossos documentos de identidade por MP3 Playeres e começamos a entender como iremos participar do espetáculo.

Luto Clandestino, do grupo O BandoChega a ser engraçada a curiosidade dos transeuntes, mas como em Copacabana acontece de tudo, não vi nenhum parar e perguntar o que estava acontecendo ali. Talvez porque esse bairro seja sempre palco das mais diversas situações e esses pedestres tenham a certeza que logo à frente encontraram uma cena tão excêntrica quanto essa e que se pararem em cada uma delas para se interarem nunca chegarão aos seus destinos.

A atriz inicia a interpretação na calçada em frente a que estamos, tendo, portanto, uma das pistas nos separando dela. Isso cria um clima difícil de descrever. A proposta do voyeurismo nos é dada com tanta sutileza, que quando percebemos a música clássica, que ouvimos em nossos fones, para passar o tempo e testar os aparelhos, fica apenas ao fundo da voz da atriz que parece pensar alto do outro lado da rua. O outro ator, um homem mais novo do que ela, a encontra e começam o diálogo. Aos poucos vamos percebendo que as personagens têm em comum uma dor: a morte de Martha – namorada, ou esposa, desse homem, chamado Antonio, e filha dessa senhora. E, clandestinamente, vemos e ouvimos o luto dos dois.

O barulho da rua, o movimento dos carros, os ônibus cheios, o trânsito tumultuado, um grande grupo olhando na mesma direção, cães passeando, o tempo que os atores demoram para conseguirem atravessar a Avenida Atlântica, tudo é motivo para repensarmos as coisas corriqueiras do nosso cotidiano que, muitas vezes, passam desapercebidas.

A essa altura os atores já estão na mesma calçada que nós e vamos acompanhando, também nos movendo, seus movimentos. Posicionamo-nos para melhor olharmos os atores, nos aproximamos, nos distanciamos, até notarmos que não há a mínima necessidade de ficarmos juntos e vamos, aos poucos, confortavelmente, abrindo mais espaço entre nós e entre nós e os atores. Espaço que, em vez de nos separar, incrivelmente, nos aproxima ainda mais.

As personagens conversam sobre como Marta era para cada um. Assunto iniciado pela mãe: “Ela era muito irritante, às vezes. Eu sou a mãe dela…” Ao que Antonio imediatamente responde: “A senhora não a conheceu como eu conheci.” A senhora, então, conta um episódio em que ficou vendo quanto tempo a filha agüentava tão parada. E que Marta tomou aquilo com irritação: “Que aquilo não se fazia. Espiar a filha na própria casa.” – Ainda bem que Marta está morta, se ela não gostou da mãe a observando dentro de casa, imaginem o que iria achar de 50 pessoas fofocando sua vida?

Com os relatos, percebemos que esse relacionamento entre mãe e filha era um pouco conturbado, cheio de silêncios, de mágoas. Mas, mesmo tratando-se de um drama, a peça é tão agradável, tão bem executada, que nós, espectadores, nos sentindo imensamente felizes ao ver aquele ótimo trabalho, que nos entreolhamos e sorrimos a cada minuto.

Notamos, então, mais um elemento em cena: um carro estacionado, um Corcel. Os atores entram no carro e continuam a encenar. Antonio revela o motivo da morte de Marta: eles tiveram um acidente de automóvel. Nesse momento, a música que ouvimos nos fones, parece vir do som do carro, criando um clima perfeito, a sensação é que estamos dentro do carro com eles. Antonio continua: diz que depois que viu o carro pronto, carro que Martha lhe falava ser para a vida inteira, percebeu que ela o queria para mostrá-lo à mãe.

Por meio de um texto, muitas vezes, simbólico, apesar de simples, vamos entrando em contato com a dor dessa mãe. Dor tão grande que se ela pudesse dava a própria vida para Marta. E, brilhantemente, ela consegue uma maneira de fazer isso. Pede a Antonio: “Imagina que sou a Marta. Isso, antes do desastre.” Ela o tortura com esse pedido e ele sai do carro, transtornado, batendo a porta, dizendo: “Por que tu faz isso?!” Ela também sai do veículo, vai até ele, pede desculpas, volta para o carro, mas continua a torturá-lo: “Já viste as minhas pernas? Ainda sou bastante… ?” Temos a impressão que ela quer tomar o lugar da filha. No entanto, não por uma paixão pelo genro, mas por querer acabar com aquele vazio deixado por Marta.

Descobrimos também que ele se sente culpado pelo acidente: “Vim aqui para que me perdoe. Um carro entrou na nossa frente. Não tive culpa.” Ao que a senhora responde, meio ironicamente, que todos dizem isso. Mas, ela quer que ele continue a falar: “Toda gente tem uma história. Tu tens a tua…” e pede que ele conte como foi o último dia de Martha, o dia do acidente – Será com a finalidade de começar de onde ela parou? E Antonio continua: “Era noite já. Tínhamos dado um passeio de carro e voltamos para aqui…”, e reconstitui a noite do acidente através da narração. Ela pergunta o que a filha dizia. Ele responde exaltado: “Ela cai, desmaia e morre!”

Parece que ele ao contar aquilo, tenta se livrar da culpa que o consome: “Hoje é difícil dizer as palavras todas…” Ao que a mãe argumenta: “Mas tu disseste bem. Palavras normais.” E o diálogo aflito continua. Ele diz que aquilo parece não fazer sentido e ela diz que estava escrito, tinha que ser. Nesse momento bem dramático do texto, um flanelinha grita: “Vem! Vem! Joga agora! Joga!”, mas nem isso tira a atenção dos espectadores e a senhora continua: “Imagina que dissestes essas palavras e eu sou a Marta. Tu és tu e eu a Marta”. Numa tentativa impressionante de preencher o vazio deixado pela filha. Antonio pede desculpas e diz que não pode fazer aquilo. Ela replica: “Tudo bem. Vou pôr isso no olho.” – acende um palito de fósforos e ameaça se cegar. Ele volta, apaga o fósforo e pergunta: “Tudo bem? Tudo bem, Marta?”. Ela pede que ele lhe dê as mãos, ele perdão e se beijam. Tudo isso com um tom flagrante de desespero, com a única intenção de conseguirem, juntos, uma maneira de acabar com aquele sofrimento.

A senhora sai do carro e nos diz: “Essa é a minha história, todos tem uma história. Luto contra ela, mas ela volta sempre e outra vez…”. Mas, como nos explica Jacinto Lucas Pires, na sinopse: “no essencial, trata-se de uma história simples, uma história comum: como a morte, um cigarro apagado e um automóvel num lugar escuro.”

Aplaudimos, ela tira Antonio do carro, ele parece ainda atordoado. Depois dos aplausos ela o coloca no carro novamente e vai embora. Eles não deixam de representar as personagens em nenhum momento: o ator que representa o homem sai do carro ainda como Antonio e vai embora. Cada um segue um caminho e não os vemos mais.

Essa peça trata-se, sobretudo, de um drama urbano. Além, lógico, do drama da mãe e do viúvo. O texto nos atinge porque vamos embora com a lição que todos com quem cruzamos nas ruas carregam uma história e que, infelizmente, não poderemos sintonizar nossos aparelhinhos para as ouvirmos, não teremos acesso a essas histórias sem nos expormos a um contato direto com essas pessoas.

Fui embora pensando: será que todo esse povo que anda com fone nos ouvidos está ouvindo a conversa de terceiros e eu não comprei meu ingresso? Mas nem fico tão chateada, porque sempre que posso, munida da minha antena ‘Tecsat’, procuro ouvir a conversa dos outros nos ônibus, presto atenção quando percebo alguém ao telefone, ou me aproveito de outra situação qualquer. Porém, o texto, simples, mas muito bem elaborado, que aborda vários temas psicológicos e urbanos, não nos dá somente o prazer do voyeurismo, é muito mais do que isso. Dá-nos a certeza que não se sofre sozinho nesse mundo. A certeza de que todo mundo que anda por aí tem uma história.

Peça: Luto Clandestino
País: Portugal
Grupo: O Bando
Diretor: João Brites
Texto: Jacinto Lucas Pires
Elenco: Filipe Carvalho, Paula Só
Desenho Luz e Operação de Som e Luz: João Cachulo
Desenho de Som: Sérgio Milhano

 


Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.

Luto Clandestino



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