As Filhas De Nora
O grupo moçambicano Mutumbela Gogo trouxe ao Festlip o espetáculo As Filhas da Nora, uma adaptação do texto “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen, feita pelo sueco Henning Mankell – “que faz uma leitura a partir da experiência moçambicana. No texto original, a protagonista Nora abandona o marido e suas três filhas ao descobrir que sempre fora tratada como uma boneca, e não como uma mulher. É um escândalo para a sociedade. A versão de Mutumbela Gogo trata das filhas que foram deixadas pela mãe. O que terá acontecido com elas? A partir desta questão, são debatidas as contradições e relações de afeto entre os indivíduos.”
Visitando o túmulo da mãe que as abandona, morta há dez anos, duas irmãs discutem enquanto esperam a outra irmã atrasada. O cenário é simples: apenas uma réplica de uma sepultura quase no centro da arena do Espaço SESC Arena, mas, isso não diminui em nada o belíssimo espetáculo que assistimos.
As três irmãs discutem vários temas, mas o principal são os motivos que levaram a mãe a abandonar a casa quando as três ainda eram pequenas e a falta que essa mãe fez - “ela faria 62 anos e eu ainda sinto sua falta”. Num texto que transborda mágoas, aflições, dor, solidão, abandono, mas também alegrias, as personagens vão contando sua história, apresentando seus problemas atuais e relembrando os momentos felizes, outras vezes não, de suas infâncias.
Um dos motivos que elas alegam para o abandono é o fato de serem meninas, tudo o que a mãe queria era ter um menino: “Quando eu ficar velha quem vai cuidar de mim?” – diz uma delas reproduzindo a fala da mãe. Aliás, são essas reproduções da fala de terceiros, ou uma das outras, que dá uma marca especial a essa peça. Com essa técnica, em que, às vezes, as personagens são elas mesmas, às vezes, apenas transeuntes que comentam a beleza de uma das irmãs, repassando cenas do dia-a-dia ou de um passado mais remoto, as atrizes mostram que não é necessário mudar o figurino, ou mesmo o tom de voz para a platéia perceber que não estão interpretando mais suas personagens originais e sim outras pessoas. Isso tudo com uma naturalidade que dá leveza à peça e a torna muito agradável de assistir.
As personagens riem, se divertem, dançam, recompondo suas memórias, e divertem também o público. Iolanda, Graça e Isabel tiveram uma infância feliz por ter uma às outras. O abandono da mãe realmente as traumatizou, mas, agora, adultas, duas já com filhos, parecem ter uma nova percepção do fato. Como quando uma delas culpa a mãe e a outra responde que cada uma é responsável por si e que não sabem o que aconteceu para julgar. Nora queria ser livre, mas o marido não deixava. Queria estudar, trabalhar. Sempre acreditando que poderia manter o contato com as meninas, mesmo distante. Mas, o marido tornou isso impossível e elas nunca mais souberam da mãe.
Quando o texto não é engraçado, é poético. Por exemplo, uma delas conta como se lembra da mãe: lembra da mãe parada e depois indo embora numa rua cheia de poeira. Já a mais nova, que constrói a lembrança da mãe apenas com o que contam para ela, pois era muito pequena, lembra-se do cheiro de Nora – cheiro de manga.
Graça, a irmã mais velha, é uma camponesa, casada, com duas filhas, de 13 e 15 anos, que reconhece a importância do seu papel na sociedade. Sem ela, pessoas, como a irmã Isabel, não teriam o que comer. Iolanda, irmã do meio, está grávida do segundo filho, e agora vive só, pois colocou o marido para fora quando descobriu que ele tinha uma outra família, e deu à filha com a outra mulher o mesmo nome que deu à filha dela. Isabel, irmã mais nova, é solteira, preza sua liberdade. Consegue dinheiro acompanhando homens, mas deixa bem claro que não é uma prostituta – o que as irmãs duvidam. Mas Isabel prefere viver isso a fazer o que os homens mandam e apanhar de um marido como as irmãs. Elas perguntam-se: “Qual a diferença entre nós? Vivemos vidas diferentes, mas no fundo, somos iguais.” E percebem que a mãe sim era diferente, mas não aprenderam nada com ela. Nora é a heroína e culpada por estarem ali sem vida própria. Reconhecem que a mãe tentou viver sem homem e Isabel propõe que voltem a viver juntas, elas e as filhas das irmãs, voltando a ser uma família. Uma delas diz: “Isso quer dizer guerra contra os homens?” E Isabel rebate que não: “Quer dizer que eles têm que nos entender”.
O texto trata dos papéis de homens e mulheres e concluem que “as mulheres não lutam: discutem, berram, mas não lutam.” As irmãs chegam a conclusão que não têm que perguntar mais nada a mãe, mas procurar a resposta nelas mesmas. E que precisam voltar a ser irmãs. Quando forem grandes, querem ser apenas elas mesmas, nada mais. É um texto denso, que passa por vários assuntos que despertam os mais diferentes sentimentos, mas é também um texto cheio de esperança, que reconhece a necessidade da família associada, porém, à liberdade individual.
País: Moçambique
Peça: As filhas de Nora
Grupo: Mutumbela Gogo
Diretor: Manuela Soeiro
Elenco: Graça Silva, Lucrécia Paco, Yolanda Fumo
Jarcélen Ribeiro é Mestranda em Estudos de Literatura, PUC-Rio. Bolsista do CNPq.


















