Fim dos Tempos
Quando ocorre uma grande tragédia, a população se divide em três grupos: 1. os que fazem parte da tragédia e efetivamente morrem, 2. os que estão distantes e se tornam explicadores e comunicadores dos fatos e 3. os que estão próximos, mas não são afetados no momento, tendo que conviver com o fantasma do imediatismo da fatalidade. É nesse terceiro grupo que Night Shyamalan encontra material para contar a história de Fim dos Tempos, filme que explora o atual estado de paranóia do mundo pós 11 de setembro. Terroristas como vilões? Nada disso, só o bom e velho medo do desconhecido e o melhor começo de suspense da última década.
Primeiro alguns números para desmistificar o suposto fracasso comercial de Shyamalan. Voltando dez anos, seu maior trabalho é sem dúvida O Sexto Sentido. Com um orçamento de 40 milhões (sempre em dólares), ele arrecadou 670 milhões, renovou a carreira de Bruce Willis e ainda ajudou a lançar Haley Joel Osment, o garoto-robô de Inteligência Artificial. Não existe cinéfilo que ouça a frase “I see dead people” e não a associe diretamente ao filme. É o que chamamos vulgarmente de sucesso. Só que o sucesso criou um problema para o diretor: por mais que a história fosse interessante e o roteiro bem construído, o que mais chamou a atenção dos espectadores foi a virada de trama no final, criando a falsa noção de que todos os filmes de Shyamalan teriam que ser assim. Normal que houvesse expectativa em torno do trabalho seguinte, que trazia novamente Bruce Willis no papel original e ainda contava com Samuel L. Jackson. Com um orçamento um pouco maior (75 milhões) Unbreakable dividiu público e crítica. Ninguém entendeu muito bem a história de super-herói sem herói e sem super, mas ainda assim ela arrecadou 248 milhões. O que Shyamalan estava mostrando de fato é que iria brincar de subverter gêneros ao longo da carreira. Primeiro um filme de sobrenatural sem interação conflitante entre mortos e vivos, em seguida um filme de super-heróis sem clima de HQ. Não foi surpresa que Sinais, o terceiro trabalho, fizesse a mesma coisa. Para tristeza dos fãs de ficção, o alvo da vez foram os ETs.
Sinais fala de símbolos que aparecem em plantações e anuncia uma invasão alienígena premente, mas escolhe acompanhar a reação de uma família comum (Mel Gibson e Joaquin Phoenix) à confusão mundial diante da falta de informação. Os ETs, inclusive, só aparecem mesmo nas imagens que os protagonistas assistem pela televisão. Em outras palavras: o foco do filme de ETs não eram os ETs nem a invasão. Foi nesse filme que o diretor começou a mostrar seu domínio do vazio, o uso dos silêncios e do que não está lá para dizer mais do que as imagens. Foi nele também que extrapolou sua subversão de gêneros e passou a tratar de temas e sentimentos atuais através da ficção. Mais do que ETS, o filme fala da crise das crenças diante da tecnologia e de como a mídia interfere em nossa captação de informações, contribuindo mais para formar do que dissipar a sensação de medo do que está por vir. Nada mais, nada menos. Infelizmente, a falta de ETs convincentes (os ETs são realmente ridículos) espantou platéias potenciais e o filme de 72 milhões arrecadou a bagatela de 408 milhões. Com três blockbusters no currículo Shyamalan não conseguia desassociar seu nome da palavra fracasso. A situação complicou um pouco mais quando lançou A Vila. Dessa vez, uma campanha de marketing equivocada jogou de novo o foco em cima da virada de trama. A frase no trailer que nada mostrava era a seguinte: veja o filme, não conte o final. Bem, então as viradas de trama que não se concretizaram estão de volta? Não. E descobrir isso não foi nada agradável para o público. A fábula de Shyamalan contava a história de um grupo, supostamente moradores de uma vila com ares medievais que não podiam cruzar determinada fronteira porque lá viviam monstros. Se tocassem o vermelho os monstros também apareciam e atacavam todo mundo. O exterior era o grande inimigo, o interior a segurança e a personagem principal uma cega. Shyamalan havia decidido falar do medo do povo americano de tudo que é estrangeiro. Na floresta vazia, monstros imaginários rondam à espreita esperando para atacar. Se não obedecermos às regras, por mais equivocadas que pareçam, tudo dará errado e a culpa será sua (a culpa nunca é nossa, sempre sua). Com Joaquin Phoenix e Adrien Brody no elenco, A Vila custou 60 milhões e arrecadou 256 milhões. Outro suposto fracasso, apesar do bom retorno sobre investimento.
Para piorar de vez a reputação de Shyamalan, em 2006, veio A Dama na Água. Outra vez, um erro de marketing ajudou a afundar a bilheteria. Ou você também venderia uma fábula infantil com viés de comédia sobre uma ninfa que mora na piscina de um hotel como uma história de suspense para adultos? Dessa vez, Shyamalan ficou no limite e os 70 milhões que gastou renderam apenas 72 milhões, o que significa prejuízo se considerarmos os gastos com a tal campanha de marketing.
Com esse resumo ligeiro de 10 anos é possível entender a atmosfera em torno de cada trabalho do diretor. Acredite, é sempre o mesmo repeteco entre fãs, cinéfilos, críticos e quem mais fizer parte da equação, talvez o pipoqueiro. Não importa que história ele vá contar, que estúdio esteja bancando, quem seja o protagonista da vez, a pergunta sempre é: será que dessa vez ele fará um novo O sexto sentido?
Aparentemente, Shyamalan não tem nenhuma vontade de voltar no tempo. Muito pelo contrário, Fim dos Tempos não dá pistas sobre o futuro, só funciona como um aprofundamento de todos os elementos que o diretor trabalhou até então: o medo do desconhecido, o vazio, a incomunicabilidade, o silêncio – sempre variações da ausência.
O filme tem um começo assustador e impactante visualmente, o que é fundamental para a manutenção do suspense até o fim. Nuvens brancas se formam no céu enquanto passam nomes de atores. Aos poucos a tensão da música aumenta e as nuvens vão se condensando, ficando negras, passando cada vez mais rápido. Corta para o Central Park, um dia lindo. Duas amigas conversam no banco. De repente uma delas percebe algo de errado. As pessoas, todas as pessoas, simplesmente param de andar. A amiga repete frases sem sentido. Todas as pessoas começam a se matar. Corta para uma obra. Alguns trabalhadores se divertem com piadas. Um corpo desaba ao lado deles. Um amigo morto. Enquanto chamam socorro, desaba outro corpo, e outro. De baixo para cima na perspectiva da câmera, diversos trabalhadores simplesmente saltam de encontro à morte. Algo maior está acontecendo.
É claro que mil explicações serão dadas no decorrer da história e todas serão irrelevantes. Uma vingança do planeta, um distúrbio psicológico, o governo americano testando novas armas, um vírus mortal? Não importa. O cerne de Fim dos Tempos é universal em época de Irã nuclear, sumiço de abelhas e aquecimento global: paranóia. Esse estado de tensão que transforma tudo em perigo. Se não conhecemos o inimigo não podemos reagir e rapidamente passamos a identificá-lo no pouco que entendemos, voltando nosso medo para as pessoas ao redor. E a situação só tende a piorar, já que conforme as mortes avançam diminui o número de pessoas com quem conversar e a quem recorrer. Ninguém atenderá ao telefone para ouvir socorro, nenhum cientista gritará eureca e anunciará a solução. Talvez não faça diferença para o grupo 1 e 2, mas para o 3 sobreviver é fundamental.
Em tempo: Shyamalan continua um diretor acima da média e um roteirista tentando chegar lá. Se você é fã de um bom suspense, gostou de Os Pássaros de Hitchcock e não é dependente químico de efeitos especiais, não deixe de conferir Fim dos Tempos. E se alguém falar mais tarde que foi um fracasso, agora você já sabe, essa é uma longa história.
Em tempo 2: Shyamalan disse que Fim dos Tempos é um filme B divertido. Não deixa de ter razão.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















