Capitu Memória Editada
Escrita e dirigida por Edson Bueno, a peça Capitu Memória Editada esteve em cartaz nos dias 6 e 14 de junho de 2008 no Espaço Sesc Arena, em Copacabana. Representada por um grupo de cinco artistas paranaenses, entre eles o próprio diretor do espetáculo, e a convite do evento cultural FESTLIP – Festival do Teatro da Língua Portuguesa, a peça, como o título já sugere, aborda a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Num ano de comemoração dos 100 anos da morte de Machado, muitos eventos culturais vêm sido promovidos pela cidade. Este espetáculo, coincidência ou não, veio visitar o Rio de Janeiro em uma data bastante representativa para a literatura nacional.
Em uma sala repleta por um público bastante diversificado – jovens adultos e jovens senhoras – encontramos no palco, ou melhor, no centro da arena, uma mobília antiga, quadros com a figura do Pão de Açúcar, velhas fotos de família e cinco atores já em encenação, cada um exercendo uma atividade.
Como o título sugere, a peça tem ligação com o romance, de modo que o público já tem uma mínima noção do que vai assistir. A surpresa do espetáculo fica por conta das estratégias de encenação, que oferecem nova roupagem ao romance. De acordo com a sinopse, o grupo de Curitiba propõe refletir o universo machadiano, sem, no entanto “levar o romance ao palco, e sim a sensação de mistério que o livro traz”. De fato, não assistimos à representação do romance, mas uma releitura deste, através de outros pontos de vista e de uma linguagem diferente.
Como leitora de Machado, pude compreender a abordagem da peça. Fico apenas na dúvida quanto ao entendimento da trama por parte daqueles que não tiveram acesso à obra Dom Casmurro. Contudo, suponho que quem estava ali presente tenha lido o romance.
Voltemos à referida “surpresa do espetáculo”, aquilo que a distancia do que seria a representação ipsis litteris do romance: A peça conta com cinco atores, cada qual representando um ou dois personagens. Um dos atores representa Bentinho quando jovem e também um jovem ator que ensaia uma peça em que representará Bentinho. Outro representa Bentinho mais velho, além de um homem contentíssimo por estar restaurando uma raridade: uma edição de 1913 da obra Dom Casmurro. Uma das duas atrizes representa Capitu. A outra dá conta de dois papéis: é mãe de Bentinho, além de modista de uma loja de roupas de época. O quinto e último ator representa Escobar, amigo de Bentinho, e também um sujeito amigo do ator que ensaia para representar Bentinho. Pode parecer confuso, mas quem se lembra, ainda que vagamente, do romance, consegue se localizar no meio desse caleidoscópio.
Vale ressaltar que representar dois papéis ao mesmo tempo e ter a capacidade de fazer com que o público entenda essa transição não é para qualquer um. Isso requer experiência por parte daquele que atua, que tem que fazê-lo muito bem, e habilidade por parte do dramaturgo, que precisa delimitar de modo suave onde começa um personagem e onde outro começa.
Outro ponto interessante de Capitu Memória Editada é a encenação de um diálogo com o público, ao qual os personagens chamam “leitor amigo”, “caro leitor”, “pasmo leitor”, “leitora amiga”. Ainda que encenação, esse “contato” promove uma aproximação entre o palco e os expectadores, de modo que o público sente-se não só testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice dos personagens.
Em vez de contada sob o ponto de vista de Bentinho, na primeira pessoa, como no romance machadiano, em Capitu Memória Editada todos têm voz: cada personagem expõe seu ponto de vista. O toque de bom humor fica por conta das intervenções que um faz na memória do outro enquanto a narrativa é desenvolvida. Enquanto Bentinho novo narra um episódio que diz ter acontecido com Capitu, Bentinho velho intervém: “Isso não aconteceu!!” e Betinho replica: “Aconteceu sim!!”. Como esse, muitos outros diálogos, que por vezes acabam por reunir milagrosamente todos os nove personagens em cena, tiram muitas risadas do público.
Em outros momentos, os personagens tornam-se expectadores. Enquanto se desenrola uma cena com Capitu e Escobar, os outros três atores sentam-se em cadeiras no fundo do cenário, com pouca luz, como em segundo plano, e riem-se com o público daquilo que estão assistindo.
Muito bom ser surpreendida por uma proposta diferente para um romance tão lido e já tão estudado e esmiuçado. Em princípio estava com uma expectativa bastante negativa, pensando no quão maçante a peça poderia ser. Contudo, a releitura do romance proposta pelo grupo paranaense dá certo à medida que trás ao palco algo novo. Quantas vezes “inspirado” não acaba revelando-se “transcrição”! Nesse caso, o termo foi bem empregado. Infelizmente, o FESTLIP foi encerrado dia 15 de junho, e com o evento foram encerradas também as apresentações de Capitu Memória Editada.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































